O cabo Palocci

Sebastião Nery

Na natureza nada se cria e nada se perde. Na política também. E na história. Esta já foi contada, mas volta agora muito atual. Tibúrcio era cabo do Palácio Bandeirantes quando Ademar era governador de São Paulo. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital.

Ademar e seu pacotinho

E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grande, bem fechado. Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã bem cedo, o cabo Tibúrcio levando o envelope fino e trazendo o pacote grande. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o preço primeiro do dever.

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CABO TIBÚRCIO

Um dia, o cabo Tibúrcio não se conteve. Abriu pela ponta, cuidadosamente, o pacote grande. Era dinheiro. Muito dinheiro. Tudo nota de mil. Dava uma cueca petista cheinha, cheinha. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão escrito à mão:

– 50 contos no bicho que der.

O cabo Tibúrcio não resistiu. Pegou uma caneta no botequim, emendou:

– 50 contos no bicho que der. Aliás, 55.

Nunca mais lhe deram o envelope fino nem o pacote grande. Foi demitido.

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BURATTI

Rogério Buratti, advogado, secretário particular e chefe da Casa Civil do ministro Palocci nas duas administrações dele na Prefeitura de Ribeirão Preto, em depoimento à Polícia de São Paulo, em 2006, contou esta história:

1. “Palocci foi o personagem central do esquema de corrupção na prefeitura. Foi o próprio prefeito quem negociou o mensalão de R$ 50 mil com a Leão&Leão, da qual Buratti se tornou diretor, depois de deixar a prefeitura”.

2. “Embora a maior parte do dinheiro fosse repassada para o tesoureiro do PT Delúbio Soares, Palocci sempre reservava uma parcela para si”.

3. “Em troca da propina, Palocci organizou um sistema contábil fraudulento, pelo qual a empresa sempre ganhava da prefeitura valores maiores do que os fixados no contrato inicial de varrição de lixo. Mesmo depois de ser ministro, a propina de R$ 50 mil continuou a ser paga” (Veja).

Palocci é o cabo Tibúrcio de Ribeirão Preto.

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RATÃO

Quando estourou o escândalo do mensalão, um dos primeiros deputados a pularem fora da Câmara, renunciando ao mandato para não ser cassado, foi o então líder governista do PMDB, José Borba, macaco-velho do Paraná, acostumado a pular de galho em galho e apanhado com a boca na gamela do Marcos Valério: embolsou R$ 2,1 milhões. Vejam o que se  publicava da CPI do mensalão em 2006:

1. “O publicitário Marcos Valério conta que o advogado Roberto Bertholdo, principal assessor de José Borba, distribuía o mensalão a 55 dos 81 deputados do PMDB. Todos os 55 pertenciam à base do governo”.

2. “Marcos Valério repassou dinheiro para que José Borba pagasse o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, que, em troca, passaria a usar seu programa no SBT para promover o presidente Lula e a então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que se encontrava em campanha eleitoral”.

3. “O PT topou pagar: 5 paus (R$ 5 milhões). E o diretor-geral de Itaipu, o petista Jorge Samek, cobrou US$ 6 milhões de dólares de propina da empresa Siemens, para perdoar uma dívida (multa) de US$ 200 milhões” (Veja).

Não era um governo. É uma fábrica de cuecas e malas pretas.

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