Nunca houve um político como Rui Falcão, presidente do PT

Pedro do Coutto

O título deste artigo surgiu logo de cara quando li, na edição de O Globo de quinta-feira 12, reportagem de Maria Lima e Paulo Celso Pereira, publicada com destaque, focalizando declarações gravadas em vídeo pelo deputado Rui Falcão, presidente nacional do partido, divulgadas no site do PT na Internet.

Absolutamente ilógico. Quase inacreditável em face do despreparo demonstrado pelo autor. Francamente nunca vi coisa igual. A foto que acompanha a reportagem é de Marcos Alves.Rui Falcão conclama as centrais sindicais e que se mobilizem nas sedes e nas ruas e desencadeiem um movimento de repercussão pública no sentido de apoiar a Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso sobre Demóstenes Torres-Carlos Cachoeira.

Para que os culpados sejam apontados à opinião pública e punidos? Não. Nada disso. O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores defende o movimento que propõe para “mostrar quem são os autores da farsa do mensalão”. O texto é transcrito integralmente pelos repórteres Maria Lima e Paulo Cesar Pereira. Sem saber a verdadeira dimensão, porém sentindo que sua importância política, esqueceram talvez que, no momento em que redigiam, estavam escrevendo um capítulo da história política brasileira.

Rui Falcão, além de Demóstenes Torres, centrou seu ataque também no governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB. Incrível.O que tem uma coisa a ver com a outra? Os corruptos do esquema Cachoeira não excluem ou apagam do mapa da consciência e da lei os envolvidos no mensalão de 2005 que culminou com a demissão do ministro José Dirceu da Casa Civil do presidente Lula e das cassação de seu mandato pela Câmara dos Deputados.

Não existe a mínima vinculação lógica entre 2005 e 2012. Na lógica de Rui Falcão se um desonesto denunciar outro, o fato do primeiro ter praticado um crime absolve o segundo. Ou então, o erro do segundo isente o primeiro de culpa. Uma ação criminosa não invalida, por si, a denúncia de um criminoso contra outro.

O debate colocado pelo dirigente petista lembra certas discussões em torno de futebol, quando um torcedor cujo time fez um gol em impedimento pergunta, para um torcedor da equipe oposta, se ele esqueceu de um gol feito com ajuda da mão há três anos. Nível de porta de bar. Entusiasmo como se a política fosse um eterno Fla-Flu conduzindo a um plano de entendimento dos mais primários.

Aliás, a um plano de desentendimento total. Nessa escala de raciocínio, é simplesmente absurdo discutir política. Conheci alguns assim, inclusive jornalistas. Não quer dizer que tenham razão no confronto que propõem na base do foi feito ontem e o que acontece hoje. Há pessoas que discutem critérios divergentes de arbitragem em competições esportivas, esquecendo-se de que, em inúmeras situações, os árbitros das partidas foram diferentes.

Mas verificam-se também absurdos no campo do Direito, até na escala do Supremo Tribunal Federal. Em 1996, por exemplo, o deputado estadual do RJ, Henri Charles, encaminhou representação ao STF pedindo a suspensão do desconto de 11% estabelecido pelo governo FHC aos aposentados. A Corte Suprema decidiu, por unanimidade, que o desconto era inconstitucional. Tratava-se de confisco, já que configurava contribuição sem retribuição. Perfeito. Os aposentados estavam (estão) pagando novamente por uma aposentadoria já conquistada ao longo de 30 e 35 anos.

Muito bem. Em 2003, a emenda 41, governo Lula, estabeleceu o desconto. Novo requerimento ao Supremo, então presidido por Nelson Jobim. Ministros mudaram o voto. Resultado: 6 a 5 em favor do desconto. O desconto voltou a pesar no bolso dos servidores. E a decisão, na consciência dos que mudaram o voto.

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