Noblat esqueceu o projeto de Hitler: um Reich de mil anos

Pedro do Coutto

Na coluna que publica às segundas-feiras no Globo, Ricardo Noblat , nesta semana, focalizou diversos projetos de poder que, traçados com base no futuro, fracassaram totalmente. Melhor dizendo: desabaram diante da realidade dinâmica dos fatos que, a exemplo do belo poema musical de Nelson Motta, giram sem parar. Nada do que foi será igual ao que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. Pois é. Gravaram Lulu Santos e Caetano Veloso. A interpretação de Caetano é infinitamente melhor.

Mas poesia à parte, Noblat, a quem conheci de perto no Jornal do Brasil, 1982, quando o jornal denunciou o escândalo da Proconsult, citou o projeto de poder de Fernando Collor: 20 anos. Assumiu em 92, foi afastado pelo impeachment aprovado em setembro de 92.

Referiu-se igualmente ao projeto de poder que o ministro Sergio Mota fixou para o esquema FHC. Também vinte anos no Planalto. Não aconteceu nada disso. Esvaziado, sem apoio da opinião pública, Fernando Henrique apoiou José Serra em 2002 que perdeu disparado para Lula: 62 a 38%. Não mais se recuperou. Nem Geraldo Alckmim, em 2006, nem o próprio Serra, de novo em 2010, desejaram aparecer a seu lado nas duas campanhas.

O articulista de O Globo não se referiu a JK. Juscelino, que deixou o governo consagrado em 61, tinha como meta o retorno triunfal nas urnas de 65. Mas não contava com o desastre que envolveu o governo João Goulart e sua deposição pelo golpe militar de 64.

Noblat, penso eu, sem querer, omitiu o maior desastre da história universal: Hitler, ao chegar ao poder em 33, na Alemanha, e implantar o regime nazista, assegurou  um Reich para mil anos. Doze anos depois de causar a morte de 45 milhões de pessoas, e de destruir seu próprio país, cercado pelos russos dos generais Zukov e Koniev, no seu bunker subterrâneo, que Churchill chamava de covil dos abutres, suicidou-se e foi levado pelo esgoto da história.

Previsão foi feita para não se realizar. Portanto, especular quanto tempo vai durar este ou aquele esquema de poder é sempre um salto mortal sem rede de  proteção. Tudo passa, tudo sempre passará. Principalmente na política que, na bela definição de Magalhães Pinto, é como uma nuvem: muda de forma e direção a todo instante.

Agora mesmo, especula-se como o PMDB vai agir em relação aos rumos traçados pela presidente Dilma Rousseff. Reportagem de Cristiane Jungblut, também em O Globo de segunda-feira, expõe um quadro de projetos polêmicos que se encontram em tramitação no Congresso Nacional e deixa no ar a pergunta sobre como o Partido do Movimento Democrático Brasileiro agirá em relação às contradições que tais matérias despertam, se a legenda não for plenamente atendida pelo Planalto quanto ao preenchimento de cargos em empresas estatais.

Faltou entretanto uma pergunta: o que poderá o PMDB fazer? Votar contra a orientação de Dilma Rousseff? Mas o partido ocupa quatro ministérios, entre eles o de Minas e Energia. Abrirá mão dos postos? Não creio. Aliás, ninguém acredita em tal hipótese. Pois se o PMDB rompesse, o PSDB de Aécio Neves e Geraldo Alckmim estaria pronto para o sacrifício de substituí-lo em nome da governabilidade. Expressão da moda, a exemplo da figura do desenvolvimento sustentável.

O PMDB não pode romper, pois em política qualquer espaço aberto no esquema de poder é preenchido em cinco minutos. Não mais. Quais os projetos realmente polêmicos em pauta? O valor do novo mínimo e a cobrança (absurda) da contribuição previdenciária dos funcionários públicos aposentados e dos beneficários do INSS que, mesmo aposentados, continuam trabalhando.

Sem problemas. A cobrança dos servidores inativos e dos aposentados do INSS que continuam trabalhando rende 1 bilhão e 200 milhões de reais por ano. O orçamento para 2011 é de 2,1 trilhões. Os números falam por si. Piso de 540 ou 560 dá no mesmo. Não muda.

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