O clima é de apreensão, porque já se fala até em delação premiada de Cunha

Charge do Mário, reprodução do Arquivo Google

Daniela Lima, Gustavo Uribe e Valdo Cruz
Folha

O telefone de Michel Temer (PMDB) tocou por volta de 7h30 da manhã nesta quinta-feira. Era o aviso de que havia uma decisão no STF (Supremo Tribunal Federal) para afastar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do mandato. Os aliados se apressaram em alardear um suposto “alívio” do vice-presidente com a notícia, mas não foi assim. Temer montou quase de imediato uma equação problemática: se Cunha não era mais o presidente da Câmara, então, quem era? O substituto lhe traria complicações? Seria preciso intermediar uma nova eleição para o comando da Casa? Afetaria a montagem de seu possível governo? Seria, de fato, uma boa notícia a uma semana da votação do afastamento de Dilma Rousseff no Senado?

O vice tentou responder a todas essas perguntas e se reuniu com os principais aliados, futuros ministros e dezenas de deputados. Fez questão de não explicitar nenhum comentário que pudesse melindrar Cunha.

IMPACTO PROFUNDO

O revés vivido pelo peemedebista suscitou especulações sobre qual poderia ser o impacto se, por exemplo, pressionado pela Justiça, decidisse fazer uma delação.

Para além das dúvidas que se instalaram nesta manhã, havia uma certeza: provocar um homem com o potencial ofensivo de Cunha certamente não era uma boa ideia.

Os que falavam em alívio no início da manhã avaliavam que a saída do presidente da Câmara afastava um dos fantasmas que rondam a possível gestão do vice.

Diziam que, com o peemedebista fora do jogo, não haveria espaço para o discurso de que Cunha seria o “vice do vice” e assumiria o Planalto em eventual ausência de Temer.

Mas, no início da tarde, o discurso otimista já havia dado lugar a um tom cauteloso. Em uma das únicas avaliações que fez do julgamento, Temer considerou desmedido o afastamento do peemedebista não apenas do cargo de presidente, mas também do mandato.

NOTA DO “CENTRÃO”

A decisão de Teori contaminara todas as conversas já agendadas por Temer. Um grupo de parlamentares do chamado “centrão”, aliado a Cunha, assinou uma nota de solidariedade ao peemedebista na varanda do Palácio do Jaburu.

O vice foi chamado a comentar o texto. Recusou-se. Disse que era um assunto interno da Câmara, e que preferia não se meter.

Ao final do dia, o grupo de Temer ainda tinha dúvidas sobre qual a melhor alternativa: um mandato tampão do vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), até início de 2017 ou o apoio a uma nova eleição na Casa.

Defensores da segunda tese justificam a preferência com o histórico do pepista. Maranhão votou contra o impeachment de Dilma e criticou o processo de afastamento da petista. Como presidente da Câmara, teria agora nas mãos a chance de dar andamento a um pedido semelhante do qual o vice é alvo.

MAIS DÚVIDAS

Há ainda o indicativo de que aliados de Cunha querem uma nova eleição e de que, uma vez liquidadas as chances do peemedebista voltar ao cargo, ele gostaria de participar da escolha de seu sucessor. Esse grupo sinaliza na direção de três nomes: André Moura (PSC-SE), Jovair Arantes (PTB-GO) e Rogério Rosso (PSD-DF), o favorito.

No entanto, há o temor de que uma disputa dessa natureza impeça Temer de aprovar medidas vitais para o início de sua gestão. A principal e mais iminente preocupação do vice é com a alteração da meta fiscal, que teria de ser feita até o dia 22, para evitar a interrupção do pagamento de despesas básicas do governo, como luz e telefone.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGA matéria ficou restrita ao “bunker” de Temer, mas o clima de apreensão é geral, porque a possibilidade de Cunha fazer uma delação premiada causaria um tsunami na política nacional. Cunha só ficou famoso recentemente, mas há vários anos é o rei dos bastidores e das mutretas na política. Parodiando um grande sucesso do sambista Moreira da Silva,  pode-se dizer que “vocês não se afobem que o homem dessa vez não vai falar”… Cunha só fará delação depois que for preso, e isso ainda depende do Supremo, porque ele ainda não perdeu o foro privilegiado.  E a política nacional continua cada vez mais ensandecida. (C.N.)

10 thoughts on “O clima é de apreensão, porque já se fala até em delação premiada de Cunha

  1. Há alguns anos, quando Teori Zavascki foi sorteado para ser o relator da Lava Jato, Elio Gaspari comentou que os do PT ainda sentiriam saudades de Joaquim Barbosa. A gente bem que duvidou do jornalista , quando vimos aquelas fotos do ministro confraternizando com os advogados dos empreiteiros naquele casamento, em Fortaleza, do filho de um deles. Porém…

    Tem me parecido , face aos seus duros votos contra as chicanas governistas pro-impeachment, que Teori Zavascki ao se debruçar sobre as denuncias da Lava Jato ficou com o estômago embrulhado. Acredito que , excetuados os ministros Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Barroso, os demais já desembarcaram da nave dilmista e que, em terra ainda pouco firme, pretendam amaciar o caminho das pedras de Michel Temer.

    Acredito que a ADPF preventiva da Rede, argumentando que a permanência de Cunha na Câmara feria preceitos fundamentais e que ele não poderia estar na linha sucessória, ao ser sorteada para o recém convertido petista Marco Aurélio, precipitou o acontecimentos , por conter no seu bojo , uma casca de banana jurídica a qual , caso passasse , poderia vir a ser utilizada para retardar ou até mesmo anular o impeachment na Câmara. Com certeza , Teori Zavascki implodiu a ribalta , os holofotes e o microfone, nos quais Marco Aurélio , Lewandowski e Barroso pretendiam discursar contra a aceitação da denúncia que resultou no impeachment.

    A derrocada de Cunha não deve mudar o impeachment de Dilma Rousseff . Por que? Ora , se fosse essa a intenção da maioria do STF , ontem teria sido julgada a ADPF da Rede e não a cautelar de Teori.Isto não significa que os petistas desistirão de judicializar e tentar parar o impedimento de Dilma seja no STF seja em outras instâncias. No final de abril , José Eduardo Cardozo, requereu à Comissão de Impeachment no Senado, que os autos do processo fossem enviados à Câmara e que fosse declarada a nulidade votação dos 511 deputados. E se o novo presidente em exercício da Casa do Povo, o tal do Maranhão que votou contra a deposição da presidenta , resolve deferir a petição?

    No plano político o que a queda do poderoso Cunha representa? De saída , claro fica que Michel Temer pulou uma fogueira. O STF livrou-o de um aliado corrupto que comprometeria a legitimidade de seu mandato. Para o vice é melhor que os poderes de Cunha , e com ele suas exigências , tenham sido neutralizados. Mas também é evidente que, sem a inegável competência política de Cunha, e numa Câmara em polvorosa , será mais difícil para o novo governo aprovar seu programa de governo.Também não nos esqueçamos que a qualquer momento Cunha pode provocar um curto circuito no novo regime .Nem mesmo a nossa tão complacente República resistiria a uma delação premiada deste bandido.Para quem não se lembra , em uma mensagem interceptada pela Lava Jato, Cunha citou para Léo Pinheiro , um repasse de R$ 5 milhões supostamente feito pela OAS para Temer.

    A decisão de ontem do plenário do Supremo afasta do comando da Casa do Povo um bandido de alta periculosidade , é verdade, e foi uma brisa na nossa árida ética, um nocaute no cinismo da política.Mas, dos pontos de vista institucional e constitucional não é uma boa notícia. Por mais bem redigidas que tenham sido as 76 páginas do voto do relator, nós sabemos e eles sabem que nós sabemos que “suspender” Eduardo Cunha por medida cautelar foi a solução possível , um daqueles jeitinhos brasileiros , uma jabuticaba , que porém continua sendo uma interferência do Judiciário no Legislativo, motivada pelas indigência moral, falta de noção e limites republicanos e inoperância do Parlamento.

    Com efeito, a Ação Cautelar movida pela Procuradoria Geral da República pedindo o afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara , estava cochilando numa gaveta suprema desde dezembro último , porque o STF tinha consciência das dificuldades constitucionais de se tratar de tal matéria, embora a impopularidade do presidente da Câmara fosse tão avassaladora quanto a da presidenta prestes a ser impedida. Não foi à toa que, mesmo condenados em última instância e após terem tido direito a todos os recursos previstos em Lei, Donadon e Genoíno continuaram deputados. Para não falar do Senador Delcídio, preso em delito, mas não tão flagrante, que até hoje é senador.

    Não existe amparo na Constituição para a decisão que foi tomada ontem, por melhor e mais justa que ela tenha sido.O nosso dilema jurídico é doloroso: como fica a democracia e a segurança jurídica em um país onde decisões abraçadas pela Carta Magna passaram a ser equivocadas e votos para quais o texto constitucional não dá guarida , tornaram-se os mais indicados ?

    O governo virtual de Michel Temer não navegará em uma mar de rosas sob um céu de brigadeiro , mas continua a nos dar esperança, agora com o apoio da maioria dos magistrados do STF , de que ao fim e ao cabo o melhor mesmo é sepultar naquele bunker os mortos-vivos petistas que ainda falam dilmês.

  2. Necrológio petista – Antagonista

    O PT quer manter Waldir Maranhão na presidência da Câmara.

    Desde sua visita a Lula no Golden Tulip, ele comanda o time.

    Segundo o Valor, o PT “aposta na confusão para tumultuar o início do governo Temer e a aprovação da pauta emergencial do pemedebista.

    Arrisca até que, se pressionado, Maranhão pode usar da mesma arma de Cunha e ameaçar o presidente da República – no caso Temer – com a abertura do impeachment”.

    O PT morreu. E o retrato estampado em seu necrológio será o de Waldir Maranhão.

  3. Mônica Bérgamo
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    O vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), que assumiu provisoriamente o comando da Casa nesta quinta (5) no lugar de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi alertado por colegas a agir com discrição, já que ele deve ser “o próximo” a cair. O parlamentar também é investigado na Operação Lava Jato
    Deputados amigos de Maranhão acreditam que o parlamentar “vai tomar muita porrada”, de acordo com um deles. E, se exagerar, como fez nesta quinta (5) ao se sentar na cadeira de Cunha minutos depois da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de suspender Cunha, pode virar alvo ainda mais visível, precipitando decisões da corte contra ele.

  4. Comissão de “ÉTICA” ??? kkkaass

    ” Auxiliares diretos da presidente Dilma procuram alugar casa medindo ao menos 700 metros quadrados para instalar o pretendido “governo paralelo”. A equipe será paga com dinheiro público: está combinado que assessores já escolhidos por Dilma devem requerer à Comissão de Ética Pública da Presidência da República o benefício de “quarentena”, durante a qual pretendem continuar recebendo os atuais salários. A informação é do colunista Claudio Humberto, do Diário do Poder.

    Já se articula uma nova Comissão de Ética Pública, tão logo Michel Temer assuma o governo, para abortar o esquema da “quarentena”.

    Curiosamente, Dilma orientou sua turma a alugar casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília onde funcionaram seus comitês eleitorais.

    A última vez que a turma de Dilma alugou uma casa no Lago Sul, quem pagou a conta foi o empresário Benedito Oliveira, o Bené, hoje preso.

    Dilma quer o “governo paralelo” ocupando espaços na “imprensa golpista” para falar mal do eventual governo de Michel Temer.

  5. Teoria da conspiração pode ter sentido
    por Merval Pereira
    06/05/2016 12:23

    O ministro Teori Zavascki nega que tenha visto alguma manobra na ADPF da Rede de Marina Silva, ou que tenha se antecipado porque tenha ficado incomodado de ser ultrapassado pela colocação em julgamento tão rápido dessa ação. A teoria da conspiração que tomou conta de Brasília diz que ele teria descoberto alguma coisa que poderia dar margem a uma interpretação errada. Realmente, há alguns indícios na ADPF que dão margens a discussões. Embora seja para impedir que Cunha assuma a presidência da República, a ação alega que, desde que o STF o considerou réu, ele não poderia ter continuado na presidência da Câmara. Isso poderia ser interpretado como fator para anulação de todos os atos dele a partir daquele momento. A teoria da conspiração que tomou conta de Brasília tem razão. Alguém poderia tentar anular o impeachment.

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