O caso Lula-Mendes e a periferia da ética

Carla Kreefft

O país vive uma verdadeira bagunça do ponto de vista dos papéis das instituições e da ética dos agentes públicos. Os fatos revelados a partir das investigações do caso Cachoeira comprovam isso.

E o pior é que os absurdos são tantos que a sociedade já parece tratá-los como algo comum. A relação do senador Demóstenes Torres com Cachoeira, permeada por presentes, jantares, festas e fogos de artifício, é um exemplo. E o parlamentar ainda afirmou no Conselho de Ética do Senado que manteve uma relação republicana com o contraventor. Aliás, ele também negou que tivesse conhecimento das atividades ilegais de Cachoeira. Como isso é possível? Ninguém sabe.

Assim como ninguém acredita que essa versão seja verdadeira. Em alguns países, somente pelo fato de receber um simples presente – mesmo que não seja um celular para ligações exclusivas – um político já pode sofrer impeachment. A Inglaterra e a França são bons exemplos de rigor ético em relação à coisa pública.

Mas tem mais. Por quais motivos um ex- ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) continua advogando. Será que é tão difícil compreender que a condição de ex-ministro já permite que seu cliente entre em vantagem na ações que tramitam no Poder Judiciário. É importante lembrar que o salário de ministro do STF é o maior do país, pelo menos em tese, para que ele mantenha dedicação exclusiva ao tribunal e independência em relação aos outros órgãos. Esse entendimento precisa ser o mesmo para o período da inatividade. Assim, por que Nelson Jobim mantém um escritório de advocacia é outro fato incompreensível.

O que um atual ministro do STF Gilmar Mendes pretendia ao visitar o escritório de advocacia de Jobim é mais uma incógnita. Mais estranho ainda é esse encontro ser partilhado com um ex-presidente da República. Em qualquer país que tenha um regime democrático mais consolidado, os três se encontrariam em uma situação complicada e estariam sujeitos a responder criminalmente por suas condutas. Entretanto, aqui no Brasil, a discussão é sobre qual deles está falando a verdade. A pergunta que povoa o imaginário coletivo é sobre quem está mentindo. Não são discutidas as três condutas antiéticas.

A polêmica em torno do encontro entre Lula, Gilmar Mendes e Nelson Jobim se transformou em uma grande disputa – quase como um jogo de futebol. Há os quem defendem Lula e os que fazem a defesa de Mendes. São dois times partidarizados e cegos diante do absurdo do fato. Mas tudo que está em debate é a verdade dos discursos. A intenção é absolver um e condenar outro, quando, na verdade, todos estão errados.

É lamentável que o Brasil ainda esteja na periferia do debate ético.

(Publicado no Jornal O Tempo)

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