No Brasil, são demitidos por ano 17 milhões de trabalhadores

Pedro do Coutto

Sempre afirmo que é preciso cuidado com os números, pois vistos isoladamente podem iludir. Comparativamente é outra coisa, muito diferente. Depois da descoberta de um gênio muito mais conhecido do que todos nós, chamado Einstein, em 1905, tudo passou a ser relativo. Só Deus é absoluto, afirmou ele quando em 1931 consolidou sua teoria. Mas Deus para ele não se tornava uma figura de tradução humana. Não era o Deus de Michelangelo. Humanizado. Era uma entidade superior intemporal. Mas esta é outra questão. Afastando o leve humor contido no texto acima, quero me referir ao mercado de trabalho em nosso país. E relativizá-lo.

Sim. Porque com base nos Diários Oficiais de 29 de julho de 2011 e 2 de agosto de 2010, na parte em que publicam relatórios anuais da Caixa Econômica Federal sobre o desempenho do FGTS, percebe-se o  que ocorre na verdade. Não quero dizer com isso queo Ministro do Trabalho não esteja dizendo a verdade quando anuncia a contratação, com carteira assinada, de mais de 2 milhões de empregados. Tudo bem. Mas é preciso considerar não apenas o número de admissões, mas paralelamente o de demissões. O saldo é o X do problema.

Em 2008, por exemplo, foram praticadas 16,5 milhões de demissões sem justa causa que causaram saques no Fundo de garantia de 24,5 bilhões de reais. Em 2009, houve 17,3 milhões de dispensas produzindo saques de 30,9 bilhões de reais no FGTS. Finalmente em 2010, D.O. de 29 de julho de 2011, foram concretizadas 17,5 milhões de demissões. Saques no FGTS da ordem de 30,8 bilhões de reais. O que se percebe desses números?

Em primeiro lugar, uma cifra constante de demissões, média superior a um milhão e quinhentos mil por mês. Ou 50 mil por dia. Em segundo lugar, verifica-se um declínio na média salarial dos atingidos pela retroatividade. Claro. Se em 2009 ocorreram 17,3 milhões de despensas e saques no FGTS de 30,9 bilhões, e em 2010 para um total de 17,5 milhões de demissões os saques foram de 30,8 bilhões, a média da remuneração recuou, não subiu. Claro. Porque de 2009 para 2010 houve uma inflação de 5,3% de acordo com o IBGE. Assim, se o salário médio houvesse crescido realmente o volume dos saques teria sido bem maior do que foi. É só ler as estatísticas. Tudo é relativo. Na Terra. No Ceu é outro assunto.

Mas vamos voltar no tempo e chegar a 2008. Foram feitas 16,5 milhões de demissões e efetuados saques de 24,5 bilhões no Fundo. Mesmo sem considerar a taxa inflacionária entre um ano e outro, vemos de plano que a média de 2008 é maior: praticamente um mil e quinhentos reais por empregado/conta. Este índice cai para um mil e trezentos ou quatrocentos reais por empregado/conta. Onde está a ascensão social da classe trabalhadora vista como um todo? No espaço.

O aumento de vagas no mercado de trabalho – um fato, Lupi tem razão – não foi acompanhado pela média de vencimentos. Neste ponto, comparemos as arrecadações de 2008, 2009 e 2010 do FGTS. Em 2008, 51 bilhões. Em 2009, 54,7. Finalmente em 2010, 61,7 bilhões de reais. De 2009 para 2010, a receita cresceu 11%. A média dos saques contratuais, incluindo a multa de 40%, permaneceu a mesma. Aumentou a base de arrecadação. Não aumentou a dos desembolsos.

Eis aí desvendado o enigma. Relativamente descoberto.

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