O defunto tem nome

Sebastião Nery

Janeiro de 1951. Do Rio Grande do Sul, chegou ao Rio o presidente nacional do PTB, deputado federal João Goulart. Instalou o partido no edifício São Borja, na Cinelândia. Roberto Silveira era o secretário-geral. Doutel de Andrade, primeiro-secretário.

No fundo da sede, ali em plena Cinelândia, ao lado da rua Santa Luzia, montaram um posto gratuito de assistência médica, a cargo de um médico requisitado do SAMDU (Serviço de Assistência Medica Domiciliar de Urgência). O povo ia lá buscar a saúde, deixava o voto.

Uma tarde reúne-se a executiva nacional do PTB para resolver uma crise de Minas. O deputado José Raimundo estava brigando com o suplente Machado Sobrinho por causa da política municipal de Itabirito. E eram ambos dirigentes estaduais do partido. José Raimundo fez longa exposição, sentou-se. Machado Sobrinho começou a sua. De repente, emocionado, irritado, empalidece, dá um gemido, cai. Era um enfarte fulminante.

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DOUTEL

Chamaram às pressas o médico do posto. O homem veio lá do fundo de bata branca, todo desconfiado, ajoelhou-se, pôs a mão no peito de Machado Sobrinho, conferiu o pulso, levantou a cabeça, olhos arregalados:

– Chama um médico que esse puto vai morrer.

Jango ficou desesperado:

– Mas o senhor não é o médico?

– Sou, sim, mas não entendo de enfarte. Chama correndo um médico porque esse puto vai morrer.

Machado Sobrinho morreu mesmo. Doutel ficou indignado, exigiu de Jango a demissão do médico:

– Esse homem não pode exercer a medicina.

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JANGO

Jango espichou a perna direita:

– Doutel, em que posto do SAMDU ele era lotado?

– Em Irajá.

– Que coisa! Matando a nossa gente. Transfere-o para Copacabana. Se ele tem que matar, então que vá matando o eleitorado do Lacerda. O nosso, não.

O medico viveu mais vinte anos. Enterrando, em Copacabana, os eleitores da UDN e, depois, da Arena.

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MENSALÃO

O julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal mal começou, mas uma coisa o pais já percebeu: o defunto tem dono e tem nome. O dono é o governo do PT, o primeiro governo de Lula. Tudo que se fez ali saiu do governo de Lula, foi realizado pelo governo de Lula, em função do governo de Lula, para o governo de Lula.

Lula se elegeu em 2002 sem maioria no Congresso. Precisava de maioria no Senado e na Câmara. O PT sozinho, com os nanicos PSB e PCdoB, não tinham bancadas que lhe garantissem tranquilidade parlamentar.

Lula encarregou José Dirceu de negociar com um punhado de pequenos partidos um apoio seguro e permanente durante o governo. E isso queria dizer “comprar”, trocar apoio por dinheiro. Lula disse a Dirceu :

– É mais barato do que negociar ministérios com os partidos maiores.

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DIRCEU

José Dirceu, Chefe da Casa Civil e desde a campanha principal porta-voz de Lula e negociador político do governo, não mentiu :

– Nada que eu fiz foi sem a ordem ou autorização de Lula.

De todos os advogados que defendem no STF seus clientes , seus “réus”, em nenhum instante ninguém negou ou contestou a existência dos dinheiros arrecadados pelo governo de Lula, no governo do PT, por José Dirceu e sua “quadrilha”, sua “organização criminosa”, como definiram os dois Procuradores Gerais da Republica (Antonio Fernando e Roberto Gurgel), para comprar os partidos que garantissem maioria a Lula e ao PT.

Por isso o Mensalão tem dono : Lula. O defunto é dele. E, tendo dono, o Mensalão também tem nome: “Lulão”. “Mensalão” é só apelido.

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