O bom samaritano

Sebastião Nery

Era um domingo de junho de 1978. Pânico na Assembléia Legislativa de São Paulo. A fumaça invadiu o salão nobre, quando começavam a ser contados os votos das dramática convenção da Arena, que ia decidir entre Paulo Maluf e Laudo Natel para governador de São Paulo.

Cláudio Lembo (que depois foi governador) presidente do partido, o deputado Cunha Bueno (fiscal de Maluf), o deputado Nabi Chedid (fiscal de Laudo Natel) e o delegado Riberti da Polícia Civil pegaram as duas urnas e saíram tossindo e apressados para a sede do Tribunal Regional Eleitoral, no Parque Anhembi.

Ninguém confiava em ninguém. Todos queriam ir em um carro só, para vigiar as urnas e os votos. Não havia carro que levasse todos juntos. Entraram numa radiopatrulha parada em frente à Assembléia, um grande camburão e tocaram para a rua Francisca Miquelina.

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MALUF

No viaduto Maria Paula, fechou o sinal, a radio-patrulha parou com aqueles homens todos ali dentro, amontoados em torno das urnas. Um crioulão passava, viu aquilo, abriu os dentes numa risada surpresa e feliz:

– Aí, seus brancões, chegou o dia de vocês”!

A patrulha arrancou levando os brancões e o sonho desfeito de Laudo Natel. Paulo Maluf ganhou e foi o governador. Podia não ter sido se, sentado em cima das urnas, vigiando o tempo todo, não estivesse o procurador do Tribunal Regional Eleitoral, o jornalista e poeta de Araxá, Olavo Drummond.

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BENEDITO

Eleito Juscelino Presidente em 1955, a UDN tentou, de todo jeito, impedir a posse. E começou a crise militar, que ia desaguar em 11 de novembro. Benedito Valadares, senador e chefe do PSD de Minas, chamou a seu apartamento, na Raul Pompéia, no Rio, o jovem jornalista do Estado de Minas, amigo e assessor de JK, deputado estadual eleito em 1954:

– Olavo, você precisa falar com o Juscelino para ele desistir.

– Desistir como, senador? O povo elegeu, vai ser presidente.

– Se os militares deixarem, Olavo. Já não aguento mais tanto boato. Cada um que telefona conta coisas piores. Vai acabar acontecendo um golpe e é mais razoável desistir logo. Tem alguém que toca corneta lá embaixo toda hora. Vivo tomando susto.

– Eu vi na entrada, senador. É um menino aprendendo a tocar corneta.

– Ah, que bom. Ainda bem. Mas diga ao Juscelino que ele está querendo ser Tiradentes com o pescoço da gente.

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JUSCELINO

Olavo nunca mais saiu de perto das urnas. Mas dos outros. Fundada Brasília, foi para lá, depois São Paulo. E a vida toda amigo fiel, fraterno, inarredável, de Juscelino. Até velhos políticos mineiros, tão mais velhos do que ele, quando tinham um assunto com JK, procuravam o caminho de Olavo.

Quem ia ver Juscelino no exílio, depois do golpe de 1964, em Paris, Lisboa ou Nova York, sempre encontrava Olavo por lá, ombro amigo, discreto, JK dirigindo seu velho Citroën pelas ruas de Paris e com ele Olavo.

Na Place Vendome, estacionaram em um lugar proibido. O guarda, com seu bonezinho à de Gaulle, chegou, pediu os documentos, conferiu:

– O senhor é parente do grande presidente Kubitschek, do Brasil?

– Sou eu.

– O senhor é o próprio presidente? Por favor, dê-me a chave do carro. Eu mesmo vou estacionar. É uma honra para a França hospedar o senhor. Aqui o senhor não é um exilado. Continua presidente como era lá. Juscelino entregou a chave, pôs a mão no ombro de Olavo e chorou.

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ANDREAZZA

No dia 22 de agosto de 1976, quando saiu da sede da “Manchete”, em São Paulo, para a Via Dutra e a morte, o último abraço para JK foi de Olavo. E não era assim, generoso, apenas com JK. Era com qualquer amigo que precisasse.

Em 1988, fria manhã de chuva em São Paulo, encontrei na porta do hotel, sozinho, pálido, puxando de uma perna, o antes dinâmico, incansável e poderoso bandeirante de obras públicas, ex-ministro Mario Andreazza. Imediatamente chegou Olavo dirigindo seu carro, para levar Andreazza ao hospital, onde fazia penoso tratamento, que durava o dia inteiro. E não era um dia só. Todos os dias da semana, lá estava o bom samaritano de Araxá.

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OLAVO DRUMMOND

Paschoal Carlos Magno dizia que, a partir de certa idade, a vida é uma alameda de amigos mortos. Sempre há mais um. Em maio de 2005, lá se foi Olavo Drummond, querido amigo que conheci jornalista em Belo Horizonte em 1952, deputado em 1954, procurador da República, conselheiro do Tribunal de Contas de São Paulo, ministro do Tribunal de Contas da União e, depois dos 70 anos, já aposentado, eleito prefeito de sua Araxá, para onde voltou apenas para servir. Um bom samaritano.

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