O banho dos pássaros, numa manhã friorenta no alto da Serra

Antonio Rocha

Este aprendiz de escriba que vos fala através das letras, no fim de semana que coincidiu com o “Dia dos Pais”, foi para a região serrana do RJ e chegou à aprazível cidade de Nova Friburgo, originalmente colonizada por alemães. Hoje, disse-me um taxista, beira os 200 mil habitantes. Está bem cuidada (pelo menos, pelo centro, por onde andei) e limpa. O teleférico que caiu em 2011, naquela triste chuvarada, já está funcionando a pleno vapor e de lá se descortina belo visual.

O título da crônica é em homenagem aos azulões, família de passarinhos que rondavam os jardins da pousada onde estávamos. Supostamente azulões, penso. Bem que eu gostaria de aumentar os meus conhecimentos em Ornitologia… mas nem sempre é possível.

Foi no café da manhã, de sábado, que contemplamos os passarinhos se banhando no chafariz ao ar livre que estava próximo ao refeitório onde saboreávamos um belo café com leite. Lá fora, na madrugada, fizera 9 graus… e eu, um pernambucano friorento, imaginava aquela água fria, gélida, e os “meus” simpáticos azulões curtindo as ondas provocadas pela queda d´água.

NUNCA AOS DOMINGOS – Observei que nos outros dias eles não apareceram, assim não posso dizer quando voltaram a se banhar, porque apegos vários me trouxeram de volta ao Rio. Assim, deduzo que no inverno o banho desses pássaros deve ser aos sábados.

Me fez lembrar de outra crônica que publiquei na TI, onde falei de um casal de joão-de-barro que construía o ninho de segunda à sábado e no domingo eles descansavam. Então pensei que os meus amigos azulões pontificavam o chafariz aos sábados.

O interessante é que os outros passarinhos como pardais e demais deixaram a “piscina” só para a citada família. A Natureza é realmente linda e misteriosa, lamento não poder conversar com os amigos voadores azulões…

Continuando o fim de semana, uma senhora, na rua, nos diz que ama Nova Friburgo: a criminalidade é mínima, o número de desempregados é ínfimo e a maioria das casas confirmei que tem os muros baixos, nada de altitudes tipo aquelas fortalezas cercadas com arame farpado eletrificado.

PEÇAS ÍNTIMAS – A economia da cidade tem como destaque as confecções de “peças íntimas”. Em determinada época do ano promove uma das maiores feiras brasileiras do setor. E vi até roupas fabricadas com fibras de bambu… incluindo calças compridas e camisas.

Foi o fim de semana do Festival de Inverno local. No dia 12, a abertura foi com o cantor e compositor Lenine e sua Banda. Quadra Poliesportiva do SESC lotada e apesar do frio as músicas e o público ajudaram a esquentar o ambiente. Perto, ardia um fogueira que foi até bem tarde da noite.

No dia seguinte, a peça “Galileu Galilei”, maravilhosa para se ver, rever, sempre que possível. Pelas manhãs e às tardes, atividades para crianças, danças, exposição de artes plásticas, literaturas, contações de histórias múltiplas…

Procurei saber, como sempre faço, quando chego a uma localidade. Perguntei quem era o “padroeiro” e uma senhora me disse, feliz: “São João Batista”. Eu e minha esposa fomos até a Matriz: fizemos reverências budistas respeitosas ao Santo e pedimos permissão para adentrar e passear pelo Município.

É bom ser ecumênico, interreligioso. Lá em cima, eles, de diversas religiões e filosofias confraternizam-se amigavelmente. Aqui por baixo, belo dia, será assim!

5 thoughts on “O banho dos pássaros, numa manhã friorenta no alto da Serra

    • Carlos Newton sempre tem uma ilustração adequada e linda para cada matéria aqui publica. Parabéns, CN, é um dom dos céus que você tem. Adorei este azulão. Vou até salvá-lo para mim.

  1. Boa tarde!

    Prezado Sr. Antonio Rocha, parabéns pelo descrição de um belo passeio que ainda não tive oportunidade de fazer com minha mulher e ao editor pela sensível edição.

    De acordo com a Voz da Serra, “em fins de 1879, cansado, magro e abatido pelo excesso de trabalho na imprensa e como funcionário público, Machado de Assis tirou licença médica e passou três meses na cidade com sua esposa Carolina.”

    Entre aquelas montanhas, caminhando por suas ruas, respirando seu ar puro, o célebre escritor restabeleceu sua saúde e energia.

    Ainda pela voz da Serra, somos informados que quando volta ao Rio, escreve Memórias Póstumas de Brás Cubas, considerado ponto de inflexão na sua vida literária. Atribui-se ao recolhimento em Nova Friburgo sua sedimentação como romancista realista maior da língua portuguesa.

    E a Voz cita o que escreveu o próprio Machado: “Estimei ler o que me diz sobre os bons efeitos de Nova Friburgo” ao amigo José Veríssimo em dezembro de 1897.

    Que volte lá Sr. Antonio mais que as três que Machado lá foi nas raras vezes que deixou seu Rio de Janeiro.

    Bom final de semana para todos neste agradável espaço virtual!

  2. Rocha, meu amigo, professor, articulista, comentarista, budista, tem talento e vocação também para escritor.

    Seus textos me encantam pela sensibilidade que possui sobre o cotidiano.

    Parabéns, mais uma vez, pelas lições que nessas palavras estão contidas, de admiração à Natureza e porque dela fazemos parte, inclusive somos a espécie mais frágil, apesar de sermos animais racionais agindo muitas vezes irracionalmente, por mais contraditório e paradoxal que seja!

    Um forte abraço para este ser humano extraordinário, Antônio Rocha.

    Saúde e Paz!

  3. Tenho uma predileção especial por cronicas que é uma leitura super agradável porque trata dos acontecimentos do dia-a-dia, do nascimento de um pé de milho, de uma borboleta amarela voando em torno da Biblioteca Nacional, de uma falta de assunto até (conforme o rei da crônica Rubem Braga. Esta crônica de Antonio Rocha me transportou para Nova Friburgo que não conheço, mas fiquei sabendo dela. Vi-me contemplando o Azulão, tão conhecido dos cordelista. Ouvi até o seu gorgeio “que voltará para me alegrar” como cantaram Cascatinha e Inhama. Manuel Bandeira e Jaime Orvalle também homenagearam o Azulão
    “Azulão, vai, vai! /Fala com ela que eu te contei/que eu morei com ela/Mas dela um dia se separei/que ainda penso nela/mas se ela pensa em mim não sei/Azulão se ela tiver chorando/diz que eu ando azulão, com ela no coração/Azulão se ela estiver cantando/diz que eu tive azulão/foi sorte na minhã mão,/Diz que eu agora já tenho outra,/que é mais bonita, mais cabocla, mais sertão,/ Diz que não não fala nem penso nela/Diz que eu agora, não diz nada, nada não

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