O Amanhã tinha um nome

Sebastião Nery

No Recife, o aeroporto dos Guararapes estava vazio, na madrugada de 16 de setembro de 1979. Um táxi apenas. Entrei, conversei. Motorista de aeroporto é como propaganda de hotel:a primeira palavra no fim da estrada.

– Como está o tempo aqui? Vai haver sol hoje?

– Vai, sim. Vai fazer um dia bonito para a gente esperar o homem, o Arraes. Pernambuco já está com cara de festa pela volta dele. Derrubaram do governo, expulsaram do Estado e do pais, nunca apresentaram uma prova contra ele. Uma bruta injustiça. Por isso é a festa da chegada dele, em solidariedade a ele. É como se ele tivesse passado 15 anos na penitenciaria e de repente se descobre que era inocente. Uma questão de justiça. Hoje é o comício da justiça. Deus às vezes demora, mas sempre vem.

***
ARRAES

O nordestino moreno, de cabelos grisalhos, querendo vingar a injustiça a Arraes, me deixou no hotel Miramar. Na véspera, às seis da manhã, no Galeão, no Rio, ainda não Tom Jobim, mais de mil pessoas haviam recebido Arraes que, anistiado, chegava de Paris. Lembro-me do senador Marcos Freire, do deputado Jarbas Vasconcelos, Antonio Callado, Chico Buarque, jornalista Paulo Antonio Carneiro, tantos outros.

À tarde, um jovem alto, testa larga, cabelos ainda pretos, Jarbas Vasconcelos, comandante do MDB, competente e bravo organizador do comício da volta de Arraes, e o vereador cassado João Bosco Tenório, me pegaram e à Beatriz, em um fusca, e fomos para Santo Amaro, onde enorme multidão, dezenas de milhares, se apinhava frente ao palanque.

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LULA

Quando Arraes chegou, subiu e acenou com as mãos, houve imensa comoção, muita gente chorando. A cada discurso, a multidão gritava em coro : – “Arraes Tá Aí”, “Arrasta Aí”! Era a festa do taxista do Guararapes.
O palanque era pequeno para tanta gente que subiu. Na hora da saída, muita confusão para descer. Embaixo, de calça jeans azul e camiseta branca, um rapaz forte, de barba preta cheia, sorriso grande, dava ordens :

– “Pula, que eu seguro”! Pulamos muitos, homens e mulheres, e ele aparando. Não deixou ninguem cair. Era Lula.

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GONZALEZ

Voltei rápido ao hotel, para escrever a tempo minha coluna da “Ultima Hora” (e outros jornais). Relembrei outra tarde de dois anos antes, em junho de 1977, também toda azul como as tardes azuis do Recife em setembro, no estádio superlotado de Madrid, a multidão estalando palmas e canções do PSOE (Partido Socialista Espanhol) e seu líder, o jovem Felipe Gonzalez, até há pouco “Isidoro” e clandestino, me apontando a multidão:

– Quando vocês vão conquistar o direito de falar ao povo nas praças?

– Deve demorar. Por enquanto, nossa luta, hoje, ainda é pelo direito de falar, escrever e ler, para conquistarmos a anistia e a Constituinte. Não sei, por exemplo, se tudo que vou contar desta tarde vão deixar sair lá.

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MACHADO

Bem em frente, no muro do estádio, em letras vermelhas iluminadas pela primavera espanhola, o verso do poeta Antonio Machado : – “El hoy que sera mañana, el ayer que es todavia”. (“O hoje que será amanhã, o ontem que é talvez”).

Estava ali o titulo da coluna : “Ninguem Cassa o Amanhã”. (A integra está em meu livro “Pais e Padrastos da Pátria”, Editora Guararapes).

Aquele amanhã do Recife de 1979 tinha nomes : Jarbas Vasconcelos e Eduardo Campos. 33 anos depois, os dois herdeiros políticos de Arraes são os principais lideres políticos do Estado.

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