O bêbado e os bancos

Sebastião Nery

O bêbado entrou no ônibus aos tombos. Malvestido, sujo, tossindo, tropeçando, tremendo, com um jornal na mão, sentou-se ao lado de um padre. A cada arranco do ônibus, tombava para o lado do padre, que, irritado, o empurrava sem piedade ou indulgência e com nojo.

O bêbado abriu o jornal, tentou ler, mas não conseguia porque tremia muito. Bateu no braço do padre:

– Padre, o que é artrite?

– É uma doença muito ruim, muito triste, muito feia, muito nojenta, que dá nas pessoas que bebem muito.

– E mata, padre?

– Mata, sim, e mata rápido. Ou o doente pára de beber ou morre logo.

– Padre, o senhor jura que não está me enganando não?

– Juro por essa cruz que está aqui no meu peito. Não estou enganando. E tem coisa pior. Quem morre de artrite, porque não parou de beber, não vai para o Céu, nem mesmo para o Purgatório. Vai direto para o Inferno.

– Coitadinho dele, padre.

– Dele, quem?

– Do papa, padre. O jornal aqui diz que o papa está com artrite.

O padre se levantou, foi lá para a frente, trocou de lugar.

***
CRISE

Os bancos também, coitadinhos, estão com artrite. E vão direto para o Inferno. Há anos e anos puseram o mundo dentro de seus cofres, arrancando lucros de 50% quando a média de crescimento da economia mundial não chegava a 5%. Em 2008, começaram a chorar lágrimas de sangue:

1 – “Relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), uma espécie de banco central dos bancos centrais, sediado na Suíça, afirma que em 2008 o mundo já vivia a maior turbulência financeira desde a Segunda Guerra e que a união de desaceleração econômica e inflação está empurrando a economia mundial para um ponto critico.”

2 – “Segundo o relatório, inovações no mercado financeiro, frouxa regulamentação interna e externa e fáceis condições monetárias globais por um longo período nos levaram à atual situação adversa. O texto atribuia parte da culpa pela crise aos próprios bancos centrais, por não terem tomado medidas para evitar o surgimento da bolha de crédito.”

3 – “Para o BIS, países emergentes, como o Brasil, deviam aumentar as taxas de juros (sic) e permitir a valorização de suas moedas para deter o contágio inflacionário.

***
ARTRITE

Eis aí: “situação crítica”, “inovações no mercado”, “contágio inflacionário”, “sistema bancário paralelo”. Tudo isso quer dizer que o “cassino” dos bancos está com “artrite”, como ensina o Houaiss:

– “Artrite: inflamação de uma articulação. Degeneração da cartilagem articular, que pode ser primária ou devida a trauma e afecções. Doença crônica que se manifesta especialmente nas articulações e caracterizada por dores, inflamação, limitação dos movimentos e deformação ou mesmo destruição das articulações.”

É exatamente o que está acontecendo com o “cassino” dos bancos: “inflamação”,”degeneração”, “deformação”, “destruição das articulações”.

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