O Curingão de Sarney

Sebastião Nery

Flores da Cunha, deputado federal do Rio Grande do Sul e do Ceará, senador, interventor e governador gaucho, constituinte de 1946, era louco por jogo. Há mil histórias de suas explosões e “boutades” nas noites dos cassinos e nas mesas de baralho.

Em Riviera, foi ao cassino, jogou a noite inteira, perdeu tudo. Sobrou apenas uma nota de 100 mil-réis. Pôs no 17, com revolver em cima. Suando, olho na arma, o crupiê girou a roleta:

– Vermelho, 36.

Olhou para os lados, completou:

– E negro, 17, para o general Flores.

***
FLORES

Uma noite, apareceu um jovem paulista bom de pôquer. Em meia hora já ia pelando o general. O centro da mesa forrado de fichas. A rodada fortíssima. O paulista pagou para ver. Flores abriu o jogo e não tinha nada. O paulista estendeu a mão para as fichas e sorriu, mas o general o impediu.

– O que é isso, general?

– O que é isso pergunto eu, moço! Ganhei.

– Mas ganhou como, general?

– Aqui no Rio Grande, cinco cartas diferentes uma da outra se chama
“Farroupilha”. É o jogo mais alto.

***
FARROUPILHA

Pegou o revólver e puxou as fichas com o cano. O paulista engoliu. Quase de manhã, o paulista pegou cinco cartas diferentes:

– Uma “Farroupilha”!

Flores jogou o revólver em cima das fichas:

– Não. Farroupilha é jogo tão forte que só vale uma por noite.

E ficou com tudo. A “Farroupilha” era o AI-5 do pôquer.

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CURINGÃO

Aurélio, o “pai dos burros”, como se dizia no Seminario, ensina: “Curinga – Carta de baralho que muda de valor segundo a combinação que o parceiro tem em mão. Pessoa esperta, sem escrúpulos, que tira partido de qualquer situação. Curingão – Carta com desenho especial, geralmente a figura de um bobo da côrte”.

Em 2006 o pais teve a desdita de ser apresentado ao “Curinga”, ao “Curingão” de Sarney, o sub-terceiro-senador Paulo Duque. Alem de todas as besteiras que falou ao assumir a “presidência” do “Conselho de Ética” (sic) e aos jornais, ele segue a velha lição do patrono. Inventa a biografia.

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DUQUE

Contou o “Globo” – “A todo momento o senador Paulo Duque, do PMDB do Rio de Janeiro, lembra que conheceu o presidente do Senado, José Sarney, nos idos da década de 60 (sic), quando ele e o então deputado Sarney integravam (sic) a “Banda de Musica” da UDN”.

Tudo falso. Claro que deve ter conhecido Sarney. Mas Sarney era deputado federal, eleito em 58. Paulo Duque sempre foi estadual, nunca foi colega de Sarney. A “Banda de Musica” da UDN era um grupo de deputados federais udenistas radicais, liderados por Carlos Lacerda como jornalista até 1955 e a partir de 55 na Camara, do qual também faziam parte Aliomar Baleeiro, Oscar Correia e outros, combatendo os governos de Getulio, Juscelino e João Goulart. Juscelino foi presidente de 56 a 61.

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LACERDA

A “Banda de Musica” de Lacerda tocou de 50 a 60. “Nos idos da década de 60”, Paulo Duque tocava pandeiro em Escola de samba.

Quando Lacerda se elegeu governador em 60, Paulo Duque foi relator da “CPI dos Mata-Mendigos do Rio da Guarda”, na Assembléia Legislativa do Rio. Embora não fosse da UDN, já era um “Curingão”, 51 anos atrás. Sempre a serviço de qualquer governo, pôs-se a serviço do governo da Guanabara. Como depois a serviço de Chagas Freitas.

O Duque parece mico de cemitério. Vive sobre os túmulos, pulando nos ombros dos mortos. Por isso Sarney o convocou.

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SARNEY

Nas férias de 2006 a 2007, viajando pelo Nordeste como faço todo fim de ano, fui parar no Maranhão. Andei procurando nas livrarias, poucas, alguma coisa escrita sobre Sarney. Não encontrei nada. Deram-me a pista :

– Procure em alguma banca de jornal. Em livraria o Sarney não deixa. Se vender alguma coisa sobre ele, ele cai em cima e fecha.

E foi em uma banca de jornal que encontrei o livro do jornalista e historiador Emilio Azevedo : – “O Caso do Convento das Mercês”. Escrevi logo sobre o assalto de Sarney ao multi-secular Convento das Mercês de São Luis, belo conjunto arquitetonico do século 17 (6.500 m2), que é (era) Patrimonio Cultural da Humanidade e onde Sarney já abriu seu tumulo.

Tudo documentado. O governador João Alberto “transfere para a Fundação José Sarney todo dominio,posse, direito e ação sobre o Convento das Mercês, para que dele possa usar e gozar livremente como seu” (sic).

– “Trata-se de prédio historico onde ocorrem shows, casamentos, seminários, festas de socialites, congressos, convenções, etc. Evento da Fundação é o enterro, com local reservado mas data ainda não marcada”.

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