O boicote ao trabalhismo e o favorecimento a Lula para derrotar Brizola

Sergio Oliveira

A sigla histórica dos trabalhistas brasileiros é o PTB fundado por Getúlio Vargas em meados da década de 40, mas tomada de Leonel Brizola – legítimo herdeiro político de Vargas e João Goulart – no início da década de 80, fato que  obrigou Brizola a fundar o PDT no dia 26 de maio de 1980, quando a sigla lhe foi surrupiada por iniciativa do general Golbery do Couto e  Silva com a ajuda do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O PTB antigo, pré-64, nada tem a ver com o novo PTB, pós-64, fruto da articulação do general Golbery com a Justiça Eleitoral em benefício de Ivete Vargas. Vejamos os fatos:

O ex-senador Sergio Zambiasi (PTB-RS), em artigo intitulado “Por que apoio Brizola”,  publicado no “Jornal do PDT” de agosto de 1989, na página 4, escreveu no último parágrafo:

“E o PTB do Rio Grande do Sul está nesta luta. Todas as suas lideranças, os vereadores entraram com forte propósito de apoiar Brizola, porque nós entendemos o seu trabalho, o respeitamos, e quando era do PTB antigo foi o melhor governador que tivemos. Por isto, temos agora a obrigação de devolver a ele tudo o que Brizola fez pelo Rio Grande do Sul.”

“ADESÕES” AO NOVO PTB

Tem mais: o jornalista Carlos Castelo Branco, que por mais de 20 anos escreveu a coluna política do “Jornal do Brasil”, na época da fundação do PTB atual, o novo, no artigo intitulado “O PTB de hoje não é o PTB de ontem”, disse, no último parágrafo: “Três adesões foram decisivas para gerar o novo PTB, o PTB não getulista: Jânio Quadros, em São Paulo, que no passado teve o apoio de quase todos os partidos menos do PTB; Sandra Cavalcanti, herdeira do lacerdismo; e Paulo Pimentel, egresso do sistema de Ney Braga, fundador e secretário geral do PDC. Com isso o PTB ganhou viabilidade eleitoral mas perdeu seu vínculo com o passado. A legenda tem outra destinação e outro futuro que não são os de restabelecer a pálida reminiscência do prestigio de Getúlio Vargas e João Goulart.”

Na mesma época, a revista “Veja” de 14.05.80, publicou matéria sob o título “PTB sob medida”, com o subtítulo “O procurador ajudou Ivete que ajuda  o governo”, que afirma: “Sigla tirada de Brizola foi dada à Ivete Vargas, com a ajuda de Golbery e do procurador geral da Justiça Eleitoral, Firmino Ferreira Paz”.

Ainda sobre o episódio, o ex-deputado Helio Duque (PMDB-PR), em artigo intitulado “Um Testemunho”, publicado no mesmo ano, em determinada altura afirma: “Leonel Brizola preparou-se para reorganizar o PTB, mas foi vitimado por Golbery que, autoritariamente, entregou, via Justiça Eleitoral, a sigla à Deputada Ivete Vargas, cujo marido, Paulo Martins, trabalhava para o “bruxo”. Diante do golpe, Brizola criou o PDT.”

A ASCENSÃO DE LULA

Por sua vez o ex-deputado Sinval Boaventura, em entrevista ao Jornal “Opção”, ante a pergunta “é verdadeira a história de uma reunião na casa do então deputado Simões da Cunha, na qual a deputada Ivete Vargas (PTB) teria contado que saíra de um encontro com o general Golbery e este revelou que ia projetar o sindicalista Lula para ser o anti-Brizola?”, ele respondeu:

“A Ivete Vargas disse que tinha estado com o ministro Golbery, na chácara dele, e que ele dissera que precisava trazer o Brizola para o Brasil porque ele estava se tornando um mito muito forte fora do país. Que era melhor ele voltar e disputar eleição, porque assim perderia o prestígio político. Fui ao Golbery e ele confirmou a conversa com Ivete. Explicou que sua estratégia era estimular a imprensa para projetar o Luiz Inácio da Silva, o Lula, um grande líder metalúrgico de São Paulo como uma liderança inteligente e expressiva, para ser preparado como o anti-Brizola. Sou testemunha dessa tese do general Golbery”.

