No “House of Cards” brasileiro, o suspense é saber se haverá quorum ou não

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Fotocharge reproduzida do Extra online

Carlos Newton

Não há o menor exagero quando os roteiristas da premiada série “House of Cards” reclamam que a ficção não consegue ser mais criativa do que a realidade da política brasileira. Trata-se, simplesmente, de uma constatação. Aqui no Brasil acontece de tudo. Por exemplo, o ministro-relator que tratava do maior escândalo de corrupção do mundo morreu num acidente aéreo quando viajava para um reduto paradisíaco, acompanhado de um empresário de má fama, de uma belíssima massagista e da mãe dela, que também não era de se jogar fora, digamos assim. Com toda certeza, os roteiristas de “House of Cards” jamais poderiam imaginar um acidente desse tipo, porque seria considerado inverossímil e sem condições de figurar na trama.

E não paramos por aí. Sem dúvida, a criatividade do enredo na política à brasileira é impressionante, com o governo tomado por uma quadrilha bem definida, cujo presidente da República é formalmente denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a Suprema Corte pede o afastamento dele por 180 dias, para ser investigado e processado, e a Câmara dos Deputados prepara-se para votar se autoriza ou não, em clima de total normalidade democrática.

CAPÍTULO ATUAL – Na política tropicalista, o suspense da votação na Câmara, com ou sem quorum, é o capítulo atual da série da vida real, enquanto House of Cards fica naquelas intrigas de bastidores sem maiores emoções.

O mais interessante, instigante e inquietante é que a crise política brasileira, que tem caráter permanente, já deixou de fazer estragos na economia. Embora o governo não tenha tomado nenhuma medida intervencionista capaz de motivar a retomada do crescimento, a situação vem se normalizando por osmose. Parece que a recessão bateu no fundo do poço e a economia enfim começou a emergir, apesar de os números apresentados pelo governo serem altamente suspeitos, como convém a esse tipo de trama política.

De toda forma, o fato concreto é que a economia se deslocou da política, como se estivessem em compartimentos estanques.

E A BOLSA SOBE… – Quando o jornalista Lauro Jardim divulgou em O Globo que a o empresário Joesley Batista gravara o presidente Temer em conversas nada republicanas, parecia que o Brasil vinha abaixo. No dia seguinte, 18 de maio, a Bolsa de Valores caiu tanto que o pregão teve de ser suspenso. Quando o índice desabou 10,47%, para 60.047 pontos, foi acionando o “circuit breaker”, em pânico geral, como convém a essas minisséries de impacto.

Mas era só brincadeirinha. O mercado foi se acostumando. A derrocada política não arrefeceu, mas a economia se descolou da crise. Nesta segunda-feira, 31 de julho, às vésperas de uma votação que pode afastar o presidente da República, a Bolsa subiu 0,64%, chegando aos 65,920 pontos, é como se estivéssemos no melhor dos mundos. Diante disso, como imaginar que os roteiristas de “House of Cards” tivessem tamanha audácia?

BRECHAS NAS LEIS – Ao contrário da realidade norte-americana, onde os votos são impressos e conferidos, é mais difícil encontrar brechas nas leis, no Brasil a legislação é muito mais complacente, pode ser violentada e estuprada sem maiores traumas. A famosa maioria absoluta aqui pouco significa, o presidente corrupto pode ser “inocentado” por apenas um terço dos votos e seguir em frente, como se não tivesse acontecido nada.

O mais incrível é que no Brasil ninguém sabe o que poderá acontecer, o roteiro é apresentado em tempo real, como um “reality show”. E o suspense do próximo capítulo é saber se haverá quorum ou não nesta quarta-feira. Se houver, o presidente será inocentado pela base aliada e a Justiça terá de se recolher à sua insignificância. Se não houver quorum, o suspense irá aumentando progressivamente, porque ninguém pode prever quando acontecerá a votação.

NOVELA SEM FIM? – O Planalto proibiu que os ministros deixem Brasília nos próximos dez dias, até que surja uma definição da Câmara, se é que isso vai acontecer, porque nada impede que o plenário continue sem quorum até o final da novela, que só acaba dia 31 de dezembro de 2018.

O presidente da República mandou também que os 12 deputados que estão hoje no Ministério deixem os cargos e reassumam os mandatos para votar contra a abertura do processo.

Diante desta realidade ficcional, como os roteiristas de “House of Cards” poderiam competir conosco? Eles tem bons motivos para estar decepcionados. E la nave va, cada vez mais fellinianamente.

