O carmim militar

Sebastião Nery

Gilberto Freire, pai da sociologia e da antropologia brasileiras, foi homenageado pela Escola Superior de Guerra em 1980, quando fez 80 anos. Cabeleira castroálvica, rosto nobre, longas mãos aristocráticas, o mestre de Apicucos, como batizou seu talentoso e dileto discípulo Sileno Ribeiro, nunca tinha sido discriminado por suas teses polêmicas.

Nem por seu livre currículo político. Em 1945, foi candidato à Constituinte, em Pernambuco, pela Esquerda Democrática, a legenda que depois veio a ser o Partido Socialista. Foi o orador oficial do comício que recebeu Luiz Carlos Prestes no Recife, saindo da cadeia da ditadura. E deixou a multidão em silêncio, quando abriu o discurso citando Unamuno:

“Ave ferida, pelicano rasgado em pleno peito”!

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GILBERTO FREIRE

A Liga Eleitoral Católica, irritada, vetou seu nome. Monsenhor Sales, vigário de Soledade, todo rendado, rosto massageado, cabelos empoados e oratória barroca, sempre que via, entre os fiéis, dona Madalena, mulher de Gilberto, desancava-o no sermão, condenando sua candidatura. Gilberto Freire deu essa declaração aos jornais do Recife:

– “Eu não digo que monsenhor Sales não deva usar algum carmim. Mas que use tanto quanto está usando, é demais”.

Monsenhor Sales nunca mais falou nele. Gilberto Freire se elegeu.

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GENERAL

Sabatinado no Senado para o STM (Superior Tribunal Militar), o general Cerqueira Filho disse que gay não deve ser militar: “Melhor procurar outra atividade” (sic). A não ser que fique na dele e ninguem saiba. Como o monsenhor Sales, algum carmim pode, mas não demais.

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ANISTIA

Não adianta tentar tapar a boca da Historia. Mais dia menos dia ela fala. A criação da Comissão da Verdade, para pesquisar, estudar e reconstituir torturas, assassinatos e desaparecimentos cometidos pelo golpe de 1964, é como fogo morro acima e água morro abaixo. Ninguem segura.

Não se trata de revanche e muito menos de revisão da Lei da Anistia. É a busca da verdade. O país tem direito de saber, quer saber, vai acabar sabendo de tudo que aconteceu nos sangrentos porões da ditadura. O debate já abriu as porteiras do medo, da conivência e da culpa. A anistia encerrou mas não enterrou. A anistia pôs um ponto final na luta travada entre o governo ditatorial e o pais.Mas não raspou o que houve. Continua tudo ai, em cada processo engavetado, em cada corpo desaparecido

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PAIVA E DAMOUS

1. – No “Estado de S. Paulo”, e já agora multiplicado pelos blogs da Internet, como “Carta O Berro”, o talento, a lucidez e a serena coragem do escritor Marcelo Rubens Paiva, numa carta-aberta brilhantemente redigida (“Caros Generais, Almirantes e Brigadeiros”), mais uma vez cobraram do governo federal e das Forças Armadas toda a verdade sobre a prisão, o sequestro, a tortura, o desaparecimento e o assassinato de seu pai Rubens.

2. – Na “Folha de S. Paulo”, o jovem presidente da Ordem dos Advogados do Rio, Wadih Damous, honradamente cumprindo seu mandato de também guardião da Lei e da Justiça (“É Preciso Olhar Para a Frente’), lançou uma “Campanha pela Memória e pela Verdade”, “para a defesa da abertura dos arquivos da repressão politica na ditadura militar”.

Não é nenhum terremoto do Haiti. É “abrir os arquivos”. É só isso.

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PESQUISAS

O comércio faz suas “queimas”, “liquidações”, “sales” (sic), para acabar com os restos de estoque. Alguns Institutos de Pesquisa, também. Assim que se vai aproximando o começo das campanhas, eles “desovam” pesquisas, números e saem vendendo “a preço de ocasião”, “antes da nova estação”.

Vocês aceitariam uma nota de 50 reais da CNT, a Confederação Nacional dos Transportes? Imaginem “pesquisa” da CNT.

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