No Trem das Alagoas, o poeta Ascenso Ferreira vai danado pra Catende…

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Ascenso era também radialista

Paulo Peres

Site Poemas & Canções


O poeta pernambucano Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895-1965) conta em versos uma viagem para Catende no “Trem das Alagoas”,  e o grande desejo de chegar. O poeta passeia pelo som do sino, do apito, da paisagem que o trem atravessa. Fala de quem fica, do que fica, e segue viagem através da cultura nordestina. Esse belíssimo poema foi musicado pelo maestro Villa-Lobos.

TREM DE ALAGOAS
Ascenso Ferreira

O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…
– Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.
Adeus !
– Adeus !
Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar…
– Adeus morena do cabelo cacheado!
Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar
– Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Na boca da mata
ha furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:
– Ali dorme o Pai-da-Mata
– Ali é a casa das caiporas
– Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Meu Deus ! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto avistamos
bem perto outro mar…
Danou-se ! Se move,
se arqueia, faz onda…
Que nada ! É um partido
já bom de cortar…
– Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Cana caiana,
cana rôxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar…
– Adeus morena do cabelo cacheado !
– Ali dorme o Pai-da-Matta !
– Ali é a casa das caiporas
– Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

6 thoughts on “No Trem das Alagoas, o poeta Ascenso Ferreira vai danado pra Catende…

  1. Escreveu Manuel Bandeira: “Quem nunca ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, dançar, arrotar os seus poemas, não pode fazer ideia das virtualidades verbais neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o autor”
    Eu nunca ouvi o próprio Ascenso, mas ouvi Bethânia – a Deusa, em ritmo de locomotiva ir “danado pra Catende/com a vontade de chegar”

  2. SER- TÃO são muitos: “Minha Gente”, Sagarana, G. Rosa

    SERTÃO, de Ascenso Ferreira, musicado por Valdemar de Oliveira
    https://youtu.be/9G6BEc6YYD8

    Sertão! – Jatobá!

    Sertão! – Cabrobó!

    – Cabrobó!

    – Ouricuri!

    – Exu!

    – Exu!

    Lá vem o vaqueiro, pelos atalhos,

    tangendo as reses para os currais…

    Blém… blém… blém… contam os chocalhos

    dos tristes bodes patriarcais.

    E os guizos fininhos das ovelhinhas ternas:

    dlim… dlim… dlim…

    E o sino da igreja velha:

    bão… bão… bão…

    O sol é vermelho como um tição!

    Lento, um comboio move-se na estrada,

    cantam os tangerinos a toada

    guerreira do Tigre do sertão:

    “É lamp… é lamp… é lamp…

    é Virgulino Lampião…”

    E o urro do boi no alto da serra,

    para os horizontes cada vez mais limpos,

    tem qualquer coisa de sinistro como as vozes

    dos profetas anunciadores de desgraças…

    – O sol é vermelho como um tição!

    – Sertão!

    – Sertão!

  3. HISTÓRIA PÁTRIA
    Ascenso Ferreira (1895-1965)

    Plantando mandioca, plantando feijão,
    colhendo café, borracha, cacau,
    comendo pamonha, canjica, mingau,
    rezando de tarde nossa ave-maria,
    Negramente…
    Caboclamente…
    Portuguesamente…
    A gente vivia.

    De festas no ano só quatro é que havia :
    Entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoão !
    Mas tudo emendava num só carrilhão !
    E a gente vadiava, dançava, comia…
    Negramente…
    Caboclamente…
    Portuguesamente…
    Todo santo dia !

    O Rei, entretanto, não era da terra !
    E gente pra Europa mandou-se estudar…
    Gentinha idiota que trouxe a mania
    de nos transformar
    da noite pro dia…

    A gente que tão
    Negramente…
    Caboclamente…
    Portuguesamente…
    Vivia !

    (E foi um dia a nossa civilização
    tão fácil de criar!)

    Passou-se a pensar,
    passou-se a cantar,
    passou-se a dançar,
    passou-se a comer,
    passou-se a vestir,
    passou-se a viver,
    passou-se a sentir,
    tal como Paris
    pensava,
    cantava,
    comia,
    sentia…
    A gente que tão
    Negramente…
    Caboclamente…
    Portuguesamente…
    Vivia !

    (do livro CANA CAIANA)

    http://mundovelhomundonovo.blogspot.com.br/2016/04/historia-patria.html

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