Nos usuários a força do narcotráfico

Carlos Chagas

Em meio às  explosões de euforia, de resto, justas, vem o comentário  feito pelo ator  Raul Solnado, em seguida à revolução democrática em Portugal: “Depois da festa dos cravos, deve-se esperar a conta do florista..” Informaram as autoridades fluminenses a apreensão de  toneladas de maconha, cocaína e crack. Até mostraram partes  recolhidas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. A conclusão é de que haveria, como há, consumidores para tanto e muito mais. São centenas de milhares, no Rio e fora do Rio, sem os quais os bandidos não existiriam. Combater o narcotráfico sem considerá-los equivale a enxugar gelo ou ensacar  fumaça. Por mais que a polícia e as forças armadas  ocupem as favelas, o comércio de drogas permanecerá. Novos chefes do tráfico assumirão, novas bocas de fumo emergirão, quando não se sofisticarem  as entregas a domicílio.

Fazer o quê? Não dá para mobilizar policiais e soldados, muito menos  tanques, helicópteros e carros de assalto para  imobilizar os viciados. Eles estão em toda parte, nas mansões e nas residências simples, nas universidades e nos escritórios. Até nas variadas repartições públicas. Prendê-los? Não haveria cadeias que bastassem. Muito menos hospitais, para quantos sustentam tratar-se de doentes necessitados de cuidados médicos.

Eis a força do narcotráfico: os usuários.  Há quem imagine a liberação da venda e do uso das drogas, mas essa iniciativa apenas mudaria o traje dos traficantes. Trocariam as bermudas e sandálias de dedo pelo terno e gravata. Os fuzis contrabandeados dariam lugar aos  talões de cheque e aos cartões de crédito. Identificá-los e puni-los com penas de prestação de serviço comunitário poderia constituir-se numa solução, mais pelo constrangimento de serem apontados pelos vizinhos, amigos e parentes do que propriamente por ajudarem velhinhos nas filas do INSS.  Mesmo assim, quantos  viciados dariam de ombros?

EVAPORARAM

Espantam-se quantos assistiram pela televisão as imagens daquele monte de traficantes fugindo pelo  meio do mato, da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. Porque eram, conforme os cálculos da polícia, pelo menos quatrocentos. Somados a outros   em igual ou maior número,  instalados no Alemão,  chegariam a quase mil, comprovadamente delinqüentes. Como explicar que dois dias depois, na segunda operação, bem mais ampla, nem cem deles foram presos?  Ou se reconhece estar o narcotráfico estrategicamente  tão bem preparado para dar fuga a seus integrantes, de um favelão já cercado pelos soldados, ou só restará a conclusão de que descobriram o elixir da invisibilidade.  Imaginar que escaparam pelas redes de esgoto não dá, porque  favela não tem esgoto. Nem cavernas capazes de abrigar multidões.

MÉRITO PARA JOBIM

Pode ser que o presidente Lula tenha sugerido a continuação de Nelson Jobim antes dos acontecimentos na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, mas a decisão tomada por Dilma Rousseff, de manter o ministro da Defesa, sedimentou-se depois da entrada de tanques e soldados da Marinha e do Exército naquelas duas favelas. Foi Jobim que conseguiu impor aos comandantes das forças armadas  profunda mudança nas concepções vigentes, de que elas não existem para subir o morro. Subiram, portanto existem. A Marinha saiu na frente, evidenciando o Corpo de Fuzileiros Navais  como tropa de elite. O Exército demorou um dia, mas enviou seus praças mais bem preparados, os paraquedistas.

O ministro encontra-se no exterior. Quando voltar receberá  os cumprimentos. Ainda que nenhuma informação tenha vazado, admite-se que serão mantidos os três comandantes das forças.

PRESSÕES

No futuro governo e até em setores do PMDB, registram-se pressões para o vice-presidente Michel Temer renunciar à presidência do partido. Parece difícil, já que o ainda deputado não concorda. Sua força repousa tanto no cargo que vai ocupar quanto no que exerce há anos. E para quem alega não haver precedente em nossa crônica política, é bom lembrar que João Goulart, por dois mandatos, foi vice-presidente da República e presidente do PTB. E, de quebra, presidente do Senado, função que a Constituição de 1946 dava ao substituto do presidente. Era  uma forma de integrar Legislativo e Executivo, que a Constituição de 1967 extinguiu.

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