O demasiado voluntarismo e a insuficiente liderança da presidente

Murillo de Aragão

Muitas vezes, o voluntarismo – atitude de propor soluções e políticas baseadas apenas em nossa própria vontade e à nossa maneira – e a liderança andam juntos. Mas nem sempre. Quando andam juntos, o líder consegue que a maioria o acompanhe em seus desejos, aceitando inclusive que, para isso, regras sejam torcidas ou quebradas. Tal comportamento é típico de regime autocrata ou de sistemas políticos em que a população tem baixo nível de consciência.

Por conta de nosso passado colonial e escravocrata, no Brasil temos resquícios perniciosos de voluntarismo. Ditos populares expressam essa condição, caso de “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Tal sentimento está arraigado na sociedade, tanto por parte de quem manda quanto por parte de quem deve obedecer. Pior: devido à precária educação política, muitos acham, por exemplo, que a Presidência da República tudo pode – até mesmo afastar o presidente do Senado.

O voluntarismo também surge como uma reação exasperada à lentidão dos poderes públicos. Certa feita, Lula discursava no Palácio do Planalto dizendo que agora que o governo começava a investir é que ele via como era difícil investir no Brasil, por causa da burocracia. A presidente Dilma Rousseff baseia muitas de suas atitudes em um marcante voluntarismo, que é acompanhado de boas doses de irritação e de cobranças públicas exasperadas. E o pior é que nada acontece, ou continua a acontecer em ritmo de samba-canção, ou seja, muito devagar.

CANOAS FURADAS

No momento, o voluntarismo deveria ser substituído por uma abordagem mais racional e menos emocional das questões que afligem o país. A partir das manifestações de rua realizadas em junho, o governo embarcou em duas canoas furadas: a proposição de uma Constituinte exclusiva e, depois, de um plebiscito sobre a reforma política. As teses poderiam ter sido mais bem-recebidas se tivessem sido costuradas com os parceiros políticos. Mas não. Foram colocadas no mercado político como fatos consumados. A primeira delas, a Constituinte exclusiva, naufragou. A outra periga não dar em nada.

Ao colocar o tema da reforma política no tabuleiro, o governo conseguiu, por um lado, dividir as atenções do noticiário sobre os protestos que derrubaram a popularidade da presidente. Por outro, por negociar mal a proposta, criou ainda mais descontentamentos em sua base aliada no Congresso. Vale lembrar que estamos em véspera de ano eleitoral, e não interessa, principalmente aos deputados, aprovar mudanças estruturais no sistema político.

ENCRUZILHADA

Assim, o governo parece estar diante de uma encruzilhada. Ao mesmo tempo que precisa ganhar a credibilidade das ruas, não pode perder o apoio dentro do Congresso, sob pena de criar problemas de governabilidade. Daqui para a frente, o desafio será recuperar o apoio perdido sem comprometer-se no Legislativo.

Em política, como em muitas outras coisas na vida, a forma vale tanto quanto o conteúdo. Uma bela ideia mal-apresentada pode morrer no nascedouro. O contrário também vale: péssimas ideias podem prosperar por conta do discurso de quem as vende. Reforma política é um tema mais do que necessário no país. Mas deve ser objeto de amplo debate antes que o Congresso se mobilize em direção a alguma decisão concreta. Foi assim no caso da Ficha Limpa. As discussões forçaram o Congresso a aprová-la. Não se precisou de Constituinte exclusiva nem de plebiscito.

Faria melhor a Presidência da República conversar com os aliados e a oposição, bem como com setores da sociedade civil e, até mesmo, com o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social sobre a pauta que seria negociada com o Congresso. Seria mais uma expressão de liderança do que de mero voluntarismo. (transcrito de O Tempo)

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2 thoughts on “O demasiado voluntarismo e a insuficiente liderança da presidente

  1. A ilusão de poder que a religião ou ideologia transmite para seus crentes, fazem-nos arrogantes e intolerantes.
    Há pouco , antes das manifestações, ela voltou de nariz em pé, toda orgulhosa, de uma viagem onde perdoou a dívida do país que visitou e ainda vai emprestar mais.
    Enquanto isso milhares ou milhões de miseráveis brasileiros, donos do dinheiro que ela usou indevidamente moram com suas famílias em barracos correndo todos os dias risco de vida.

  2. O monstro a ser abatido não é o PTMDB-agregados e nem o PSDEMB-agregados, que, aliás, congregam todas as demais siglas, e até o gollpismo, mas é, isto sim, o velho contnuismo da mesmice. E, quer queiram muitos e quer não queiram alguns, Loriaga Leão, o HoMeM do Mapa da MIna, é o escolhido como fiel depositário da ” Bala de Prata”,RPL-PNBC-ME, capaz abater o velho monstro de sete-cabeças que é o velho continuismo da mesmice (situção, oposição e gollpismo em rodízio no poder, há séculos). E na mira Dele, como Vice estão Roberto Requião e Marina Silva, que, ao que parece, já estão quase falando a mesma lingua Revolucionária do HoMeM. Em assim sendo, desculpem a minha franqueza, me desculpem tb os despreparados e os cagões, mas, pelo que tenho visto na blogosfera brasileira, hoje, os dois Políticos de Verdade deste país, Machos, que não têm medo de peitar o Obama, a Globo e o continuismo da mesmice, são o Loriaga Leão ( o HoMeM do Mapa da Mina do bem comum do povo brasileiro) e o Roberto Requião. Aliás, ambos têm pegadas fortes e certeiras. E a Marina ainda está deixando um pouquinho a desejar nesses quesitos, mas tb ainda pode chegar lá, ser mais ousada e mais contundente, ainda há tempo. O primeiro é o Fato Novo de Verdade, que propõe a Revolução (o Projeto Novo e Alternativo de Nação e de Politica-partidária-eleitoral), e o segundo diz que só a Revolução pode tirar o Brasil do velho lugar comum em que sempre se encontrou encalhado e apelidado de continuismo da mesmice crônico. Idem em relação a Marina. Taí, uma possível chapa fortíssima para 2014, que pode ressuscitar não só a Política com P maiúsculo, mas tb a vontade do povo ir às urnas. Enquanto o HoMeM cuida de implementar a Revolução com a qual está 100% comprometido, o Requião, ou Marina, ou ambos, dirigem a nação, com Ministros já escolhidos via meritocracia. O resto é só trololó, blablablá, mais dos mesmos, e mais perda de tempo versus tempo perdido. E tenho dito.

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