Nogueira Batista Jr. defende corte de juros e sugere cautela com o câmbio

Batista Jr. é o mais influente economista ligado ao PT

Deu no Valor

O governo interino de Michel Temer não tem ainda nova orientação econômica, avalia Paulo Nogueira Batista Jr., vice-presidente do banco dos Brics, oficialmente chamado de Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Batista Jr. considera que o governo interino ainda não tem condições políticas de implementar um programa e pensa que as ideias do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para controlar os gastos são basicamente as mesmas do antecessor, Nelson Barbosa, no governo Dilma Rousseff.

Nogueira Batista foi representante do Brasil no FMI durante oito anos, entre os governos Lula e Dilma, e participou de todas as reuniões do G-20 como membro da delegação brasileira. Reconhecido simpatizante do PT e indicado para a vice-presidência do NBD por Dilma, não tem intenção de deixar o cargo. Diz não ser representante do governo e sim executivo contratado, cuja lealdade é exclusivamente à instituição. Insistindo que fala em nome pessoal, e não do banco, ele comenta sobre o que seria um programa fiscal crível, alerta para se evitar nova valorização do real e defende corte mais rápido dos juros, mas sem artificialismo.

De seu posto de vice-presidente do banco do Brics, com sede na China, para onde o senhor acha que vai a economia global?
 É um quadro muito difícil. Não é de crise aguda, como em 2008/2009, mas é um cenário de estagnação, desemprego muito alto em diversos países, problemas financeiros em várias economias importantes, que podem ser tornar graves e sistêmicos, e insatisfação crescente das populações dos países avançados com suas elites. A percepção é que a renda está se concentrando, que as elites não são confiáveis. Isso se manifesta no Brexit, na ascensão da candidatura de Donald Trump nos EUA, na ascensão de populistas de direita conservadores na Europa. E aí começa a busca aos bodes expiatórios – o migrante, o comércio internacional, os bancos – e acaba levando a uma instabilidade política, que atrasa ainda mais a reforma estrutural. Não vejo solução clara no horizonte.

E as perspectivas dos Brics nesse cenário?
Mesmo a China está numa fase mais difícil, porque há incertezas sobre a economia, dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida privada, sobretudo das corporações. O desafio da China é completar uma transição que está em curso, com mais participação de serviços e menos manufatura, e aumento do consumo. Têm muitos instrumentos e estão usando. Têm espaço de manobra na area monetária, têm espaço fiscal, reservas internacionais gigantescas. Os chineses estão trabalhando para evitar que a aterrissagem forçada se materialize. A Índia está muito bem, em parte porque é importadora de commodities, petróleo inclusive, e se beneficia da baixa de preço. Mas claro que o quadro é mais grave na África do Sul, Rússia e sobretudo Brasil. Um dos fatores que influem no rating de uma instituição bancária é o rating dos países-membros. Então é um headwind, uma condição adversa.

A recessão no Brasil e na Rússia atrasa a obtenção do rating internacional do banco? Não, porque há dois componentes para a obtenção do rating: a situação dos membros e o stand-alone da instituição, critérios específicos do banco, solidez de suas políticas, de suas práticas internas, funding que está construindo. O banco é um projeto de médio e longo prazo. Não está orientado pela conjuntura. Agora, é verdade que, quanto mais fortes estiverem os membros, melhores nossas condições de operações no curto prazo.

A desaceleração mais acentuada da China pode ser compensada pelo crescimento maior da Índia? Em parte compensa. Mas a China é tão maior que acaba sendo um fator crucial, inclusive para os indianos.

A África do Sul tem um componente parecido com o Brasil, com a crise política também? Sim, a África do Sul tem muita semelhança com o Brasil. Depende de exportação de commodities e do mercado chinês. E tem uma situação política frágil. Não tão frágil quanto a brasileira, mas também uma divisão política importante, enfraquecimento do governo. Mas os casos mais delicados são Brasil e Rússia. Os russos sofrem com preços baixos de commodities e sanções internacionais.