Já o jornalista Mauro Santayana, um dos mais respeitados do país, em artigo sobre Brizola, tão logo ocorreu sua morte, escreveu a determinada altura: “Mas antes de se esvair, o regime de 64 conseguiu seu maior triunfo contra o trabalhismo, roubando a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro de seu herdeiro legítimo, Leonel Brizola, que retornava do exílio. O PTB perdeu sua profundidade histórica e o próprio lastro trabalhista, virando hoje, um “nome fantasia” como outro qualquer.”

VALIA TUDO CONTRA BRIZOLA

Outro depoimento importante foi o feito em 29.05.2005 pelo ex-deputado Léo de Almeida Neves, do Paraná, no artigo “Trabalhismo Autêntico”, publicado no “Jornal do Brasil”. Nele, afirma em determinado trecho: “embora as administrações militares seguintes a Castelo Branco tivessem alguma semelhança na área econômica com as diretrizes governamentais de Vargas e Goulart (fortalecimento das estatais, criação da Embrapa e da Embraer), seria profundamente ultrajante aos militares o ressurgimento do trabalhismo no governo central, uma vez que haviam derrubado Vargas em 1945, encurralando-o em 1954 e deposto Goulart em 1964. Com essa ótica, entrou em ação o mago do regime, o estrategista General Golbery do Couto e Silva. Houve tolerância para as reivindicações operárias do ABC paulista, conduzidas por Luiz Inácio Lula da Silva, e ao robustecimento de um sindicalismo sem compromissos com o trabalhismo, e desvinculado de Brizola.  Depois, serviram-se da ex-deputada Ivete Vargas, cujo marido trabalhava para Golbery, a fim de aprovar um simulacro de partido de apoio ao sistema vigente, já nos seus estertores. Manobrando com a frágil Justiça Eleitoral da ocasião, conseguiram registrar um artificial PTB, solidário ao governo inclusive nas votações no Congresso”.

Todos esses fatos elencados mostram que tirar de Brizola o PTB antigo e fortalecer Lula foram a estratégia dos militares para evitar que o trabalhismo governasse o Brasil.

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13 thoughts on “O boicote ao trabalhismo e o favorecimento a Lula para derrotar Brizola

  1. Leonel Brizola foi o maior brasileiro do meu tempo. Tão grande que, após sua morte, não mais dei o voto a ninguém.Diante da grandeza de Leonel Brizola, com a sua falta passei a ver os políticos brasileiros pequenos.
    Fui quase a vida inteira admirador do grande sul-rio-grandense.Desde adolescente, quando estudava o curso clássico no colégio Central, na capital baiana.

  2. A pergunto que deixo aos meus colegas frequentadores deste Blog incomparável é a seguinte:
    Por que Brizola não deixou pelo menos um herdeiro político, mesmo que pertencesse a outro partido, mas com o mesmo objetivo para com o povo brasileiro no que tange à Educação?!

    Ora, o ponto nevrálgico do Brasil é o Ensino deficiente, mal distribuído, professores mal (muito) pagos, alunos sem estímulo, pais distanciados quanto à escolaridade de seus filhos, se adequada ou falha ou como ele se comporta na escola, colégios abandonados, enfim, total menosprezo de nossas autoridades sobre esta área de vital importância ao crescimento do Brasil e de seu povo.

    Brizola, que trouxe a esperança aos pobres de uma escola em tempo intergral, que tiraria as crianças das ruas e à mercê de más companhias, de circunstâncias do meio ambiente que levam o jovem onde vive à delinquência, teve a sua interrupção tão abrupta nesta construção de um revolucionário método de ensino e de preocupação com o futuro das crianças deste País que, até hoje, não compreendo que o próprio povo não tenha reclamado pelo término deste processo tão avançado e necessário!

    Leio, vejo e ouço reclamações procedentes e improcedentes;
    O mesmo quanto aos direitos das minorias;
    Igualmente reivindicações de categorias profissionais por melhores condições de trabalho e ganhos;
    Discussões intermináveis sobre capitalismo e socialismo e, no entanto, SEQUER encontro na mídia ou nos cartazes que os jovens carregam nas passeatas, QUALQUER palavra referindo-se ao ensino integral de Brizola e Ribeiro, demonstrações de que a população não se preocupa com ela mesma, que a educação não é o seu objetivo principal, que o seu aperfeiçoamento como cidadão está mais diretamente vinculado ao patrimônio e salários que ao estudo, ao desenvolvimento mental, à verdadeira e indiscutível liberdade que somente o ensino possibilita!

