Nosso Senhor de Itiruçu

Sebastião Nery

Era vereador em Itiruçu, pequena, adorável e paupérrima cidadezinha do sudoeste da Bahia, ao lado de minha Jaguaquara, com uns 10 mil habitantes. Homem bom, trabalhador e muito religioso, mas ignorante e ingênuo, mal sabia escrever, naquele tempo em que vereador não tinha salário.

O vereador estava duro, a seca tinha comido suas roças e seu gadinho. Sem dinheiro para a feira, foi pedir ao prefeito, meu amigo Pedrinho, da Arena, protetor dos pobres e necessitados. Pedrinho brincou:

– Você não tem fé? Por que não pede uma ajuda a Nosso Senhor Jesus Cristo? Ele não é o pai dos pobres e sem arrimo?

O vereador voltou para casa, escreveu a Jesus Cristo, pedindo 50 contos. Subscritou o envelope: “Para Nosso Senhor Jesus Cristo – No Céu”.

Atrás, o nome e o endereço do remetente, ele, e seu título: “Vereador”. E pôs no correio.

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EM CHEQUE

No correio, abriram a carta, levaram para o bar, na praça da Igreja, mostraram a doutor Antenor, médico sábio, negro e mentor da cidade. Doutor Antenor organizou uma vaquinha, apuraram 42 contos, levaram ao correio, registraram e mandaram entregar na casa do vereador.

Quando ele abriu e viu os 42 contos, escreveu nova carta:

“Nosso Senhor, agradeço muito sua bondade e atenção. Recebi o dinheiro que lhe pedi e que vai ser de muita valia, porque estou precisado demais mesmo. Mas rogo o seguinte: se o Senhor for mandar dinheiro novamente, faça o obséquio de mandar em cheque, porque o pessoal lá do correio meteu a mão em 8”.

Nosso Senhor nunca mais mandou dinheiro. Ele não assina cheque.

 

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