Nosso e não deles

Sebastião Nery

Lourival Fontes, chefe da Casa Civil de Getúlio Vargas, ligou para Heron Domingues, do “Repórter Esso”:                                                        

– “O presidente quer falar com você”. Heron foi. Getulio o recebeu de charuto nos dedos, fumaça na boca e o sutil e gordo sorriso :                       

– “Tu tens dado toda manhã, na primeira edição, os preços do café e do cacau nas Bolsas de Nova York e Chicago. Continua dando. Tenho recebido muitos pedidos e pressões para mandar a Radio Nacional parar de dar os preços dos produtos agrícolas nas bolsas lá de fora. Quando os agentes do mercado internacional vão procurar nossos produtores e vendedores do interior do país, querendo pagar menos, dizendo que os preços estão baixos no exterior, eles já ouviram de manhã cedo você dando o preço exato e não se deixando enganar. Saiba então do serviço que você está prestando ao país com a sua voz. Pode ir e continue um radialista de cá para lá e não de lá para cá. Nosso e não deles”.                                                    

Getulio era um estadista. Punha o pais acima do resto.

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DELFIM                                                         

O pragmático e experiente Delfim Neto alertou o governo brasileiro:               

– “A alegre aceitação dessa nova divisão internacional do trabalho (para a China a indústria, para a Índia os serviços e para o Brasil alimentos e minérios) põe em risco a economia brasileira como necessário instrumento de construção de uma sociedade mais justa, com pequeno desempenho e insuficiente emprego de boa qualidade em 2030.”                          

Delfim escreveu mais. Que a nova realidade mundial vem se marcando pela China se tornando a grande fábrica, a Índia a líder em serviços e o Brasil a grande  fazenda. Agora, com autoridade, Delfim  amplia aquela constatação. Entendendo que nosso modelo agromineral-exportador com elevada remuneração tem futuro limitado no longo prazo.       

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HELIO DUQUE                             

Meu amigo o professor Helio Duque, ex-deputado (MDB e PMDB do Paraná), doutor em economia, autor de vários livros, está preocupado: 

1. – “O governo Dilma Roussef tem gigantescos desafios a enfrentar nos próximos anos. Sabe que administrar a herança que recebeu não será tarefa fácil. O populismo marqueteiro, de passado recente, gerador de entusiasmo enganoso, atingiu seu esgotamento. Os problemas afloram aos borbotões. Abstraio o lado político, onde o fisiologismo e o assalto aos recursos públicos assumiram proporções inimagináveis. Fixemo-nos nas questões econômicas e financeiras, que não nos remetem a ser otimistas”.                   

2.“A estagnação das reformas estruturais, colocadas na prateleira do esquecimento no governo Lula, gerou a verdadeira “herança maldita” para o atual governo. Se pelo lado macroeconômico a situação é de o Brasil ter a mais elevada carga tributária dos países em desenvolvimento, acrescida da maior taxa de juros do planeta, agregada ao cambio hiper valorizado, tudo isso é responsável por nossa taxa de investimentos públicos ser ridícula”. 

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MARQUETEIROS      

3. – “Se olharmos a infraestrutura o cenário é estarrecedor. Energia, transportes em todos os setores, portos, ferrovias, aeroportos defasados, determinam custos extravagantes para a economia produtiva, limitando o próprio desenvolvimento. Com a formação do capital humano não é diferente, a partir da educação, estendendo-se à saúde e o corolário do saneamento básico. Em contrapartida, investir bilhões de reais em estádios de futebol e afins para a Copa do Mundo passou a ser prioridade oficial”.     

4. – “O brasileiro tem memória curta e cultiva enorme entusiasmo pelo Estado espetáculo. Nos últimos anos a imposição dos marqueteiros, com os seus devaneios, passou a ser programa planejado de governo. A visão construída é de festejar o curto prazo, o dia a dia, como se não existissem perspectivas de futuro. As ações publicitárias eleitorais vêm substituindo a ausência de planejamento do Estado ante os obstáculos que se avolumam na execução dos programas estruturais de responsabilidade do executivo. Administra-se com modorra o cotidiano, inexistindo projeto e programa de governo consistente que vislumbre o amanhã”. 

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BNDES

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, não se engana:             

-“O mundo desenvolvido está em recessão, o que fez com que os preços das nossas exportações sofressem com mercados deprimidos nos países desenvolvidos e a recuperação mundial está acontecendo só nos países em desenvolvimento, especialmente na Ásia, com a China, mas também com outras economias, e aqui na América Latina, com o Brasil que teve crescimento expressivo no ano passado.”                                      

2. – “Passaremos por um período difícil nos próximos 1,5 a 2 anos, até esse quadro mudar. Até termos um crescimento mais equilibrado na economia mundial, nossa indústria estará sob pressão muito forte. E  exportação prejudicada pelo fraco crescimento dos mercados de destino, embora o país esteja tentando diversificar as exportações cada vez mais”.            Vamos pensar como Getulio. Um pais nosso e não deles.   

 

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