O desejo não deve nos fazer medo”, ensinava poeticamente a genial Hilda Hist

Paulo Peres
Poemas & Canções

A ficcionista, dramaturga, cronista e poeta paulista (1930-2004) Hilda Hist é considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. Para Hilda, o desejo não faz medo, conforme revela neste poema.

DO DESEJO
Hilda Hilst

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado,
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara.
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grande espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura. Crueldade.

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada a tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

5 thoughts on “O desejo não deve nos fazer medo”, ensinava poeticamente a genial Hilda Hist

  1. Hilda, uma mente engenhosa com uma inspiração psicodélica, destilando o seu avesso, impulsionada pelo sentimento mais torturante, o DESEJO!
    Muitas pessoas perdem o desejo pela vida, porque levam a vida inteira a desejar o inatingível; convertem o seu viver num cumprimento de impotência e devaneio.

    • Coincidência ou lente preconcebida? Não conheço nenhuma Solange feia. Sem fonemas repetidos, uma eufonia perfeita, inicia com o astro-rei, encerra com Ange; anjo em inglês, assim para não repetir o “l”

  2. Uma mente engenhosa
    É pipoca saltitante
    Se amparada por parede
    “N” vezes bate e volta
    Mas no espaço vacante
    Dá meio salto, cai morta

    Uma mente aguçada
    É faca que fura bem
    Se tocada em pedra cega
    A ponta é enrolada
    E fica cega também

    Uma mente sensitiva
    Quando mal aparelhada
    É uma antena receptiva
    Sem sintonia com o rádio
    Que deixa o aparelho passivo
    À ação queimante do raio

  3. 1) Grande poetisa a Hilda !

    2) Normalmente o desejo está ligado ao sexo, mas de acordo com o Dicionário Aurélio:

    3) “Desejo – vontade de comer ou beber, apetite”.

    4) Para o Budismo também, conforme texto de ontem do Dr. Ednei, vontade de beber um copo de água, vontade de comer uma boa macarronada, vontade de ir ao banheiro fazer as necessidades fisiológicas. Para o Buda, até morrer teremos desejos.

    5) Desejo de curar-se, desejo da eternidade. Buda não fala em reprimir, mas em compreendê-los.

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