No limite do hálito do dragão

Carlos Chagas

A lógica e a ética recomendam que o exemplo deve vir de cima, ainda que a prática demonstre o contrário. Desde que tomou posse, a presidente Dilma Rousseff empenha-se em não permitir que a inflação ultrapasse os cálculos da equipe econômica, mas a verdade é que o poder público, em suas várias esferas, comanda a alta de preços, fator essencial para inflar o balão inflacionário.                                                       

Ainda agora foi autorizado o aumento do pedágio da ponte Rio-Niterói, na base dos 36%, quer dizer, 3% ao mês, quando a inflação deveria ficar em 0.65% nos mesmos trinta dias. Em matéria de pedágios nas rodovias federais e estaduais, a moda tem sido a mesma, como nos vários postos da via Dutra. Dependendo dos estados, e falando por Brasília, o crescimento do IPTU este ano ultrapassou  os 40%. O IPVA ganhou por pontos. Não há imposto federal, estadual e municipal que não tenha sido elevado na mesma proporção.                                                       

Como esperar que a iniciativa privada, aquela que paga impostos, não tenha elevado os preços de seus produtos e serviços pelo menos em percentuais iguais? Basta ir ao supermercado ou à feira para comprovar as elevações.  Ou às lojas que vendem material de construção.  Para o cidadão comum, pior ainda, já que ele não pode elevar seus salários e vencimentos unilateralmente.                                           

O resultado  mede-se pelo receio do descontrole da inflação, manifestado por  uma duzia de ministros e pela presidente da República. Por ironia, demonstram os últimos escândalos flagrados no setor dos Transportes, até as propinas e as comissões foram alcançadas: já se cobra, ou se oferece, 30% dos superfaturamentos. Do que o estado encomenda e  compra, sejam remédios, automóveis ou livros escolares, os preços dobram mais do que os sinos das igrejas. Se o exemplo viesse de cima, quem sabe deixaríamos de estar  no limite do hálito do dragão?

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TENDÊNCIAS CONFLITANTES                                                        

Amanhã certamente não, mas terça-feira prevê-se que haja quorum no Congresso, pela reabertura de seus trabalhos. A pergunta que se faz é sobre a tendência dos trabalhos parlamentares neste segundo semestre. Juram os líderes dos partidos da base oficial que continuará o apoio irrestrito às iniciativas do governo, sem recalques nem revanchismo por conta da economia com que o palácio do Planalto atendeu às reivindicações de nomeações e liberação de verbas relativas às emendas individuais ao orçamento. Até o esfarapado PR gritará presente, quando for enunciado o nome de Dilma Rousseff.                                                        

Na realidade, pode não ser bem assim. Mantida a disposição de a presidente da República levar adiante a faxina nos feudos partidários,  logo ministérios entregues ao PMDB, PT, PP, PTB, PDT e outros estarão sendo investigados. Cada um buscando salvar a própria pele, mas o conjunto formando uma muralha difícil de ser ultrapassada sem o  uso de canhões.

Mesmo sem declaração de guerra, os aliados do governo poderão retaliar, dificultando a aprovação de projetos essenciais ao bom desempenho da administração federal. A menos, é claro, que passem a ser atendidos em suas exigências  fisiológicas.

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SAMBA DE UMA NOTA SÓ                                                        

Mais uma vez, certamente a milésima, investe o ex-presidente Lula contra a imprensa. “Por que divulgam apenas notícias ruins, quando tanta coisa boa acontece?” – continua a pergunta do primeiro-companheiro,  até quando ao  inaugurar um hospital. Imagine-se um jornal abrindo manchete para informar que não faltam médicos  em determinado centro de tratamento de saúde pública. O exemplo, aliás, está errado, porque seria realmente notícia inusitada e digna das primeiras páginas, mas o sentido da crítica parece certo.                                                        

A gente ignora se o Lula não entendeu nada em matéria de imprensa, desde que virou político, ou se entende muito bem, já que quando líder sindical  valeu-se da  natureza das coisas para promover-se. Ou seria normal lotar os estádios do ABC com milhares de operários em greve, protestando por melhores salários? Naqueles idos, era notícia boa ou notícia ruim? Dependia do ponto de vista: para as massas,  maravilhosa.  Para os patrões e para o governo, péssima, daquelas que deveriam ser censuradas.

Já se desconfia que o Lula conhece muito bem os fundamentos da missão de informar. Só finge não saber…

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FALAR NA ESPANHA DÁ IBOPE?                                                         

A entrevista de  José Serra ao jornal “El País”, da Espanha, bem que poderia ter sido concedida por aqui. Sua previsão de que o ex-presidente Lula é candidato certo para 2014 mereceria ser discutida entre nós, bem como a afirmação de que a presidente Dilma só admitiu fazer faxina no governo quando pressionada pela imprensa. O ex-governador certamente encontraria espaço em nossos diários para abrir essa polêmica. Por que preferiu os espanhóis? Falta de convicção nas duas afirmações? Ou teria sabido com antecedência que o ministro Gilberto  Carvalho ia surpreende meio mundo declarando que de jeito nenhum o Lula se candidatará em 2014? Estaria mesmo certo de que, sem a colaboração da mídia, Dilma Rousseff  ainda estaria despachando com Alfredo Nascimento e Luiz Antônio Pagot?

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