O apetite dos espertalhões

Sebastião Nery

SALVADOR – O Rio vive o ridículo e a suprema humilhação de uma cidade cubana: um jornal só, uma revista só, um pensamento só. O jornal (Globo) tem mais dois jornalecos: o “Extra” (para o crime e os anúncios populares do governo), e o “Expresso” (para ônibus e metrô). A TV (Globo) tem mais dezenas de inúteis penduricalhos pagos, com uma exceção : a “GloboNews”, o melhor canal da TV brasileira. A revista (Época”), sem assunto, desova a publicidade vadia do governo e empresas. 

“Jornal do Brasil” e “Tribuna da Imprensa” morreram,“O Dia” entardeceu e sumiu nos refugos das bancas de jornais E a mais importante cidade do pais restou encabrestada pelo pensamento único de uma família única.                Deixo a comparação com São Paulo para outro dia. Por hoje quero apenas registrar que o suicídio crescente da imprensa nacional, com o Rio reduzido a um jornal e São Paulo a quatro (Folha, Estadão, DCI e Diário), está promovendo um surpreendente ressurgimento da imprensa regional.

Até há pouco Salvador estava reduzido à centenária e brava “A Tarde”. Depois que Antonio Carlos Magalhães morreu, o “Correio”, que era um boletim político de ACM, virou jornal. E a valente “Tribuna da Bahia”, sem a perseguição de seu principal inimigo, está em um belo florescimento.

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JOACI

E foi aqui na “Tribuna da Bahia” que encontrei um primoroso e contundente artigo do ex-deputado (da Constituinte de 88), empresario de sucesso,intelectual de excelentes livros publicados e membro da Academia Baiana de Letras, Joaci Góes : – “A Honestidade da Mulher de Cesar” :          1. –

“O que sucede no Brasil de hoje, em que todos sabem da imperativa necessidade e urgência de procedermos às reformas em vários domínios da vida social, econômica e política, sem que, no entanto, sejamos capazes de materializá-las? Os beneficiários das mazelas do status quo não deixam. E com isso, seguimos capengando, carentes das tão propaladas reformas eleitoral, fiscal, processual e penal, para ficarmos nas mais ostensivamente badaladas.”                                                                 

2. – “A celeuma criada em torno da urgência das obras destinadas a atender às demandas da Copa não passa de fumaça, jogo de cena, para engabelar e anestesiar a opinião pública diante dos custos reais dos equipamentos, excessivamente majorados, conforme as negociatas montadas para satisfazer os apetites dos espertalhões do setor privado como do público, certos de que no Brasil é minoritária a percentagem da população verdadeiramente apta ao exercício da cidadania plena, contra a grande maioria da patuleia ignara, como dizia o meu saudoso professor tetra-catedrático (de Direito) Augusto Alexandre Machado.”                       

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COPA

Com a autoridade de conhecedor profundo de como se manipulam os custos das obras públicas, enquadra as demandas geradas pela Copa. Qualifica as negociatas que satisfarão os apetites pantaguélicos dos espertalhões dos setores públicos e privados. O carnaval de 30 dias que a Copa do Mundo propiciará será custeado por bilhões de reais que ao final terão a fatura resgatada pelo contribuinte. Muitos investimentos concretizados em devaneios populistas. A exemplo do estádio que se constróem São Paulo, para sediar o jogo de abertura do torneio.

As aberrações chegaram ao ponto de o arrogante secretario-executivo da FIFA, Jerome Valcke, afirmar que “o Brasil não vai vencer a FIFA”. Em entrevista ao “Estadão” em Genebra, faz afirmações chocantes e agressivas à soberania nacional, alertando que o Brasil não tem chances de vencer uma disputa com a entidade. E avança em lições incabíveis:                           

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FIFA

– “Não me importo com dinheiro público. O que me importa é a estrutura de cada cidade. Se é dinheiro público, essa é uma decisão de governo. O Brasil não vai vencer a FIFA. Romário ou outros deputados não vão vencer a FIFA. Não entendo por que as pessoas insistem que queremos substituir a lei e o governo brasileiro durante os 32 dias da Copa. “O que temos de garantir é que ir ao Brasil seja um sonho e não um pesadelo”.

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HIPOCRISIA

Aplaudindo o artigo de Joaci, o ex-deputado baiano (MDB e PMDB do Paraná), economista e professor Helio Duque, me diz:                                     –

‘Dirigente de entidade polêmica e frequentemente envolvida em escândalos no noticiário esportivo, esse Jerome acha-se na condição de dar lições ao governo brasileiro, extrapolando a agressividade ao próprio Congresso Nacional. Demonstrando ser conhecedor do vale tudo anestesiador da sociedade brasileira, Jerome Valcke deitou e rolou. Infelizmente os padrões e os valores éticos estão nocauteados na vida política nacional. O desaparecimento de homens públicos, substituidos por oportunistas patrimonialistas, prontos a aderir a qualquer governo, é um retrato do tempo presente. Tempo marcado pela hipocrisia”.

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