Até que ponto os Brics perderam a influência na cena global?
O importante é entender por que os Brics existem. Existem por uma condição estrutural que não se alterou, o tamanho em termos econômicos, geográficos, populacionais dos membros. Ouvi um professor falando que a combinação dos Brics é aleatória. Não é. São países com peso para atuar de forma independente. Com consistência, procuram agir de forma independente. Estive oito anos em Washington, e nossos aliados naturais no FMI eram os países do Brics.

Mas o sr. comentou dificuldades de vez em quando com a China. Cada um tem seus interesses. Não quero dizer que atuávamos em bloco no FMI, mas quando olhava para a mesa da diretoria e examinava com quem podia contar, era com os outros quatro do Brics. Outros países em desenvolvimento são isolados em seu extremismo ou são países que não têm autonomia, alinhados com alguma potência, com exceções. Os Brics são estruturalmente grandes para continuarem a ter peso, voz e influência, mesmo em situação econômica delicada.

Como o sr. vê a nova orientação da politica econômica no Brasil?  O Brasil tem um problema fiscal, que foi se agravando, em parte pela própria recessão, e um componente estrutural que precisa ser enfrentado. O ideal, na minha opinião, é aquilo que o ministro Nelson Barbosa vinha tentando e o ministro Meirelles continua agora. É anunciar um programa de médio e longo prazo crível, para não ter de tomar medidas de curto prazo muito fortes que possam aprofundar a recessão, que já é grave. Se esse programa fiscal crível for feito, abre espaço para algo essencial também, que é baixar a taxa de juro, combinando uma política fiscal sólida com uma política monetária mais branda. A baixa da taxa de juros vai ajudar a reativar a economia. Um componente importante do desequilíbrio fiscal brasileiro é a taxa de juro. O quadro é semelhante a 2011, só que mais grave, porque alguns riscos que estavam presentes se materializaram, como a queda acentuada dos preços das commodities e a recessão da economia. Por outro lado, a posição brasileira tem pontos fortes. A situação das contas externas se fortaleceu. As reservas continuam muito altas e há um regime cambial flexível, que dá capacidade de reagir a choques. O Brasil tem que tomar cuidado para que não se instale um novo período de valorização do real.

O sr. vê esse risco? Se o Brasil conseguir fazer o programa fiscal crível e isso restabelecer um pouco a confiança, o risco é que o real volte a se valorizar demais, dependendo das condições internacionais. Então, a redução da taxa de juro cumpre outro papel, ajuda a frear a valorização do real.

A expectativa nos mercados é que o Banco Central Europeu, Banco do Japão e o Banco da Inglaterra vão jogar mais liquidez no mercado proximamente. Há o risco da volta excessiva de capitais ao Brasil e o governo brasileiro precisa ter isso em conta.

Seria bom acelerar um pouco o corte de juros? Sim, desde que sejam criadas condições para isso, sem artificialismo.

O sr. concorda com a orientação econômica do governo?  O novo governo na verdade não se estabeleceu ainda. Ele precisa da confirmação do processo de impeachment. O governo anunciou algumas ideias, mas não tem condições políticas ainda de implementar um programa. É preciso saber a composição social do ajuste fiscal. No meu entender, ele tem que preservar programas sociais e dentro do possível preservar o investimento público.

Mas como o sr. avalia os primeiros passos dessa equipe?
Não são muito diferentes dos da equipe de Nelson Barbosa. E é uma situação muito difícil, porque a economia está em recessão, com problema fiscal que vem se acumulando. A dificuldade é como enfrentar o problema fiscal sem aprofundar a recessão.

Seria mais fácil levar adiante o ajuste fiscal com o governo interino ou com a volta da presidente afastada? Qualquer governo no Brasil, agora ou depois das eleições de 2018, vai ter de buscar consenso. Para a reforma da Previdência, vai precisar de negociação entre governo, empresários e trabalhadores que crie condições politicas para medidas estruturais.

No contexto atual, como fazer reforma estrutural? O grande desafio é criar estabilidade política que dê a base ao ajuste fiscal. Nosso sistema político não facilita isso. Cedo ou tarde vamos ter de enfrentar o desafio da reforma política. Medidas difíceis terão de ser tomadas. Os custos precisam ser discutidos. O Brasil tem renda concentrada. É importante o ajuste não sacrificar setores mais vulneráveis.

