Novo ministro dos Transportes, Paulo Sergio Passos, não é um servidor acima de qualquer suspeita. Muito pelo contrário.

Carlos Newton

O novo ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, ao contrário do título do filme famoso de Elio Petri, decididamente não pode ser considerado um homem acima de qualquer suspeita. É funcionário do Ministério dos Transportes desde 1967, já passou de muito seu tempo para pedir aposentadoria, mas patrioticamente continua lá, grudado nas generosas tetas do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), que é o antigo DNER de triste memória, onde Passos iniciou sua carreira funcional.

Tamanha dedicação ao serviço público desperta suspeitas, é claro, especialmente agora, quando se sabe que Passos empregou um funcionário-fantasma para atuar em conjunto com Frederico Augusto de Oliveira Dias, o Dr. Fred, responsável pela triagem de processos e pela representação do Dnit em diversas ocasiões, também considerado fantasma porque não era servidor de carreira nem foi nomeado para cargo de confiança, e sua remuneração era paga por empresa terceirizada, vejam só que situação estranha.

Como se sabe, Frederico foi indicado pelo respeitadíssimo deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP) e perdeu o cargo logo no início do escândalo no Ministério dos Transportes, depois de o jornal Correio “Braziliense” ter revelado que ele tinha gabinete próprio na autarquia e até a representava em missões oficiais, recebendo títulos honoríficos de Câmaras de Vereadores e tudo o mais.

Pois na mesma sala onde Frederico chefiava a Assessoria de Controle Processual (Ascop), continua despachando o funcionário-fantasma Fernando Clayton Pessoa de Aguiar, indicado por Paulo Passos quando o hoje ministro era secretário-executivo do ministério. Fernando está no Dnit pelo menos desde 2006 e permanece na mesma função exercida antes da queda de Frederico.

Assim como o dr. Fred, também Fernando não é servidor de carreira nem foi nomeado para cargo de confiança, sendo remunerado da mesma forma, com salário pago por uma empresa terceirizada. E tem a mesma função do Dr. Fred: está encarregado de fazer a estratégica a triagem dos processos encaminhados à Diretoria-Geral do Dnit, olhem bem que coincidência.

É tudo muito estranho e nebuloso. Uma empresa terceirizada, contratada pelo Dnit, paga o salário do amigo do ministro há cinco anos, segundo informação do próprio órgão, mas ninguém revela que empresa é essa, o que aumenta ainda mais suspeitas.

Fernando tem uma relação antiga e íntima com Passos e, dentro do Dnit, costuma recorrer a essa proximidade para se garantir no cargo, mesmo sendo terceirizado e atuando na Assessoria de Controle Processual (Ascop), criada especificamente para ser chefiada por Frederico, o “boy” do Dnit, como chegou a alegar o então diretor-geral do órgão, Luiz Antonio Pagot, ao depor no Congresso, vejam que perjúrio cometeu. No dia a dia, Fernando atuava em conjunto com Frederico, na triagem e na seleção de processos a serem encaminhados ao diretor-geral.

O nome de Fernando Clayton aparece na lista telefônica de contatos na recepção do Dnit. Mas ele nega e alega. “Eu não trabalho aqui. Só estou de passagem. Vim aqui só pegar as minhas coisas, esqueci uma agenda”. Já a Assessoria de Imprensa do Dnit deu outra versão ao Correio Braziliense: “Ele é analista de processos e está trabalhando normalmente, cumprindo suas 40 horas semanais”. Ainda segundo a Assessoria de Imprensa, a Ascop continua funcionando normalmente, mesmo após a demissão do antigo chefe, Frederico, e realiza “o trabalho de apoio à chefia de gabinete da Diretoria-Geral”.

Diante desses fatos irrefutáveis e lamentáveis, como confiar no ministro Paulo Sergio Passos? Como acreditar que ele, que poderia ter se aposentado em 2002, continue no cargo nove anos depois, apenas por patriotismo? Como ensinaram Luiz Reis e Haroldo Barbosa na “Canção da Manhã Feliz”, mais conhecida como Luminosa Manhã, “é demais para os meus anseios”.

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