Nunca houve um ministro como Jobim: fazia opção à presidente Dilma

Pedro do Coutto

Nunca houve na história deste país, tenho certeza, um ministro como Nelson Jobim, no momento em que escrevo este artigo, tarde de quinta-feira, já ex-ministro da Defesa que movido não se pode calcular por qual impulso, partiu para o ataque à presidente da República que o nomeou. Nomeou a pedido de Lula. Jobim deixou a defesa e foi para o ataque transformando-se no principal líder da oposição ao governo que integrava. Pior: cometeu uma série de atos estapafúrdios e espalhafatosos, mas não pedia demissão. Terminou, claro, sendo demitido. Era o que procurava.

Primeiro apontou a existência de idiotas no Planalto, em elogio que fez a Fernando Henrique. Segundo comparou o estilo FHC ao de Roussef, enaltecendo o modo de atuar do primeiro. Depois numa entrevista ao repórter Fernando Rodrigues, para o portal FSP-UOL, tomou a iniciativa de dizer que nas eleições de2010, embora ministro de Lula, votou em José Serra. A Folha de São Paulo publicou a matéria em sua edição do dia seguinte.

Não satisfeito com a sequência de provocações, falando à Revista Piauí, que circula às sextas-feiras, afirmou que a ministra Ideli Salvati é muito fraca, a ministra Gleisi Hofmann sequer conhece Brasília, e há muita trapalhada no governo quanto ao sigilo de documentos.
Procurou mostrar-se acima da presidente da República ao contar diálogo que com ela manteve em torno da nomeação do ex-deputado José Genoino como seu assessor. Diante de uma nuvem de dúvida colocada por Dilma, respondeu: Quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu. Foi além. Agora mostrando rancor e ingratidão para com Lula: o Lula diz palavrão. O Fernando Henrique é um lorde.
Jobim esqueceu que foi Lula quem o manteve no posto. A entrevista saiu na sexta-feira. Mas a jornalista Mônica Bérgamo antecipou os pontos nevrálgicos do conteúdo na edição de quinta-feira,na véspera, em sua coluna na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrado. O jornal publicou chamada na primeira página. Estava decretado o destino do ministro  chefe da oposição ao governo. Provocou até quando pode forçando a própria demissão. Com que objetivo é um mistério.

Pois Jobim não possui nada de enigmático. Pelo contrário. Expõe demais. Enigmático, segundo o senador Afonso Arinos de Melo Franco, era o presidente Getúlio Vargas. Por falar em Vargas, transcorreu dia 5 o 57º aniversário do atentado da Rua Toneleros contra o jornalista Carlos Lacerda, incendiando uma crise política que culminou com o suicídio do presidente.

Em 74, vinte anos depois do desfecho de 24 de agosto, o senador Afonso Arinos em entrevista à Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes, afirmou arrepender-se do discurso que fizera na Câmara (era deputado, foi eleito senador em 58) acusando o presidente como responsável pelo atentado. Ele nada teve com a tragédia. Vargas foi um gigante solitário, um enigma até para si mesmo, acrescentou.

Mas Nelson Jobim não é Vargas, ao contrário, é um homem aberto que cede a impulsos. Nem tem, claro, a estrutura política do homem que governou o Brasil como ditador e retornou ao poder pelo voto popular e democrático. Não há comparação. Portanto, não se pode atinar, sequer especular com a verdadeira motivação de Jobim. Estará ele jogando em alguma crise cuja existência inicial identificou? Ela não existe a não ser como sonho de uma noite de verão. De qualquer forma, seja qual for a razão verdadeira, Jobim fica na história do Brasil. Nunca houve um ministro como ele. Título de filme de Charles Vidor, 1947, relembrado há poucos dias por Ricardo Noblat em sua coluna semanal de O Globo.

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