10 thoughts on “No “House of Cards” brasileiro, o suspense é saber se haverá quorum ou não

  1. TEMER & DENÚNCIA & QUORUM> E falta um dia pro Temer não ser denunciado. A palavra do dia é: QUORUM! Brasileiro sofre: teve que aprender impeachment, Odebrecht, offshore e quorum. Vá tomar no quorum! O xingamento em Brasília é vá tomar no quorum. E o Frankstemer: “Pimentorium in quorum outrem, refrescus est”. Quer acabar com o quorum? Bota uma placa na porta do Congresso: “Corrupto não entra”. “Cabelo Tingido Não Entra!”. Acabou o quorum! Ou como disse aquele ex-presidente da Câmara de Itabuna: “Acabou o CLORO, está encerrada a sessão”. E todos para a piscina! VOTAÇÃO DA DENÚNCIA> E diz que o Maia vai alterar a ordem da votação: dos mais corruptos pros menos corruptos! Vamos tomar no quorum! E já tô imaginando a votação: “Pelas reformas e pelo cheque de R$2,8 milhões, digo não”. “Pela estabilidade, pela governabilidade e pela verba pra construir a ponte em Cabricó, meu voto é NÃO”. “Pelo golpe do golpe do golpe, meu voto é SIM”. “Fora, Temer! Feio, recalcado e do lar, SIM!”. E o PSDB já decidiu? Já! Decidiu não decidir! Rarará! Eu já falei que tucano é tão indeciso que se na casa tiver dois banheiros, c*** no corredor! Imagine um tucano votando: “Deputado, sim ou não?”. “Ah, não sei! Preciso decidir agora?’. (apud José Simão, in folha de SP)>adaptado…

  2. “Bem aventurados aqueles que são brandos e pacíficos”
    Capítulo IX do Evangelho Segundo o Espiritismo, por Allan Kardec, Injúrias e violência.
    Na parte da instrução dos espíritos fala sôbre A Afabilidade e a Doçura, A Paciência e Obediência e Resignação; finalmente sobre a Cólera.
    Estava esquecido destes ensinamentos, pois a última vez que li o livro, foi em 1976. Mais uma vez recebo a benção por estar lendo outra vez tão sábios ensinamentos.
    Vejo sua preocupação, Sr Carlos Newton, em uma ruptura social de baixo para cima; participo da sua preocupação e tenho medo (vi o que é estouro de “boiada” mais de uma vez na vida, sendo a última durante a greve da honrada PM de Pernambuco), por isso sugeri mais de uma vez a intervenção institucional militar.
    Acredito com a força de minha alma nos ensinos dos espíritos esclarecidos e aceito ter paciência.

  3. “belíssima massagista e da mão dela”?
    Ou seria “mãe dela”?

    Haja sinestesia…
    Freud chamaria isto de ato falho TÁTIL…..

  4. Muito oportuno o artigo do nosso incansável Mediador, Carlos Newton, trazendo à baila o seriado americano muito elogiado e vencedor de vários prêmios, House of Cards, e comparando as manobras políticas da Casa Branca com a corrupção e roubos da Casa dos Venais, o congresso nacional brasileiro.

    O comportamento do Legislativo supera qualquer ficção. Roteiristas com fértil imaginação jamais elaborariam um roteiro com os episódios deletérios e abjetos praticados por esta gentalha, transformando o seriado feito nos Estados Unidos uma espécie de “escolinha”, enquanto nossos “representantes” possuem até mesmo doutorado em crimes e delitos os mais diversos!

    Simplesmente o Brasil hoje é tido e havido como o país mais corrupto do mundo, com parlamentares igualmente os mais bem pagos do planeta, e registrando a maior recessão da sua história, e a mais longa!

    Se algum diretor ousado fizesse um filme com os fatos brasileiros no que tange à política, o final não poderia ser diferente quanto ao destino dos ladrões:
    FUZILAMENTO!

  5. “O presidente da República mandou também que os 12 deputados que estão hoje no Ministério deixem os cargos e reassumam os mandatos para votar contra a abertura do processo.”
    Na minha cabeça isso de deixar o cargo para votar é uma vergonha. O Presidente deveria dar o exemplo, sem tomar uma atitude dessa. Não acho normal isso.
    Deve ser crença de uma politicamente ignorante,

  6. Grande e talentoso artigo do Moderador, que trata a ficção como o outro lado de uma moeda real, que aqui está, tintilando, agora, na cara de todos brasileiros.

    Não estou sozinho ligado nessa tomada…

    Bendl, no tempo certo, mandou essa pérola em definitivo: ” O comportamento do Legislativo supera qualquer ficção” .
    Disse tudo, como sempre, com direito a abordar no final da novela, o fuzilamento sumário dos canalhas…

    Em tempo, Carlos Newton, sobre o meu comentário, ontem, abordando sonhos:
    ” Lutei por esse sonho. Aprendi com Jorge Amado que as utopias são possíveis”
    – Paulo Coelho, escritor, em 29/10/2002, ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras (ABL) e assumir a cadeira 21.

    • Andrade, meu caro,

      Volta e meia fico pensando com meus botões, e entendo as razões pelas quais o Criador, até o presente momento, nos deixou sozinhos no Universo, pelo menos neste sistema solar que fazemos parte:

      NEM ELE CONSEGUIRIA CRIAR GENTE TÃO ABJETA E DELETÉRIA como tem sido nossos parlamentares!!!

      Lúcifer está sendo perdoado e retorna aos céus, pois os verdadeiros demônios são os políticos nacionais!!!

      Um forte abraço.
      Saúde e paz.

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