Num clima de sensualidade (com FHC), Dilma define ideia política

Pedro do Coutto

A entrevista da presidente Dilma Rousseff ao repórter Jorge Bastos Moreno, O Globo de sábado, texto leve e informal, foi sem dúvida uma peça primorosa do jornalismo espontâneo e, por isso mesmo, revelador da figura humana daquela que ocupa o Palácio do Planalto. Nem pela intimidade que envolveu o diálogo, Rousseff deixou de focalizar um aspecto essencial do exercício do poder, no caso a alucinada corrupção localizada no Departamento Nacional de Infraestrutura do Transporte.

A faxina não tem limite partidário, disse ela, referindo-se diretamente, não só ao PR de Valdemar da Costa Neto, mas também ao PT de Hideraldo Caron. E acrescentou precisamente: os atos que marcam o exercício do poder são sempre solitários.

Exatamente isso. O poder não se divide, nem se delega, – disse o presidente JK, em 1958, a mim, repórter do Correio da Manhã. A matéria era relativa à sucessão estadual da Bahia. Rômulo Almeida, que havia chefiado a equipe econômica de Vargas, rompeu com João Goulart e lançou-se candidato a vice-governador. Achando que Juraci Magalhães venceria o pleito, como de fato venceu, ele ficaria com a parte econômica da administração. Ledo Ivo engano, como costuma dizer Carlos Heitor Cony.

Mas não desejo me afastar do título deste artigo. Jorge Bastos fez a Dilma uma pergunta inserindo no contexto uma atmosfera de sensualidade. Acertou o alvo. A presidente aceitou a colocação. Para os que não leram o texto, extremamente agradável, mas que ainda podem a ele ter acesso pela Internet, Moreno indagou se o ex-presidente Lula não sentia ciúme de uma evidente aproximação entre ela e  Fernando Henrique. Respondeu de forma lúcida, objetiva, transparente: FHC é uma pessoa muito civilizada, gentil. É uma conversa muito agradável. Ressaltou que só não o convidava para a piscina do Alvorada por estarmos na época de frio. Aí entro eu: talvez, de repente, no próximo verão para encaixar quase o título  de peça de Tenessee Williams. Quem sabe? Mas este é outro assunto.

Dando sequência à pergunta, porém deslocando a resposta para outro estágio, Dilma Roussef definiu bem sua ideia de política.
Afirmou ela: Tem gente que fica estarrecida (quem?) com essa convivência com FHC, já que temos pensamentos políticos diferentes. Exatamente por isso é que as pessoas devem conversar. O governante não pode ficar limitado ao pensamento de seu grupo. Defendo a convivência dos contrários. Eu não sou presidente de um partido ou de uma coligação partidária. Sou presidente da República.

Neste momento da entrevista, tocou num ponto fundamental. Não se pode ouvir, no poder e na vida em geral, apenas as opiniões dos amigos, sejam verdadeiros ou falsos. Os amigos verdadeiros nem tanto, mas os de ocasião (esses que quando a pessoa está fora de qualquer patamar de poder atravessam a rua e não atendem telefone) são perigosíssimos. Pois sabem bajular, aplicar massagens tonificantes no ego, seduzir de todas as maneiras, convidar para festas e viagens, concordar com tudo, pagar todas as despesas. Esses só elogiam. Só destacam e aplaudem, afastam a pessoa da realidade.

Por isso a presidente da República tem total razão: é preciso ouvir (mas ouvir de fato) os contrários. É preciso oposição para estimular o ato de governar. É essencial que o governante tenha o impulso da resposta. Afinal de contas, na política em particular, e na vida, de modo geral, estamos, todos nós, sempre respondendo a alguém ou a alguma coisa. Cuidado com os falsos. Eles são capazes de levar os poderosos ao desfiladeiro e ao abismo. Quando a pessoa desperta da ilusão é tarde. Dilma não se deixa iludir.

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