O sr. é filiado ao PT?  Não, nunca fui. Sempre fui próximo. Nunca fui filiado a nenhum partido politico.

Indicado no governo Dilma, como vice-presidente do Banco do Brics o sr. tem contato permanente com o governo atual. Isso não lhe causa desconforto? Minha posição no banco não é de representante do governo brasileiro. Isso se faz por meio do conselho de governadores, com a Fazenda. Tenho mandato, contrato, e a lealdade da administração do banco é exclusivamente com a instituição. Claro que interagimos com governos e os diretores são dos cinco países do Brics. Temos contato mais fácil com nossos respectivos países de origem. Não tive ocasião de conversar com o ministro Meirelles.

Qual o balanço do primeiro ano do banco do Brics? No primeiro ano, a diretoria aprovou cinco projetos no total de US$ 911 milhões, um de cada um do Brics, todos eles em energia renovável. O maior foi para o Brasil, no valor de US$ 300 milhões, para o BNDES. Outro marco foi a emissão do primeiro título, de 3 bilhões de yuans, cerca de US$ 450 milhões, com prazo de cinco anos e juro de 3,07%, pouco acima dos títulos do China Development Bank. Houve demanda três vezes maior. O banco tem staff de 50 pessoas, mas queremos dobrar rapidamente. Vamos contratar também brasileiros.

O banco agora está aberto para outros países? A decisão foi tomada na semana passada para começar o processo de diálogo para abrir para novos países gradualmente, desenvolvidos e em desenvolvimento. A ideia é participação com equilíbrio geográfico: América Latina, Europa, África, Ásia.

Com futuros novos membros, em até quanto o capital do banco aumentará? O capital com os cinco fundadores está sendo integralizado. Serão US$ 10 bilhões em sete anos. Os membros não fundadores poderão ter apenas 45% do total do banco. O aumento de capital com novos sócios pode trazer no máximo US$ 8,2 bilhões, a menos que os fundadores resolvam elevar rapidamente o capital.

O banco vai fazer emissões de títulos também no Brasil? Vamos fazer emissões em moeda local. Inicialmente vamos explorar os mercados mais líquidos. Depois do chinês, provavelmente será a Índia. No futuro, pensamos em fazer emissões no Brasil.
                                           (entrevista enviada por Carlos Frederico Alverga)

9 thoughts on “Nogueira Batista Jr. defende corte de juros e sugere cautela com o câmbio

  1. O espaço para a queda dos juros só ocorrerá depois de aprovada a PEC do teto das despesas orçamentárias pelo Congresso.

    Antes disso o risco-país não cai e fica devidamente precificado* na taxa de 14, 25% a. a.

    De qualquer modo a taxa básica de juros só irá cair significativamente quando o país fizer todas as suas reformas estruturais: desvinculação das receitas orçamentárias com as despesas de saúde e educação e reforma previdenciária. Depois:reforma trabalhista e tributária. É ainda, privatizações, concessões e outorgas, principalmente as relativas ao setor de infraestrutura.

    Ou seja, só depois que o governo através do ajuste fiscal produzir um profundo enxugamento do excesso de dinheiro em circulação (liquidez) e as reformas ampliarem a produtividade da economia Nacional é que os juros poderão se estabilizar em patamares próximos à inflação.

  2. Nesse meio tempo, como já dissemos aqui na TI, a luta do BACEN será, também a de estabilizar o câmbio a taxa próxima de três reais por dólar, até que o desenvolvimento da produtividade nacional nos permita uma moeda mais forte. Infelizmente não podemos ter uma moeda mais forte agora. Infelizmente.

    • Mas, Wagner,

      Fazendo tudo isso, QUANTO TEMPO o senhor acha que o país ficará superavitário?

      -Ora, caro Wagner, o senhor acredita mesmo que será possível SOBRAR DINHEIRO em caixa enquanto os bandidos estiverem no poder e a IMPUNIDADE reinar neste país?

