O churrasqueiro de Médici

Sebastião Nery

O comerciante árabe da Praça Tiradentes, no centro de Curitiba, negou-se a tirar nota fiscal da venda de um pente, no valor de 15 cruzeiros, na época. O comprador, um subtenente da Polícia Militar, queria a nota para juntar com outras, retirar cupons e participar da promoção da Secretaria da Fazenda “Seu Talão Vale um Milhão”.

Houve discussão, os dois passaram a brigar, muito sopapo, e o subtenente foi jogado para fora da loja, com a ajuda de outros jovens do bar ao lado. Dezenas de armazéns e lojas, sobretudo de árabes, foram atacadas.

Formou-se rapidamente uma multidão que entrava nas lojas e jogava nas ruas roupas e todo tipo de mercadorias, sem intenção de saque e roubo.

Era uma inexplicável e incontrolável explosão social.

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O JANTAR DO PADRE

Na catedral de Curitiba, naquela manhã de 8 de dezembro de 59, realizara-se a sagração do padre Emir Kaluf, que celebrava sua primeira missa. O padrinho da cerimônia era o senador do PTB Souza Neves, amigo do pai do padre, comerciante, dono da Casa Louvre, na Rua XV de Novembro.

À noite, houve jantar na casa dos pais do padre, no Largo de São Francisco, com a presença do arcebispo, do general comandante da região e muitos políticos. De repente, a multidão enlouquecida apareceu em frente à casa, começou a apedrejar e quebrar os janelões de vidro, e seguiu em frente.

Durante três dias a “Guerra do Pente” transformou o centro de Curitiba numa praça de guerra e a Polícia Militar não conseguia conter as mais de 20 mil pessoas ensandecidas. Foi preciso apelar para o Exercito e seus tanques.

Em 86, o episódio virou filme de Nivaldo Lopes:

– “Guerra do pente, os dias em que Curitiba explodiu”.

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O CHURRASQUEIRO DE MÉDICI

Arthur Moreira Castilho, funcionário federal bem remunerado do governo de João Goulart no Paraná, no golpe de 64 foi demitido, preso, maltratado. Quando foi solto, desapareceu completamente.

Um dia, Nestor Jost, presidente do Banco do Brasil, levou o presidente Médici ao Acre e lhe ofereceu um churrasco bem gauchado. O churrasqueiro era um craque. Fez uma carne perfeita, bem cortada, coberta de elogios.

Quando o general dos piores anos do AI-5 queria um pedaço de carne, era o próprio churrasqueiro quem enfiava sua faca amolada e o levava a Médici, como um pedaço de bandeira na ponta da lâmina.

Ninguém sabia quem era o churrasqueiro. Também ninguém lhe perguntou. Acabada a farra, no dia seguinte, com Médici, já a caminho de Brasília, Nestor Jost perguntou o nome do churrasqueiro. E ficou sabendo do nome e da história: Arthur Moreira Castilho.

Não há segurança perfeita. Se o Castilho tivesse endoidado, Médici estaria churrasqueado na ponta da faca dele.

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