O apagão de mão de obra qualificada no Brasil

Sandra Starling

Há mais ou menos cinco anos deixei de trabalhar fora de casa. A princípio, desacostumada, inscrevi-me em uma agência de empregos, buscando, evidentemente, algo na área de educação.

Não recebi nenhuma proposta por muito tempo. Agora já mando direto para o lixo eletrônico a infinidade de ofertas que me chegam todos os dias. Imagino que, agora, anda valendo bastante minha experiência profissional, não obstante a idade.

Outro dia, encontrei-me com um amigo, médico e coordenador de uma área embananada em qualquer instituição hospitalar: o CTI. Estranhei a preocupação que aparecia em seu olhar. Respondeu-me: ansiedade. “Não tenho médicos preparados em número suficiente para a demanda e não vislumbro no horizonte próximo solução para esse problema”, dizia. E acrescentou, desabafando, que são poucos os profissionais que podem ou se dispõem a se preparar para ocupar tais postos.

A Petrobras procura nestes dias pessoas para fazerem cursos de operadores, sem conseguir preencher as vagas – e o mesmo, leio, anda acontecendo em várias outras áreas de maior especialização.

Ocorre, porém, que de tudo quanto tomo conhecimento, mais me dói o que anda acontecendo no SUS. Uma conhecida me telefona aflita para me dar conta da falta de pediatras para o neonatal. E ela tem, por sua vez, várias amigas na hora de darem à luz seus filhos que não sabem o que fazer ou o que vai acontecer a seus bebês. A neta dessa conhecida não teve problema porque nasceu amparada por um plano de saúde e, portanto, com razoável assistência. Mas e os que não têm tais planos? Vão fazer o quê? Onde buscar guarida?

Vêm à minha memória os casos que se ouvem a todo momento sobre a grã-finagem correndo para hospitais chiques em São Paulo para fazer seus check-ups anuais ou realizar seus tratamentos de doenças mais graves.

Enquanto isso, a “plebe rude”, incluídos secretários de ministérios, morre, em Brasília, porque não tem, no sufoco, um talão de cheque para a caução exigida nos hospitais ou sucumbe às portas da rede de atendimento do SUS.

Os usuários do SUS, cantado e decantado como a solução para todos, viram um presidente querer até adoecer para ser atendido em um hospital como o que inaugurava pelo sistema… Por ironia, passou mal no mesmo dia e foi internado no melhor hospital privado da região.

As futuras mães, que hoje temem pela hora do parto, foram as mesmas que, na campanha eleitoral, acreditaram no Plano Cegonha e no atendimento prioritário para as grávidas. Agora, como acontece sempre no Carnaval, quando todo mundo está com a cabeça na folia, os jornais estampam as manchetes sobre os cortes orçamentários e, o que é pior, o maior deles vai incidir sobre a saúde. Isso mesmo. Corta daqui e dacolá, vai sobrar mesmo pro povão.

É que o Brasil real não se deixou ainda aprisionar pelo bordão e teima em não ser ainda o “país rico e sem miséria” que povoa os sonhos dos milhões de deserdados. E estão quase todos chegando à nova classe “C”. Imaginem o resto…

(Transcrito do jornal O Tempo, de Belo Horizonte)

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