O descompasso da democracia

Carla Kreefft

A sociedade brasileira está muito à frente da sua representação política. Essa é uma constatação simples de uma realidade, no mínimo, complicada.

A reação ao caso do deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e Minorias mostra como a população está mais consciente de seus direitos e mais disposta a exercer a sua cidadania. Se esse é um traço muito positivo, há um outro lado preocupante. Trata-se da dificuldade dos representantes políticos em absorverem essa nova demanda da sociedade e transformá-la, efetivamente, em algo concreto. Em outras palavras, é muito lento o processo que faz a voz das ruas ecoar nas tribunas e nos palácios.

A razão pela qual os políticos em mandato fazem tanta questão de desconhecer o desejo daqueles que
os elegeram é intrigante. Eles precisam do voto para permanecer onde estão, o que levaria a pensar que o eleitor deveria ser prioritário na agenda do seu representante. Mas não é assim que as coisas funcionam. Melhor dizendo, essas coisas somente funcionam assim em período eleitoral, na véspera da eleição.

Fica, então, uma pergunta: Por que a população não age, durante a campanha eleitoral, da mesma forma como reage aos escândalos e às denúncias? Se o eleitorado, no momento de escolher seu candidato, tivesse o trabalho de pesquisar para conhecer efetivamente em quem votar, provavelmente, a distância entre o povo e os políticos seria menor.

VÁRIOS FATORES

Alguns fatores contribuem para essa diferença de atitude. Há os que avaliam que se deixar levar pelo embalo de uma denúncia é muito mais fácil do que escolher seriamente um candidato. Há ainda os que advogam que a sistemática eleitoral brasileira dificulta a aproximação entre eleitor e o seu representante. E ainda existem os que avaliam que ambos os fatores concorrem para que a participação popular na eleição seja restrita e se resuma na escolha de um nome minimamente conhecido.

Mas a democracia é assim. Ela permite erros e acertos de um lado e de outro. O que, certamente, ela não possibilita é a isenção. Todos pagam por tudo. As consequências, sejam dos equívocos ou das escolhas corretas, são impostas a todos. E mesmo quem se omite paga a conta. O jogo do ônus e do bônus é premissa da democracia.

De qualquer forma, o que precisa ficar claro é a inequívoca evolução da democracia brasileira, ainda que movida por arrependimentos eleitorais. É bom lembra que rever conceitos e posturas é sempre algo positivo. Se as denúncias e os escândalos ainda são os principais momentos de participação política brasileira, que esse engajamento aumente e alcance as urnas. O caminho é feito para ser trilhado. Só não vale ficar parado à beira da estrada.

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