O anjo gráfico

 Sebastião Nery

 Em 31 de dezembro de 1965, o “Diário Carioca” fechou. Depois de quase um ano preso pelo golpe de 1964 e mais um escondido em São Paulo até ser absolvido pelo Superior Tribunal Militar, trabalhar no “Diário Carioca”, no Rio, era uma benção de Deus. Mas o jornal fechou. Mesmo assim, passei o reveillon feliz. Desempregado, mas afinal livre.

No dia seguinte, o Fernando Leite Mendes, que fazia na TV Globo um programa de variedades com o Carlos Martins, filho do Justino Martins, me levou para almoçar lá. A Globo estava nascendo na rua Pacheco Leão. dirigida por Mauro Salles e Rubens Amaral, e o jornalismo sob o comando de Reinaldo Jardim, que só conhecia de sua barba e seus concretos poemas.

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REINALDO JARDIM

Reinaldo não sabia nem perguntou quem era aquele intruso ali na mesa, eu, almoçando a generosidade do doutor Roberto Marinho. Ele fazia comentários sobre jornais e lamentou o fechamento do “Diário Carioca”, o mais moderno da imprensa, com sua primeira pagina desdenhada por Amilcar de Castro e o texto enxuto, aberto com os leads ensinados por Pompeu de Sousa. E elogiou umas materias políticas das ultimas edições.

Fiquei calado, mas ri.

– Riu por que?

– Porque gostei do elogio. Os textos são meus.

– Seus? Muito bons. Agora que o jornal fechou, trabalha onde?

– Em lugar nenhum. Estou desempregado.

– Se quiser trabalhar, já está empregado. Preciso de um repórter que seja tambem redator, editor, um faz-tudo para nosso setor de política.

– Quando é que começo?

– Agora mesmo.Vá conversar com o Jaime Dantas,diretor da redação.

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TV GLOBO

Gostei do redondo e simpatico nordestino Jaime Dantas, que chegava de anos e anos nos Estados Unidos, trabalhando na “Time-Life”. Fui para minha mesa. Primeiro dia do ano, um domingo, o que estaria acontecendo? E qual era a linha do jornal da TV? Liguei para Carlos Tavares, editor do “Globo”, que mal tinha conhecido nos meus poucos meses de “Diário Carioca”.Carlos Tavares foi de exemplar solidariedade. Me ensinou a pista:

– Leia “O Globo” toda manhã. Ele é a cabeça de Doutor Roberto. A TV não tem posições. As posições da TV são as do “Globo”. Se tiver qualquer duvida, ligue para mim. Hoje ainda não há nada.Ligue mais tarde.

Liguei, o Tavares me deu a pauta. Escrevi os textos, levei ao Jaime Dantas. Daí a pouco, entra o Reinaldo Jardim na redação:

– Como é que você sabe tudo isso, no primeiro dia do ano?

– Quem sabe não sou eu. É “O Globo”. É o Carlos Tavares.

Só no dia seguinte, segunda-feira, fui levado ao diretor Mauro Salles e à saudosa Tatiana Memória, chefe da administração, contratos e salários.

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RADIO MUNDIAL 

Antes do fim de 66, Walter Clark assumiu a Globo com sua turma, inclusive o Armando Nogueira no jornalismo. Reinaldo, já querido amigo, foi dirigir a Radio Mundial,comprada do Alziro Zarur por Roberto Marinho Continuei na “Globo”. Uma tarde, um grupo de radialistas aparece na TV :

– Nery, nos salve. O Reinaldo enlouqueceu. Está demitindo todo mundo na radio. Chamou o Majestade (um negro com um vozeirão) e está gravando tudo na voz dele. Não precisa mais de radialista.Vá falar com ele.

Fui. -“É a automação, Nery. O futuro do radio é a automação. É só gravar”. Fazia na “Mundial” a revolução que já havia feito na “Radio JB”.

Meses depois, encontro o Reinaldo desempregado no centro da cidade:

– “E a radio, Reinaldo?” – “Acabou meu trabalho lá. É a automação”.

Quando o “Correio da Manhã” começou a morrer, foi chamado para tentar salvá-lo.Convocado, deixei a “Globo”, fui com ele. Fiquei lá um ano.

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TV CONTINENTAL

Antes da “Globo”, Reinaldo foi diretor de jornalismo da TV Continental. Salário: 5 mil cruzeiros. Seis meses sem receber. Uma manhã, reúne a equipe e comunica que se Rubem Berardo, presidente da TV, não pagasse a todos, ele iria embora. Berardo já recebeu Reinaldo de pé:

– “Meu caro Reinaldo, tenho ouvido os maiores elogios a seu trabalho. O jornalismo está sendo o carro-chefe da nossa televisão. Resolvi dobrar seu salário. A partir de hoje você está ganhando 10 mil”.

– “Dr. Berardo, agradeço muito suas palavras e o aumento. Só que não posso aceitar os 10 mil cruzeiros. Sou um rapaz pobre, estou perdendo 5 mil cruzeiros por mês. De maneira nenhuma poderia perder 10 mil. Dez mil cruzeiros é demais para eu perder todo mês”. E voltou para casa.

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