      -Se o governo e as quadrilhas que hoje são donas do país permanecerem nos três poderes (e nada indica que sairão), mesmo que tudo isso que o senhor disse seja feito e que até mesmo a PREVIDÊNCIA SEJA EXTINTA, em poucos anos o país estará deficitário outra vez e teremos que vender a (xyz) para os investidores, pois será a única coisa que nos sobrará!!!

      A falência do Brasil não foi uma questão de economia. Foi uma questão de polícia, da certeza da impunidade, de cadeia mesmo!

      Abraços.

  3. Prezado Sr. Vieira, o governo tem dois caminhos a seguir, dependendo do grau de responsabilidade co m o futuro do país: um é começar a emitir moeda para se financiar, financiar as despesas orça mentárias; O outro é promover um ajuste fiscal capaz de reequilibrar as contas públicas de modo que as despesas fiquem compatíveis com as receita, preservada uma sobra de receitas sobre as despesas a que chamamos de superâvit primário que deve servir para o pagamento da dívida pública.

    Essa segunda opção É a opção de um governo que quer preservar a moeda do país e o seu poder de compra, porque se o governo se decidir pela primeira, isto é, emitir moeda, aí o país irá retroceder ao período da hiperinflação e todos sofreremos muito mais.

    Espera-se então que este governo, que optou pela realização de um ajuste fiscal consiga anular o dêficit primário até 2019. A depender da reação econômica do país, pois a receita orçamentária depende, também, do desempenho econômico do país.

    Se tudo der certo poderemos ter superávit primário a partir de 2020, segundo as expectativas do mercado, Sr. Vieira.

    O caminho é penoso e toda a população está sendo chamada a pagar, principalmente os de baixa renda, os erros cometidos pela gestão petista que se aventuraram a partir da segunda gestão do Lula.

    É isso, resumidamente.

  4. Creio que o entrevistado faz uma análise lúcida do quadro econômico. Destaco cinco pontos:
    1- componente importante da crise fiscal brasileira é a taxa de juros;
    2 – composição social do ajuste fiscal;
    3 – Como enfrentar o problema fiscal sem aprofundar a recessão;
    4 – Necessidade de estabilidade política que dê base ao ajuste fiscal;
    5 – O ajuste fiscal deve ser gradativo.

    Dentre esses cinco, destacaria dois: o peso da despesa com juros na deterioração da situação fiscal e a questão da composição social do ajuste fiscal. Vejam, a nossa inflação de 2015 não teve nada a ver com demanda, dada a redução da massa salarial e o aumento do desemprego. Nossa inflação de quase 11% ano passado foi devido ao represamento dos preços administrados e à desvalorização cambial, a qual acabou quase que equilibrando o setor externo. O custo fiscal da política monetária é um tema que precisa ser melhor avaliado pelos economistas. Foi errado baixar os juros na marra, mas eles não podem continuar tão altos num país em depressão econômica como o Brasil. O outro ponto, o da composição social do ajuste fiscal, achei uma ótima expressão para dizer em português claro quem vai pagar o pato. Como sempre serão os trabalhadores e os mais pobres, com os cortes que serão feitos nas políticas sociais, nos programas de transferência de renda, e na desvinculação dos recursos para saúde e educação para sobrar mais recursos para pagar os rentistas da dívida pública. Isso pelo lado do gasto. Pelo lado da receita, também serão os mais carentes que pagarão o pato. Devem subir os tributos sobre o consumo, enquanto os tributos sobre a renda e o patrimônio continuarão constituindo a menor parte da receita tributária do Governo. As heranças continuarão a ser muito pouco tributadas em comparação com outros países ocidentais, e os ricos continuarão a não pagar impostos (IPVA) sobre aviões e iates. A corda sempre rebenta do lado mais fraco.

    • O AJUSTE fiscal tem de ser gradativo, mas não vejo espaço para que o investimento público, que já ê pífio, não seja afetado. Aliás ele já está sendo afetado.

      Quanto às políticas sociais tanto a Loas quanto os benefícios previdenciários ou o Bolsa Família vão sofrer pente fino para corrigirem-se distorções. Serão preservados.
      O problema maior é a retração do mercado de trabalho e a redução do rendimento médio habitual do trabalhador brasileiro. Aí não tem remédio, só com a recuperação e a retomada do crescimento econômico.

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