No reino da baixaria

Carlos Chagas

Estarrecido, ningum ficou. Nem mesmo chocado. Faz muito que o singular vocabulrio poltico do presidente Lula ultrapassa as regras mnimas do vernculo. No vamos repetir os anteriores substantivos e adjetivos pronunciados por Sua Excelncia ao longo de seus improvisos, bastando ficar no mais recente. Para ele, o presidente do PSDB, Srgio Guerra, um babaca.

Como o senador por Pernambuco havia, um dia antes, chamado Dilma Rousseff de mentirosa, se no ficam elas por elas, quase isso, ainda que o tucano tenha sido mais parcimonioso em sua baixaria.

assim que se vai desenvolver a campanha sucessria. Pode ser que Jos Serra pretenda poupar-se, mas se falam por ele companheiros menos educados, d no mesmo.

Essas coisas costumam pegar mais do que sarampo. Ainda estamos em janeiro e a exacerbao de conceitos traduz a insegurana daqueles que os emitem. Porque nem Srgio Guerra tem certeza do sucesso da candidatura do governador de So Paulo, nem o presidente Lula arrisca imaginar a vitria de sua candidata. Sendo assim, a reao dos dois grupos em choque torna-se lamentvel, porm inevitvel: esperam vencer a eleio menos pelas qualidades e o programa de seus indicados, mais pela virulncia com que expem o adversrio.

Nem sempre foi assim, mas na maioria dos casos, foi. Quem no se lembra de que Jnio Quadros agitava, nos palanques, um bambu com um rato morto pendurado na ponta, dizendo tratar-se de Ademar de Barros. Ou que este, de seu turno, balanava o corpo de um gamb, com as mesmas intenes. Na primeira eleio direta depois do regime militar, Fernando Collor anunciava que Luiz Incio da Silva confiscaria a poupana da classe mdia, ao tempo em que mandava vestir de mendigos uns tantos correligionrios para percorrerem as portarias de luxuosos prdios de apartamento em Copacabana, Ipanema e Leblon, alardeando estarem escolhendo para onde se mudariam depois da expulso de todos os proprietrios, com a posse do Lula. O primeiro-companheiro, por sua vez, acusava o adversrio de farsante e de marionete de usineiros e industriais. Fernando Henrique, faa-lhe justia, foi mais moderado em suas duas campanhas, mas o Lula bateu firme, abaixo da linha da cintura.

Pelo jeito, vamos assistir a um vdeo-tape dos piores momentos de sucessivas disputas eleitorais anteriores, ignorados at agora o programa de Dilma Rousseff e os planos de governo de Jos Serra…

Reaberta a crise

A crise do governo com o PMDB foi reaberta pelo presidente Lula ao insistir em receber do partido uma lista trplice de possveis candidatos a companheiro de chapa de Dilma Rousseff, em vez da indicao nica do deputado Michel Temer. A exigncia foi transmitida imprensa por dois ministros, menos de um dia depois de dirigentes do PMDB decidirem antecipar a conveno que reeleger Michel Temer para presidente do partido, como forma de reforar seu nome e mostrar que mandam.

Parece briga de cabo de guerra entre o Juquinha e o Zezinho.

Para o presidente Lula, inadmissvel essa imposio dos aliados porque, afinal, diz ele, ser Dilma Rousseff a escolher o candidato a vice. Trata-se, sem dvida, de uma fico, porque todo mundo sabe que ela apenas cumpre ordens. O primeiro-companheiro gostaria de um peemedebista com densidade eleitoral, capaz de agregar votos, predicado de que Temer carece. Um nome mais competitivo seria o ideal para o governo, mas o perigo, se a insistncia na lista trplice continuar, de o PMDB rachar e favorecer, j na conveno de 6 de fevereiro, a candidatura prpria do partido, no caso, Roberto Requio. Pelo menos quinze diretrios estaduais estariam dispostos a reafirmar a indicao do governador do Paran para a prxima e decisiva conveno de junho.

S interveno federal resolve

Desmoralizou o que restava das instituies democrticas a manobra dos aliados do governador Jos Roberto Arruda na Cmara Legislativa de Braslia. Deputados governistas extinguiram a CPI que investigaria a roubalheira por eles mesmo praticada, depois que um juiz determinou o afastamento dos envolvidos na tarefa de investigar as denncias. Sequer o piv da lambana, o ex-secretrio e cineasta Durval Barbosa ser mais ouvido, primeiro passo para a elucidao do escndalo.

A interveno federal seria a nica forma de restabelecimento da tica na capital federal, mas o presidente Lula nega-se a admitir a hiptese, mesmo constitucionalmente possvel e justificvel.

Enquanto isso o governador Arruda continua no cargo, sem que mesmo os pedidos de seu impeachment tramitem na Cmara Legislativa. Apesar de ningum desejar a volta ao passado, h quem se refira indignao geral com apenas uma pergunta: j imaginaram o que teria feito o general Ernesto Geisel diante de tudo isso?

Ficam todos at o ltimo dia?

Uma questo envolve Braslia, depois da primeira reunio ministerial do ano. Ser que todos os ministros que so candidatos s eleies de outubro cumpriro a ordem do presidente Lula para permanecerem em seus postos at o limite mximo para as desincompatibilizaes, dia 4 de abril? Muitos necessitariam mergulhar bem antes nas preliminares das campanhas para governador. Esto perdendo tempo enquanto as diversas foras estaduais aumentam as cobranas e aguardam as definies.

Desde que nenhum ministro ouse descumprir a fala do trono, o resultado poder ser lamentvel para a administrao federal. Porque mesmo continuando ministros, estaro dando de ombros para suas tarefas formais. Estaro nos estados. Os ministros das Comunicaes, Helio Costa, e dos Transportes, Alfredo Nascimento, sequer compareceram reunio do ministrio. Pensam muito mais nas campanhas em Minas e no Amazonas. possvel que um ou outro mais rebelde formalize o afastamento, mas afastados, mesmo, desde j, estaro quase todos os candidatos.

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