Novo papel do Procom: ensinar o povo a se livrar das prestações em 40 ou 60 vezes.

Sandra Starling

Até onde sei (ou me lembro), houve uma importante luta em nosso país, anos atrás, para conquistar um instrumento efetivo de proteção ao consumidor. Na esteira dessa luta, veio o Código de Defesa do Consumidor, considerado verdadeiro marco por suas avançadas normas, e surgiram, em todos os lugares, pessoas cuja dedicação à defesa dos direitos do público em geral fizeram delas personalidades queridas por todos nós.

Enfrentaram a ganância em cadeia, desde o industrial ou agricultor, até o intermediário e o comerciante final, sem esquecer o papel crescente dos bancos como financiadores de todo o processo.

Não cito nomes para não cometer injustiças, mas qualquer um que ler este artigo poderá lembrar-se de vários desses pioneiros, em diversos Estados. Posso também recordar com clareza os debates que eram travados na Câmara dos Deputados, em diferentes comissões, a respeito do problema que adviria do recém-estimulado comércio entre os membros do Mercosul, uma vez que os outros países não possuíam nada tão moderno.

Quando, finalmente, consolidaram-se os Procons, em diferentes níveis, e quando buscar sua ajuda passou a ser comportamento comum entre nós, acho que eles passam a ter novo desafio pela frente.

É bem verdade que esses órgãos já andam sobrecarregados, enfrentando os gigantes dos problemas contra os consumidores, a saber, bancos, empresas de telefonia e cartões de crédito em geral. Tarefa hercúlea, mas hoje insuficiente, diante daquilo que vem se tornando o inferno das famílias e dos indivíduos, sobretudo os da chamada nova classe C.

Reporto-me, de um lado, ao constante estímulo do governo ao consumo e à busca de crédito facilitado, de outro, ao superendividamento que sobrecarrega quem não conhece as mutretas da matemática financeira.

Acho que os Procons estão naturalmente vocacionados a enfrentar essa questão, capacitando o povo com cursos, cartilhas e simulações capazes de livrá-lo das armadilhas das prestações em 40 ou 60 vezes.

Nesta semana que passou, assistimos ao ministro Guido Mantega, acompanhado do ministro Fernando Pimentel e do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, anunciando mais um pacote de subsídios às montadoras (elas, sempre elas, as queridinhas do desenvolvimentismo de JK e depois as grandes amigas do outrora combativo sindicalismo do ABC paulista que nos brindou com a figura de Lula, cuja história, no futuro, mostrará os grandes acertos e os muitos erros).

Depois, as TVs nos brindaram com cenas de consumidores da véspera da edição do pacote, desesperados, buscando usufruir de seus descontos, para, finalmente, nas edições seguintes dos matutinos, os jornais estamparem os níveis astronômicos de endividamento das famílias.

Apesar de esse pacote também incluir ônibus (transporte coletivo), quem vai resistir à sedução do carro próprio, ainda que amanhã acorde inadimplente?!

Com a palavra os dirigentes dos Procons de todo o Brasil.

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