O churrasco e os aviões de caça

Carlos Chagas

Emblemática, mesmo, esta semana, foi a explosão da churrasqueira do presidente Lula, na Granja do Torto, quando picanhas,costelas e cupins já se encontravam quase no ponto. A explicação foi de que elevou-se a tal ponto a temperatura  dos  vidros dispostos ao lado dos espetos que eles trincaram e viraram farelo, caindo sobre a carne.

Ficamos sabendo que churrasqueiras presidenciais tem vidro e que o presidente da França, Nicolas Sarkozy,  frustrou-se por haver  sido o churrasco trocado por uma muqueca capixaba.   Do episódio,  sobressai a estranha coincidência entre o fracasso da refeição prometida ao visitante e a posterior lambança verificada em torno dos 36 caças Rafale que o presidente Lula anunciou  comprar da França  e o imediato recuo divulgado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim.  Numa palavra, espalharam vidro  moído sobre as aeronaves.

Com todo o respeito,  terá gente dando razão a De Gaulle, se é que ele fez o diagnóstico referente à nossa seriedade. Fosse  para aguardar o parecer da Aeronáutica, ironicamente desconsiderada durante os fugazes  festejos pela  venda, no mínimo o presidente Lula não poderia ter dado como consumado um fato ainda em gestação.  No reverso da medalha, se a decisão do governo estava tomada, a solução seria confirmá-la a  despeito da pressão vinda de Washington para adquirirmos  aviões da indústria americana.

O que não dá para aceitar é o avanço e o recuo. No caso dos caças e do churrasco.

Sinal de grandeza

Nem sempre recuar é sinal de fraqueza,  confusão ou lambança.  O presidente Lula merece elogios por haver cedido às ponderações do presidente da Câmara,  retirando o caráter de urgência dos quatro projetos do pré-sal.  Além de verificar que  o Congresso não teria como votar as  propostas  no prazo de noventa dias, convenceu-se o governo de que com um pouco  mais  de tempo seus objetivos poderiam ser conquistados ainda este ano.    Foi essa a contrapartida de  Michel Temer,  recaindo agora sobre seus ombros a dúvida a respeito de  os deputados cumprirem  a  promessa. Pelo jeito, até as oposições concordaram.

Quando rezar não resolve

Infeliz, mesmo, foi o comentário do governador José Serra a respeito do caos verificado em São Paulo  por conta do último temporal. Para o candidato presidencial, o remédio será rezar, se pretendemos evitar outra paralisação da maior cidade brasileira. Não vai adiantar nada dedilhar o terço, entoar mil “Padre-Nossos” e duas mil “Ave-Marias” ou apelar para Jesus conter os arroubos de São Pedro.

Do que São Paulo necessita há décadas é de obras de verdade para recompor o escoamento das águas que vem do céu. Porque viadutos, túneis e demais realizações faraônicas que todo  mundo vê e se extasia não substituem galerias pluviais. Não será com orações que o lixo deixará de se acumular nas tubulações e nas bocas de lobo, cuja ampliação não dá votos, mas asseguraria  o funcionamento da capital.

Não se cometerá a injustiça de inculpar o governador Serra e o prefeito Kassab pelo horror que atingiu São Paulo. Dezenas de seus  antecessores carregam a mesma responsabilidade, tenham sido do PT, do PMDB ou  de partidos já extintos.  Está para ser calculado o prejuízo da força de trabalho, das realizações e dos  negócios interrompidos, sem falar nas mortes e na destruição de casas em todos os bairros. Aliás, a respeito, seria bom perguntar se a privatização dos serviços públicos foi  mesmo solução para melhorá-los. Porque durante horas todos os telefones ficaram mudos, celulares e fixos…

Não entendeu nada

Trajano era um general nascido na Espanha e forjado nas batalhas de Roma contra os bárbaros. Um soldado em tempo integral. Quando feito imperador, levando as práticas da caserna para a capital,  realizou uma das mais competentes administrações da crônica dos césares. Era tido como casca-grossa e desprezado pelas grandes famílias romanas.  Resolveu dar a volta por cima, para  demonstrar que também se ligava às coisas do espírito. Contratou um filósofo para acompanhá-lo em todas as viagens pelo império, com instruções para não perder um minuto e dar-lhe sempre lições de metafísica, discorrendo sobre as grandes questões de ser ou não ser, da existência da alma e dos caminhos da ética. Passados alguns anos um amigo perguntou que proveitos vinha tirando daquela experiência e Trajano revelou: “até hoje não entendi uma só palavra do que ele fala…”

Guardadas as proporções, e graças a Deus  por prazo não superior a dois anos, foi o que aconteceu entre  o presidente Lula e seu felizmente já  ex-ministro do Futuro, Mangabeira Unger. Depois de exonerar-se  e  voltar para os Estados Unidos, o singular cidadão brasileiro e americano encontrou-se com o antigo chefe. Após haver deixado  o gabinete presidencial, um auxiliar perguntou ao Lula sobre o que tinham conversado. A resposta: “não sei. Não entendi  nada…”

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