O cabograma da confusão

Sebastião Nery

Primeira semana de novembro de 59, vésperas da convenção nacional da UDN que ia realizar-se no Rio, no dia 8, para escolher o candidato do partido à Presidência da República no ano seguinte: Jânio Quadros ou Juracy Magalhães.
Juracy, governador da Bahia, foi antes a São Paulo. Daqui de Salvador, fomos três jornalistas, também passando antes por São Paulo: Juracy Costa, Virgilio de Sá e eu. Ficamos no hotel Jaraguá, onde o governador Juracy também estava hospedado.

Juracy Costa saiu e daí a pouco voltou eufórico da sede do Diretorio Regional da UDN, onde ouviu violento bate-boca. Um grupo acusava Carlos Lacerda de estar apoiando Jânio porque este, quando governador, aprovara um empréstimo do Banespa à Tribuna da Imprensa, de Lacerda.

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JURACYS

Juracy Costa, do Rio Grande do Norte, de pai juracisista de 1930, que por isso lhe pôs o nome e o fez afilhado de Juracy, mandou um cabograma pela Western para o “Jornal da Bahia”, contando a história, e entregou na portaria para o hotel passar. E assinou: “Abraços, Juracy”.

No dia seguinte, o escândalo. Um jornalista da “Tribuna da Imprensa”, também hospedado no hotel Jaraguá, viu o cabograma, interceptou e levou para o jornal, que publicou, com um violento artigo de Lacerda acusando Juracy, o governador, de ser o autor.

Antonio Carlos Magalhães, deputado da UDN da Bahia e escudeiro de Juracy, apareceu cedo no hotel e pediu a Juracy Costa que fizesse uma carta à “Tribuna” explicando o equívoco. No apartamento do Juracy Costa, escrevemos a oito mãos: Antonio Carlos, Juracy, Virgilio e eu. Um portador especial levou a carta em mãos a Aluisio Alves, redator-chefe da “Tribuna”.

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LACERDA

Dias depois, convenção da UDN no palácio Tiradentes, no Rio. Lacerda entrou como um furacão: o gênio na frente e as mal-amadas atrás. Perto da mesa, viu Juracy Costa e foi direto a ele:

– É você o Juracy, jornalista da Bahia?

– Sou, sim.

– Tenho o desprazer de apertar a mão do mais jovem mentiroso do País.

Juracy Costa soltou um palavrão. Se Nilson de Oliva César (tio do Aloísio Mercadante de Oliva), o saudoso Pixoxó, Virgilio Sá e eu não fôssemos rápidos, os dois teriam se atracado.

Juracy fez um profético discurso drummoniano: “E agora, José”?, perguntando à UDN o que ela iria fazer “quando Jânio metesse os pés pelas mãos”. E Lacerda, como sempre, respondeu com uma de suas obras-primas de oratória, terminando com a histórica saudação ao “meu Rio de amor”.

Jânio teve 205 votos, Juracy 83.

 

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