    Assim, atrevo-me a concluir que, as críticas inicialmente dirigidas aos nossos governantes por essas omissões devem ser retiradas, haja vista ser o povo que não deseja uma escola de qualidade para seus filhos, que não quer os CIEPS, que prefere bolsas de vários tipos alcançadas pelo governo que reclamar por um ensino condizente.

    Desta forma, talvez esteja nesta minha alegação – o desinteresse da população pelos CIEPS -, a razão pela qual Brizola não deixou um sucessor à sua altura, que dignificasse a sua obra, que enaltecesse os esforços que destinou à área mais importante e crucial para uma nação sair do seu estágio de dependência de outras: ENSINO PÚBLICO DE QUALIDADE!
    Se o próprio povo não valoriza a Educação por que, então, os governantes terão de se preocupar com este detalhe?

    Japão, Alemanha, Coréia do Sul, Escandinávia, que sirvam de exemplos de um ensino admirável, da educação extraordinária de seus povos, lembrando a conduta dos japoneses em supermercados quando dos tsunamis em 2011, a sua solidariedade para outras pessoas, o nível elevadíssimo de urbanidade e de parlamentares honestos e avessos à corrupção, ao contrário de outros países tanto no Ocidente quanto no Oriente, enquanto que nós, brasileiros, fiquemos a discutir o passado, a nossa política atual, os grandes vultos da nossa História, pois não temos futuro, não sabemos o dia de amanhã, a não ser o aumento das cracolândias, de drogados, de crianças que já servem ao tráfico, de gurís e de gurias abandonados pelos seus pais, de meninas que se prostituem, de meninos que já praticam crimes de adultos!

    Infinitamente melhor usar os CIEPS como camarotes no carnaval do que vê-los cumprindo suas funções quando construídos, eis a razão de o nosso Brasil ser o País mais alegre do mundo e, desgraçadamente, um dos piores em educação no planeta:
    DECISÃO POPULAR!

  3. Companheiros, em ÉPOCA DE CPI vamos lembrar de Brizola: Alceu Colares governava o Rio Grande do Sul e o PT fazia uma barulheira tremmenda acusando o governo de corrupção; o “protesto” era diário pedindo CPI. Brizola vai ao Rio Grande do Sul e conversando com Colares pergunta: Isso é vedade? Colares diz: Não existe nada disso. (O PDT tinha maioria na Assembléia) Brizola diz , manda o presidente da Assembléia abrir uma CPI e dá a presidência e a relatoria ao PT. Assim foi feito e o PT ficou mal porque não encontrou nada.

  4. Concordo e repito: Leonel Brizola, o grande líder político do século XX no Brasil, não deixou sucessores porque ele era inteligente e sabia que não existiam sucessores. A questão é que no século XXI não temos mais grandes líderes, só pequenos líderes. E pelo andar da carruagem… nem tão cedo teremos médios líderes, grandes… tá difícil…

  5. Este presidente Lula, foi um engodo, não apurou as privatizações da era FHC e acho, que estava ali para prejudicar Brizola, que inocentemente aceitou ser seu vice.
    O país se endividou ainda mais e logo saberemos o resultado dos governos Lula/Dilma.

  6. Prezado Sr. Prof. Carlos Frederico Alverga, Saudações.

    Parabéns pelos excelentes artigos sobre PTB, Brizola, Pasqualini. São artigos assim que engrandecem o nosso Jornal “Tribuna da Imprensa onLine”, e nos educam, pois os Antigos diziam: que a Imprensa é a Escola dos Adultos. Pessoalmente me coloco à direita do PTB, pois a meu ver, sua ideologia, Capitalismo Solidarista, correta em termos gerais, na prática derivou para um exagero de Intervenção do Estado na Economia, levando as Estatais a quase 55% do PIB com viés de alta, e sabemos que a Estatal sofre muito a influência Política com grande dano à Meritocracia, e exageros de Regulação no funcionamento dos Mercados, como Tabelamento de Preços, Tabelamento de Aluguéis, Carga Tributária exagerada, tentativa de Regular Lucros, etc, etc. Agora, um Trabalhismo Brasileiro BEM REGULADO, não estaria mal. Abrs.

