O bisturi do doutor Moro

Nas mãos de Moro, a operação que não pode matar o paciente

Bernardo Mello Franco
Folha

O acordo de delação do dono da UTC, Ricardo Pessoa, pode ser o anzol que faltava para fisgar os peixes grandes na Lava Jato. Apontado como chefe do “clube das empreiteiras”, ele conheceu como poucos o propinoduto da Petrobras.

A colaboração também é esperada porque o empresário ajudou a financiar a campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Negociava direto com o ministro Edinho Silva, tesoureiro do comitê petista.

Pelo potencial explosivo do depoimento, é de se prever uma nova temporada de críticas ao juiz Sérgio Moro, ao Ministério Público e ao uso das colaborações premiadas. O ataque a esse instrumento está se tornando a principal defesa dos acusados de corrupção.

Na decisão que prendeu Pessoa e outros empreiteiros, Moro lembrou que “crimes não são cometidos no céu e, em muitos casos, as únicas pessoas que podem servir como testemunhas são igualmente criminosas”.

“Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é aparentemente favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas”, escreveu.

ENTENDENDO MELHOR

Para entender melhor a cabeça que comanda a Lava Jato, vale ler o artigo “O uso de um criminoso como testemunha: um problema especial”, do juiz americano Stephen S. Trott. O próprio Moro traduziu o texto para o português, em 2007.

Trott defende as delações, mas frisa que é necessário corroborá-las com provas. Ele alerta que os delatores são “notadamente manipuladores e mentirosos” e ensina a fugir de armadilhas e pistas falsas que podem levar à anulação de processos e à absolvição de corruptos.

O autor compara a delação premiada a um bisturi. Nas mãos de um médico talentoso, pode salvar a vida do paciente. Em mãos inexperientes ou sem cuidado, pode cortar uma artéria e matá-lo. O doutor Moro deve pensar na metáfora a cada vez que se depara com uma nova veia do petrolão.

9 thoughts on “O bisturi do doutor Moro

  1. Essa matéria sim é realista e não aquela do Ig publicada ontem. A Lava Jato triplicou a sua força com a premiada do Ricardo Pessoa, afinal, só na Petrobras, a UTC tem mais de R$ 10 bilhões em contratos. Essa delação, possivelmente, irá desaguar também no setor elétrico, que é outra Caixa de Pandora petista. A UTC está além de Belo Monte na Usina de Angra 3. Quanto ao trabalho do Dr. Moro, até o momento tem sido perfeito, com um ‘timing’ exato. Ele começou, com toda a calma, pelo andar debaixo e aos poucos foi subindo… Se ainda houver no Brasil, um mínimo de legalidade, com certeza o Dr. Moro chegará ao topo da pirâmide.

  2. Para ver a ‘ineficácia’ alegada pelo IG, é só somar as bronquinhas do Pedro Correa…
    “Pedro Corrêa
    “Pedro Corrêa era um dos responsáveis pela distribuição interna do PP e recebeu valores específicos em benefício próprio”, afirmou o procurador Deltan Dallagnol.
    Conforme o procurador, Corrêa foi denunciado por 280 atos de corrupção passiva – segundo a denúncia, os valores envolvidos nestes atos são de R$ 398.645.680,52. Foram denunciados ainda 569 atos de lavagem de dinheiro, e 123 atos de peculato do ex-deputado.

  3. É o caso do Sr. Yussef. Ele já foi contemplado em processo anterior por delação premiada. Já sabe que basta entregar outros, para sair livre e poder novamente voltar à bandidagem.

  4. Um futuro melhor para o Brasil está nas mãos deste jovem e competente juiz Moro.
    Se todos os bandidos do Lava-Jato forem punidos com o rigor da lei, eu não tenho dúvida de que o Brasil caminhará para melhores dias.

    • Infelizmente meu caro César, o rigor das leis a que se refere são brandos. Bandidos são soltos em um sexto da pena que é no máximo de 30 anos no Brasil, mesmo que eventualmente sejam condenados a 200 anos por crimes de toda sorte. Portanto, acho prudente não alimentar ilusões tão precocemente. O país onde vivemos é o Brasil, terra do oba-oba e da lei de Gérson. Terra do jeitinho e da malandragem centenária. Portugal enviou para colonizar o país todo tipo de bandidos e prostituas, literalmente a ralé lusitana que miscigenou com os índios e negros.

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