O Brasil desprivatizado

Sebastião Nery

Como Dom João VI, também Dom João III tinha cara de bobo mas não era nada bobo. A iniciativa privada das capitanias hereditárias fora um fracasso total. O Estado tinha que assumir. Resolveu criar um governo geral no Brasil, com sede na Bahia. Mandou uma carta a Caramuru para ele ajudar o primeiro governador, Tomé de Sousa:

“Eu, el Rei, envio muito a saudar… Eu ora mando Tomé de Sousa a essa Bahia de Todos os Santos, por capitão e governador… Vos mando que quando o dito Tomé de Sousa lá chegar, vos vades para ele e o ajudeis”.

Caramuru vivia no Outeiro Grande, uma colina acima da antiga Vila do Pereira, hoje bairro da Graça, com sua Paraguaçu. E fez o mandado.

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TOMÉ DE SOUSA

Tomé de Sousa, militar de carreira, que servira no Marrocos e na Índia, era filho de um abade e se revelou o único realmente sério, correto, dos três primeiros governadores-gerais. Duarte da Costa, o segundo, com seu filho Álvaro da Costa foram um desastre. Desastrados e corruptos.

Mem de Sá, o terceiro, roubou tanto que se tornou “o homem mais rico do Brasil no século 16, e o mais acusado de corrupção”. Tomé de Sousa chegou a Salvador em 29 de março de 1549. Encontraram “um quase segundo paraíso, em perpétua primavera”, “águas de um azul translúcido, repletas de ilhas verdejantes, pontilhadas por um colar de praias”.

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A COMITIVA

A frota era de seis embarcações e mais dois navios mercantes. Mais de 500 homens (fala-se até em mil): a maioria mercenários, voluntários ou desocupados. Além do material para a construção da cidade e bugigangas para enganar os índios, comida, água, e vinho em 600 tonéis de madeira.

Não havia só burocratas e soldados. Também artesãos, marujos, “desorelhados” e “ferrados” (gente punida de crimes anteriores), um médico, um relojoeiro, um boticário, um barbeiro e 51 “trabalhadores”. Uma falta total de mulheres, que ficaram em Portugal, inclusive a de Tomé de Sousa, Catarina da Costa, por quem ele “se consumia de saudade”.

E três padres jesuítas: Manoel da Nóbrega, o líder, depois provincial, Leonardo Nunes, cristão-novo (judeu convertido), e Azpicuelta Navarro.
Nóbrega rezou uma missa “numa maneira de igreja”. Era a “pequena capela de pau-a-pique, com cobertura de palmeira, que Paraguaçu, mulher de Caramuru, mandara erguer, na colina, onde hoje fica a Igreja da Graça”.

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A CIDADE

A primeira grande e correta decisão de Tomé de Sousa foi construir a cidade no alto da colina, com o centro onde hoje é a Praça Municipal, cercada por uma muralha com duas portas: uma no atual Pelourinho e outra na hoje Praça Castro Alves. Dentro, ficaram o palácio do governador, a Câmara Municipal (o primeiro Poder Legislativo do País), a cadeia, a Santa Casa de Misericórdia, a igreja dos jesuítas e o Pelourinho.

Lá embaixo da colina, na Cidade Baixa, a Igreja da Conceição da Praia, a alfândega e um armazém, o mercado popular, ligado à Cidade Alta por um elevador de carga, o Guindaste dos Padres.

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OS JESUÍTAS

Não se pode falar em Salvador, Bahia e Brasil sem a Companhia de Jesus, os guerrilheiros de Cristo. Uma coincidência histórica: um fidalgo espanhol, basco, nascido em 1491, um ano depois de Colombo na América, em um cerco francês a Pamplona, levou uma bala de obus nas partes baixas.
A parte inferior da perna direita foi estraçalhada. A barriga da perna esquerda, dilacerada. E ficou impotente. Inigo Lopes de Oñaz decidiu tornar-se um “mendigo de Deus”.

“Manco e de magreza espantosa, cabelos e unhas longos, partiu para Jerusalém em peregrinação”. Na volta, em 1529, foi estudar Teologia em Paris. Trocou o nome para Inácio de Loyola, reuniu seis colegas do curso e fundaram a Companhia de Jesus, a serviço do papa, que Alexandre Herculano chamou de uma “milícia papal”.

Mudaram a Igreja e ajudaram a fundar a Bahia e o Brasil. Ortodoxos, radicais, vetavam o grego por ser “aristotélico” e o hebraico por ser “judaico”. Denunciavam os intelectuais humanistas à Inquisição, ao Santo Ofício. Na hora da partida de Tomé de Sousa, a saída da frota atrasou esperando um andarilho experiente, que tinha sido convocado e vinha a pé de Beira, a 150 quilômetros de Lisboa. Era o jesuíta Manoel da Nóbrega.

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NÓBREGA

Estudante em Salamanca, Nóbrega foi para Coimbra, formou-se em Direito Canônico e Filosofia, aos 23 anos. Queria ser professor, não conseguiu. Era gago, “tardo na fala”. Foi ser padre. Entrou aos 27 anos na Companhia de Jesus, dirigida em Portugal por um dos seis fundadores.

Era tão radical que, no carnaval de Coimbra, em 1547, para amaldiçoar a turma, “desfilou com um crucifixo, uma caveira e vários ossos”. Imaginem hoje desfilando de caveira e ossos na mão, no Farol, diante dos camarotes de Gilberto Gil, Ivete Sangalo e Daniela Mercury.

Na Bahia, ele e os companheiros “percorriam as ruas em ruidosas ladainhas noturnas, submetendo-se a açoites e conclamando o povo a imitá-los”. Foi bem o símbolo de “uma colônia sem livros e universidades, sem imprensa e sem debates”, durante 300 anos, até dom João VI chegar e abrir.

Como vimos antes, Bahia e Brasil nasceram de três naufragios: o de Caramuru, primeiro baiano, o de Pereira Coutinho, primeiro donatário, e o de Pero Sardinha, primeiro bispo. Desde o começo, tocados pelos ventos da História. Às vezes tragados pelas ondas, mas sempre subindo as colinas.

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