  7. A Dilma Rousseff não é a herdeira legítima do dedo podre? Pelo menos quando estava escondida como empresária do ramo de produtos chineses, era uma autêntica brizolista.
    É mais uma que não vai dar em nada, só sabem correr carregando malas pretas.

  8. Ao meu texto podemos acrescentar isto, para provar que o PTB de hoje nada tem a ver com o PTB de ontem:
    “Pulando para o episódio que detonou o escândalo do mensalão, a ligação do então deputado Roberto Jefferson com o assessor dos Correios Mauricio Marinho, aquele flagrado por uma câmara oculta recebendo o que Jefferson definiu domo “peteca” (pequena quantia de dinheiro da corrupção), o advogado e jornalista Bension Coslovski entrou com representação na Câmara dos Deputados contra Jefferson, questionando suas atitudes, elencando 28 episódios em que esteve diretamente envolvido, citou como primeiro o fato de que ele “orgulha-se de ter sido um dos fundadores do novo Partido Trabalhista Brasileiro, nos idos de 1981/82.”
    Notem bem: Zambiasi se referiu ao “PTB antigo”, o de Vargas, Goulart e Brizola; ao passo que Coslovski cita o ” novo Partido Trabalhista Brasileiro “, fundado por Ivete Vargas. Ou seja, apenas a sigla é a mesma. Já na peça “Bailei na Curva” de Julio Conte e outros, muito famosa no Sul, há uma personagem, a Gabriela, que, num texto é apresentada como “pessoa que sonha ser médica e o pai é sindicalista ligado a tradição popular do antigo PTB de Brizola”.

  9. E podemos citar isto, também:
    “Ainda sobre as questões PTB x PDT, o jornalista Sergio Gobetti escreveu no “Estado de São Paulo” de 6.10.2006: “O PTB já foi motivo de inúmeras disputas, como a da ex-deputada Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio, com o ex-governador Leonel Brizola. O Líder trabalhista, quando voltou do exílio, tentou ficar com a sigla, mas quem levou a melhor foi Ivete. Embora o atual PTB não tenha vínculo político e ideológico com o velho trabalhismo, continua lucrando com a popularidade da sigla, que só perde em antiguidade para o nome do PCB (Partido Comunista Brasileiro), de 1922”.

  10. Em 27.10.65, pelo Ato Institucional Número Dois (AI-2), foram extintos os partidos políticos até então existentes, estabelecendo um sistema bipartidário. De um lado formava-se a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que representava o governo, e de outro o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que reunia uma parcela da oposição. A Arena foi fundada em 04.04.1966, ao passo que o MDB teve sua fundação em 24.03.1966.
    Com a redemocratização foi extinto o bipartidarismo, tendo sido fundados vários partidos, a partir de então, a saber, citando-se os mais importantes:
    PMDB, registrado no TSE em 30.06.81, não tendo, portanto, 47 anos, como comemoram; estes 47 anos levam em conta o período de existência do MDB, que foi extinto com o fim do bipartidarismo.
    PDT, registrado no TSE em 10.11.81
    PT, registrado no TSE em 11.02.82
    PTB atual, registrado no TSE em 03.11.81, não tendo, portanto 68 anos, como comemoram; levam em conta a data de 15.05.45, que é a fundação do PTB antigo, constante do Estatuto que registraram em 1981, o que, a meu ver, é uma fraude. A sigla tem 68 anos, mas não o PTB atual.
    Se isto é legal, o PSD do Kassab, registrado no TSE em 27.09.2011, de repente poderia usar a data de fundação do PSD antigo, 17.06.45, para dizer que é o mesmo partido; nós sabemos que não.
    PSB, registrado no TSE em 01.07.1988. Em 1947 foi fundado o PSB antigo, extinto pelo AI 2 em 27.10.65. Um não tem nada a ver com o outro; apenas a sigla é a mesma. Só falta comemorarem 66 anos. A sigla tem 66 anos, mas o PSB atual não.

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