No túnel do valeriolula

Sebastião Nery

“Até aquele episódio (a denúncia de Roberto Jefferson na Folha), a revista Veja ainda não havia rompido definitivamente com o PT. Em meados de 2004, o empresário Roberto Civita, da Editora Abril, tentou se aproximar do governo. Civita pediu a Gabriel Ricco, um de seus ex-executivos, que tentasse agendar um encontro com pessoas influentes do PT, como Delúbio Soares, Ivan Guimarães e José Genoino.”

2. – O tesoureiro (Delúbio) acabou relatando a vários interlocutores como foi seu episódio com o dono da Abril. A visita teria começado com uma visita de Ricco a Delúbio e Ivan, no fim de junho de 2004. Ricco teria sido até irônico em relação a um certo drama psicológico vivido pelo ex-patrão: – “O Roberto tem um irmão, o Richard, que já se convenceu de que é rico porque recebeu a herança do pai, o seu Victor Civita. O Roberto não sabe direito se tem dinheiro por herança ou por talento.”

3. – “A demanda do dono da Abril, naquele momento, era ser recebido, em Brasília, pelo presidente Lula. Depois de relatar a José Dirceu a visita de Ricco, Delúbio aceitou receber Roberto Civita e se fez acompanhar de Ivan Guimarães. No encontro, em um hotel de luxo de São Paulo, Ricco estava mais uma vez presente e Civita falou bem mais do que ouviu”.

4. – “Civita confessou que tinha uma imagem negativa do PT, mas que saia bem impressionado do encontro. Uma semana depois, uma reportagem da Veja dizia que Lula havia marcado um ‘golaço’ em uma de suas viagens ao exterior. Delúbio e Ivan interpretaram como um sinal positivo, mas Ricco alertou que o dono da Abril mandava cada vez menos na redação da Veja, porque o presidente de fato da editora, Maurizio Mauro, era homem indicado pelo Unibanco, credor da Abril. E o diretor financeiro, Emílio Carrazai, era cria de Malan, presidente do Conselho de Administração do Unibanco.”

5. – “Um mês depois, Delúbio fez com que Civita fosse recebido a sós, na Casa Civil, pelo ministro José Dirceu. O pedido de Civita a Dirceu foi o mesmo: ser recebido pelo presidente. -”Não quero falar com esse sujeito”, disse Lula, na presença de três testemunhas. Mas foi Dirceu quem o convenceu a ceder, dizendo ser diplomático ficar bem com o dono da Abril.”

*6. – “Lula, porém, nutria um rancor especial por Civita, desde quando a Veja publicou uma matéria sobre seu apartamento em São Bernardo do Campo, insinuando que o imóvel teria sido pago pelo advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente. Na reunião com Lula, no palácio da Alvorada, no segundo semestre de 2004, Civita nada pediu”.

7. – “Meses depois, em 12 de dezembro, Ivan Guimarães foi convidado para jantar no apartamento de Ricco, em São Paulo. Lá estava Roberto Civita. Ao cumprimentar Ivan, o dono da Abril foi logo dizendo que, ao se barbear naquele dia, havia pensado no que deixaria de herança para os netos. E afirmou ainda que só estava tendo problemas com os bancos – a dívida da Abril era da ordem de R$1 bilhão – porque, ao contrário da Globo, não tentou impor uma perda financeira aos credores”.

8. – “Civita teria sido um lorde. E sugeriu então que um empréstimo do BNDES, subsidiado, resolveria seus problemas, permitindo-lhe quitar uma dívida da Abril com o Unibanco – os Moreira Sales são hoje os maiores credores da empresa e têm uma vaga cativa no Conselho de Administração”.

 Paro por aqui, porque já “delubiei” demais o autor do livro A CPI Que Abalou O Brasil (Editora Futura-SP), do talentoso jornalista Leonardo Attuch, que era da Isto É e hoje está no site 247. Foi Attuch que descobriu a secretária Fernanda Karina e sua devastadora agenda e explodiu o valeriolula, documentando as denúncias do deputado Roberto Jefferson sobre o Mensalão.

Dessa safra de livros de jornalistas sobre o valeriolula e o tsunami de corrupção que devorou o governo Lula e o PT, o de Attuch é o melhor, porque é o que mais teve coisas novas, além do que se viu nas TVs, revistas e jornais.

São histórias surpreendentes, mostrando o escândalo por dentro do túnel. Attuch teve dois informantes, um dentro do governo e outro dentro do PT, cujas confissões revelam como foi possível montar e como funcionou a extensa rede de corrupção criada para reeleger Lula e, em 2010, eleger Dirceu.

***
NOVELA DE TERROR

O livro se lê como uma novela de horror, um susto atrás do outro:

1. – “Na campanha de 2002, o comitê financeiro de Lula arrecadou, em recursos não contabilizados, cerca de seis vezes mais do que o obtido em doações oficiais declaradas à justiça eleitoral: R$ 200 milhões no Caixa 2, contra R$ 33 milhões na planilha oficial. E ainda faltou dinheiro no fim”.

2. – “Um grande banco nacional doou nada menos que R$ 30 milhões para a campanha. E isso em dinheiro também não contabilizado. Os dirigentes do PT negociaram a contribuição, foram à sede do banco e a montanha de recursos foi retirada de uma tesouraria paralela, a tesouraria do Caixa 2.”

E não para por aí. Tem mais, muito mais.

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