No reino das baixarias

Carlos Chagas

Esta semana a baixaria chegou ao Congresso, depois de haver-se estabelecido em artigos de jornal, seminrios e palanques, do lado de fora. Basta referir algumas referncias de parte a parte, entre oposio e governo. O presidente Lula havia chamado o presidente do PSDB, senador Srgio Guerra, de babaca, enquanto o ex-presidente Fernando Henrique rotulou Dilma Rousseff de boneca do Lula. Foi o que bastou para encher de vergonha os microfones do Legislativo.

O senador tucano Tasso Jereissati falou da liderana de silicone exercida pela candidata, quer dizer, falsa. Jarbas Vasconcelos, do PMDB engajado na candidatura Jos Serra acusa Dilma de mentirosa e Ciro Gomes, at agora candidato, acentua que Fernando Henrique no tem moral e que age por vaidade e inveja. Sucedem-se as tertlias para saber que governo foi melhor, ou pior: de FHC ou do Lula.

Do jeito que as coisas vo, imagine-se como ficaro quando suspensos os impedimentos legais para as campanhas eleitorais. Porque essas coisas costumam pegar quando movimentadas de cima para baixo. As disputas pelos governos estaduais pegaro fogo. Cite-se apenas Braslia, com o governador acusado de roubalheira, desvio de recursos, compra de deputados e at de tentativa de suborno. Quem se lanar contra Jos Roberto Arruda precisar alinhar essas e outras acusaes, preparando-se para receber igual carga de agresses.

No fundo, o poder que est em jogo. Para preserv-lo, vale tudo. Para reconquist-lo, mais ainda. Se as oposies andam com medo do crescimento de Dilma, o PT e o governo tremem diante da possibilidade de perder a ocupao da mquina estatal, mais as mordomias e nomeaes desvairadas.

Sada ainda existe para evitar a multiplicao da lambana. Bastaria uma conversa entre o governador Jos Serra e o presidente Lula, enquanto ainda podem controlar seus contingentes e aliados. Seriam obedecidos, caso dispusessem de vontade poltica para mandar parar as baixarias. O problema saber se querem…

No querem outra coisa

Denunciou o presidente Lula, esta semana, que as elites nacionais so perversas porque pode estudar mas no querem que o povo estude. Na mesma oportunidade, no interior de Minas, Dilma Rousseff completou dizendo que Fernando Henrique governou para as elites, pouco se importando com o povo.

A retrica pode ser at elogiada, mas enquanto a dupla metralhava o andar de cima, em Braslia o Banco Central divulgava que os bancos, em 2009, tiveram seus lucros aumentados em 24%. Centenas de bilhes engrossaram seus cofres, registrando-se a euforia dos especuladores financeiros diante dos resultados. No querem outro governo seno o atual, e esto preparados, at mesmo, para desencadear uma perigosa campanha pelo continusmo, caso a candidatura de Dilma Rousseff no decole a ponto de prenunciar sua vitria. Afinal, se em ano de crise econmica, como foi o passado, o que imaginar para o corrente? bom tomar cuidado.

Mudanas, s de boca

Tera-feira a Comisso de Constituio e Justia do Senado derrotou, por 14 votos a um, projeto do senador Paulo Pain instituindo o imposto sobre grandes fortunas. Solitrio, o senador Eduardo Suplicy no conseguiu convencer seus companheiros, mesmo tendo lembrado que projeto igual havia sido apresentado anos atrs, de autoria do ento senador Fernando Henrique Cardoso. Foi aprovado substituto do senador Antnio Carlos Magalhes Jnior, recomendando o arquivamento da proposta.

Na vspera o Senado havia comemorado o Dia do Aposentado, com o plenrio cheio e emocionados discursos em favor da correo de todas as aposentadorias pelos mesmos ndices concedidos aos aposentados de salrio mnimo. Mesmo assim, a matria continua engavetada e nem por sombra ser votada este ano. As bancadas governistas, em especial do PT e do PMDB, sustentaram a impossibilidade de a Previdncia Social arcar com as despesas desse reajuste, mesmo sabendo que em poucos anos estar tudo nivelado por baixo, ou seja, exceo de algumas carreiras privilegiadas, todos os aposentados estaro recebendo o salrio mnimo.

De Jos Serra, Dilma Rousseff, Ciro Gomes e Marina Silva no se ouve uma s palavra a respeito. Apenas o governador Roberto Requio ousa prometer que, se eleito, far justia aos velhinhos.

Escorregou

Quem escorregou foi o governador Jos Serra, que em recente entrevista coletiva, acusou a TV-Brasil de parcialidade, enfatizando as enchentes em So Paulo e esquecendo outras regies, alm de agredi-lo com perguntas que no podia responder.

Est enganado o candidato tucano, certamente sem tempo para assistir os telejornais da Rede Brasil, que sendo pblica, no governamental. Basta somar os espaos e o tempo dedicados atividade das oposies para concluir que esto no bom caminho, apesar de incompreenses agora conflitantes: no governo tambm reclamam da TV-Brasil, s que por motivos opostos aos de Jos Serra. No parece fcil cultivar a arte da informao precisa e correta.

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