O Banco Central e a calçada

Sebastião Nery

Em 1969, logo depois do AI-5, Carlos Petrovich, diretor do Curso de Teatro da Universidade de Brasília, ocupada e estrangulada pela ditadura, convidou Ariano Suassuna, o gênio rebelde de “A Pedra do Reino” e “Auto da Compadecida”, para uma palestra. O auditório estava cheio de arapongas do SNI. Suassuna contou uma história.

Em Patos, na sua Paraíba, havia um tropeiro muito alto e forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro, chamado João Grande. Levou uma tropa para uma cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.

Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas vinham andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam do passeio, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam. Foi ver o que era.

***
SUASSUNA

Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta, proibindo qualquer pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho, porque ele gostava de tirar uma soneca, toda tarde.

João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão suas botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, afinou a voz:

– Boa tarde!

– Boa tarde!

***
JOÃO GRANDE

O delegado calou e não disse mais nada. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente no passeio, como fazia todo dia, a semana inteira,vinha vindo um homenzinho pequenininho, trotando, quase correndo, um cesto na cabeça equilibrado numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:

– Olha o abacaxi!!!

Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho vendedor de abacaxi desceu da calçada do delegado. Nem ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou para Patos com suas mãos enormes e as botas cravadas de ferro.

O Brasil tem um delegado da Paraíba, com uma placa na porta, que proíbe o palacio do Planalto, a grande imprensa servil e serviçal e a imensa maioria dos políticos de sequer passarem na sua calçada. É o presidente do Banco Central. Ele faz o que quer. Se alguém reclamar, roda a baiana.

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