O canguru do Maranhão

Sebastião Nery

Alan Shepard desceu na Lua e saiu andando, branco e inflado como um fantasma, sobre as crateras de Fra Mauro. Era mais um. Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Edwin Aldrin tinham sido os dois primeiros homens a caminharem sobre a Lua. O outro companheiro do vôo, Michael Collins, ficou no comando da Apollo 11 enquanto os dois saiam.

Shepard também era um pioneiro. Em 5 de maio de 1961, fôra o primeiro americano a ser enviado ao espaço, a bordo da cápsula Mercury (menos de um mês depois do russo Gagarin, em 12 de abril de 61).

Diante da TV, o mundo inteiro ouviu quando um cientista de Houston, vendo Shepard caminhando, gritou cá de baixo: – “É o canguru!”.

Eu tinha acabado de ler uma entrevista do senador Sarney à revista “Veja” e também gritei na redação da “Tribuna da Imprensa”: – “É o Sarney!”. E escrevi minha coluna daquele dia: “O Canguru do Maranhão”.

***
SARNEY

Aquele falso fantasma, engordado de falsas vestes, iluminado de falsas luzes, estendendo falsas sombras, só podia ser o Sarney, patinando trêmulo sobre as crateras dessa Fra Mauro verde-amarela, que era a vida política nacional. Na “Enciclopédia Delta-Larousse”, Houaiss ensinava:

“Canguru: caracteriza-se por uma cauda importante para o equilíbrio do salto. Animal inofensivo e medroso. Carne e couro aproveitados”.

Não era um verbete. Era uma biografia. A entrevista do senador Sarney era um documento importante da vida política brasileira no governo Medici. Não pelo que disse, porque nada disse. Mas pela tristeza que deixou, ao sentirmos que alguns homens políticos pagavam um preço alto demais pela ilusão de se sonharem de boca nas tetas do poder.

***
VEJA

Não era elogio, porque era verdade, lembrar que o senador Sarney era um jovem de talento, com sua contribuição a algumas lutas públicas nacionais e com uma obra administrativa estadual que lhe deu um diploma de renovação. Mas era terrível constatar que um homem que havia chegado ao Senado aos 40 anos ainda precisasse arrancar sapato e meias para ter licença de pisar os tapetes das ante-salas do poder da ditadura militar.

Há muito tempo não lia coisa mais lamentável do que a entrevista do outrora fogoso e árdego vice-líder da Bossa Nova da UDN à revista “Veja”.

Ainda no começo da década de 70, “para assegurar o equilíbrio do salto”, o senador Sarney gostaria de cortar a cauda do passado. E como ninguém poda o passado, ele ia do Bombril ao Ácido Muriático na tentativa de apagá-lo. E acabava tudo em frasezinhas ambíguas de subliteratura de mau gosto, que não honravam um dirigente político de 40 anos e muito desonravam a Academia Maranhense de Letras, buquê cultural de São Luís, que aprendemos ser a “Atenas brasileira”.

***
VITORINO

Dizia eu, quase 40 anos atrás: – Cada um tem o direito de fazer de sua vida o que quiser. Se o hippie não quer tomar banho, o problema é dele. Se o político quer aderir ao poder, o problema é dele. Mas então que o hippie não queira convencer-nos de que é mais cheiroso do que “9 entre 10 estrelas de Hollywood”. E que o político não tenha a audácia de querer dar lições de moral aos que resistiram aos apelos de oportunismo.

Na Veja, o senador Sarney atacava os políticos e pregava “a nova era dos técnicos”. Logo ele, técnico de que? De subliteratura? Ou será de apagar passado? O azar do senador é que o seu passado estava perto demais para que ele quisesse escamoteá-lo aos olhos do país.

Oficial de gabinete do governador Eugênio de Barros, do PSD, virou suplente de deputado à sombra da liderança oficial do senador Vitorino. Rompeu com Vitorino para “quebrar a oligarquia de 20 anos”, pela mão da qual andou os caminhos que o levariam, através da UDN, à Arena.

***
BOSSA NOVA

E Sarney pisava no pescoço dos políticos, para vender línguas secas no açougue do poder. O senador falava como se seu novo mundo oficial fosse mais novo do que as crateras de Fra Mauro. Ele esquecia que a tarefa existencial tinha que ser cumprida de corda à barriga, como os passeios de Shepard. Quem cortar a corda, morre. De abandono. Ou de vergonha.

Aos 40 anos, falava como o mais velho dos pais da Pátria. E sua geração, onde ele a queria enterrar? Quem eram seus amigos? Quem o levou da Bossa Nova da UDN ao governo do Maranhão?

Foi Magalhães Pinto, foi José Aparecido, foi Seixas Dória, foi Aluizio Alves. Foram eles, seus compadres. E por mais que desejasse riscar os passos de ontem, os afilhados estavam aí, inapagáveis como a vida.

***
“TECNICO”

Quem era eu para dar conselhos a esta revelação de “técnico” que era Sarney? De qualquer forma, gostaria de despertá-lo para duas realidades:

a) No Senado, o governo tinha aproveitado tudo. Até a senectude policial do senador Filinto Muller. Só não havia conseguido ainda aproveitar a oferecida mocidade disponibilíssima do senador Sarney.

b) A carne e o couro do canguru são aproveitáveis exatamente porque ele é inofensivo e medroso. Como os novos “técnicos” da nova ordem, que Sarney queria pôr no poder, no lugar dos políticos, na ditadura militar.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *