O coringa na mesa

Carlos Chagas

Três meses atrás referimos a possibilidade de estar incompleto o quadro sucessório maliciosamente antecipado pelo PT, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Escrevemos que os candidatos poderiam não ser apenas Dilma, Aécio Neves, Marina Silva e Eduardo Campos. Faltava um coringa nas cartas postas na mesa. No caso, o ministro Joaquim Barbosa. Seguiram-se comentários irônicos, especialmente por parte de gente do governo.

Pois não é que das ruas emergiu a confirmação? Dúvidas inexistem a respeito da pesquisa realizada junto aos manifestantes paulistanos. Claro que os vândalos e baderneiros não foram consultados, já que se encontravam empenhados em depredar, assaltar e destruir. Mas a maioria nem por um momento silenciosa encontrou tempo para atender o Datafolha e cravar 30% de suas preferências no presidente do Supremo Tribunal Federal, concedendo 22% para Marina Silva. Dilma, Aécio e Campos ficaram bem atrás.

Atribui-se a Joaquim Barbosa, depois de revelada a pesquisa, uma entrevista concedida no último sábado, ainda que a nenhum veículo de amplitude nacional. Ele teria repetido estar sem vontade de ser candidato, mas, sendo realista, sabia da hipótese de vir a ser. Acrescentou que no Brasil política só se faz com dinheiro.

Em duas semanas, as mais explosivas de décadas, a sucessão presidencial virou de cabeça para baixo. Falta uma consulta nacional incluindo o nome do polêmico ministro, mas, pelo jeito, ele poderá ocupar a pole-position. Tendências costumam ser enganosas, no plano eleitoral, exprimindo um momento determinado, mas se o espírito das manifestações populares continuar assombrando o país, ninguém garante o refluxo.

Singular, nessas indefinidas projeções, tem sido a atitude do ex-presidente Lula. De público, não apareceu, sequer para confrontar a multidão aglomerada defronte ao prédio onde reside, que não poupava vaias e cobranças. Pelo telefone, vem alertando para a possibilidade de surgir um “aventureiro” na disputa pelo palácio do Planalto. A quem se refere? Óbvio que a Joaquim Barbosa, uma pedra no caminho da surda campanha dos companheiros pelo “volta Lula”.

Um suma, mesmo se fazendo contra os políticos, os protestos ainda inconclusos caracterizam a prática política, ainda que de forma inusitada.

ALGUÉM CONCORDA?

Espera-se que arrefeçam as manifestações violentas dos últimos dias, mas, mesmo num interregno de dúvidas, o fim de semana revelou agressões inadmissíveis da massa insurgente ao bom-senso: em pelo menos duas oportunidades, fecharam as avenidas que levavam a aeroportos. As imagens foram de passageiros arrastando suas malas num trajeto de mais de um quilometro. Entre eles, idosos e crianças.

BANDIDOS ENCOBERTOS

Há exceções, mas é constituída de bandidos a maioria das empresas de transporte público, a começar pelos ônibus urbanos. Esses senhores, sem preocupar-se com o bem-estar dos usuários, sabem que ganharão em qualquer hipótese. Reduzidos os preços das tarifas, cobrarão das autoridades a diferença, apesar dos vastos subsídios que já recebem, sem a contrapartida do oferecimento de melhores serviços. De tabela, receberão indenizações pelas viaturas incendiadas e depredadas. Se experiências anteriores não fossem tão desanimadoras, a tentação seria de defender a estatização dos transportes públicos.

SINAL VERMELHO

Duas iniciativas a presidente Dilma não tomará, na tentativa de responder às manifestações populares de repúdio ao poder público inoperante: aumentar impostos e taxações, de um lado, ou limitar-se a distribuir mais caridade organizada, de outro.

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3 thoughts on “O coringa na mesa

  1. Eu defendo a estatização dos transportes públicos! Do jeito que está, não dá mais! Com os gordos subsídios que pagamos (sou advogada honesta, por isso, pobre!), ao contrário do brocardo “quem paga mal, paga duas vezes”, pagamos duas ou dez vezes pelo serviço imundo que recebemos, senão vejamos:
    . os senhores ‘empresários’ recebem polpudos subsídios(nosso dinheiro) para prestar o (des)serviço;
    . temos que pagar a passagem na ‘boca do caixa'(roleta), quando precisamdos nos deslocar pela cidade;
    . recebem outras ‘benesses’ dos canal….digo, dos ‘políticos’ de plantão, ‘companheiros’ que são das farras dentro do cofre da ‘viúva.’
    E isso, relativo aos ônibus, apenas; se formos analisar trens urbanos, metrô, barcas, o escândalo – ou malfeito – é muito maior e mais obsceno.
    Aqui no Rio, pagamos pelos trens do Metrô, pela construção das linhas(ônus é por nossa conta) e, os de sempre entregaram à bilheteria aos amigos; com os trens urbanos (péssimo serviço, pra variar) é a mesma ‘política.’ As barcas para a travessia da baía de guanabara segue o mesmo ‘padrão’ brasil de qualidade, quando se trata de serviços para a sociedade.
    Desde as capitanias hereditárias foi montado esse esquema de “socialização dos prejuízos e privatização dos lucros.” Até quando?!

  2. A respeito da frequência do vandalismo durante as manifestações a coluna do Giba 1 noticiou hoje que durante a greve dos policiais federais em 2012, uma bomba caseira explodiu na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. O desordeiro foi preso e interrogado e para o espanto de todos era na verdade um agente da ABIN que portava documento falso da polícia federal. Todavia, após telefonemas findo de cima o mesmo foi liberado. Se dentro da polícia federal ocorreu isso imagine fora. Acredito que o terrorismo de estado está correndo solto para desmoralizar o movimento e causar uma perigosa radicalização com consequências imprevisíveis.

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