O desespero sensual do poeta Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos era um poeta “noir”

O advogado, professor e poeta paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) escrevia poesias com características marcantes de sentimentos de desânimo, pessimismo e sofrimento, conforme o poema “Gozo Insatisfeito”.

GOZO INSATISFEITO

Augusto dos Anjos

Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito…
Queimam-me o peito cáusticos de fogo,
Esta ânsia de absoluto desafogo
Abrange todo o círculo infinito.

Na insaciedade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a máquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabidade desse gozo!          

(Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

One thought on “O desespero sensual do poeta Augusto dos Anjos

  1. Augusto dos Anjos é um dos poetas mais comemorados da literatura brasileira. Seus poemas são fortes, algumas vezes com palavras rebuscadas que tornam o entendimento do poema difícil sem um dicionário. Discute-se se ele foi parnasiano, simbolista, modernista ou pré-modernista, sem que os críticos literários cheguem a um consenso sobre o assunto. Em seus poemas encontramos a dor, que o poeta sublima em obra de arte. Augusto dos Anjos é estudado nos cursos de formação psicanalítica porque seus poemas evidenciam a melancolia, que se contrapõe ao luto. A melancolia é patológica, e para a Psiquiatria é o substrato da depressão maior (ou psicose maníaco-depressiva, como se chamava antigamente). Para Freud, a melancolia é um estado emocional semelhante ao processo de luto, mas não há a perda que o caracteriza. A melancolia pode ocorrer sem haver uma causa definida.

    Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta brasileiro, identificado muitas vezes como simbolista ou parnasiano.[1] Todavia, muitos críticos, como o poeta Ferreira Gullar, preferem identificá-lo como pré-modernista, pois encontramos características nitidamente expressionistas em seus poemas.[1]

    É conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, focando suas críticas ao idealismo egocentrista que se emergia em sua época, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.

    Assim, na melancolia há um sentimento irresistível de perda, que permanece, não cicatriza. Mas Augusto dos Anjos fez uso da melancolia para criar. Muito pessoalmente, e aqui não estou falando em nome da Psicanálise, mas apenas com o meu entendimento. Se podemos identificar a melancolia como expressão da Pulsão de Morte, descrita por Freud, poderíamos dizer que Augusto dos Anjos é a prova viva de que podemos sublimar também a Pulsão de Morte, e não só a Pulsão de Vida como nos ensinou Freud. Para Augusto dos Anjos, a matéria prima para criar a obra de arte, que são seus poemas, é a melancolia que a cada poema é sublimada em uma criação imortal, que vai ficar para sempre no acervo poético e literário da Língua Portuguesa. Eu não poderia deixar passar um poema e a lembrança de Augusto dos Anjos nesta TI e ficar em silêncio. Sobre melancolia em seus poemas, deixemos o próprio Augusto dos Anjos falar, como abaixo:

    O MEU NIRVANA

    No alheamento da obscura forma humana,
    De que, pensando, me desencarcero,
    Foi que eu, num grito de emoção, sincero
    Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

    Nessa manumissão schopenhauereana,
    Onde a Vida do humano aspecto fero
    Se desarraiga, eu, feito força, impero
    Na imanência da Ideia Soberana!

    Destruída a sensação que oriunda fora
    Do tato – ínfima antena aferidora
    Destas tegumentárias mãos plebeias –

    Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
    De haver trocado a minha forma de homem
    Pela imortalidade das Ideias!

    Psicologia de um Vencido

    Eu, filho do carbono e do amoníaco,

    Monstro de escuridão e rutilância,
    Sofro, desde a epigênese da infância,
    A influência má dos signos do zodíaco.

    Profundissimamente hipocondríaco,
    Este ambiente me causa repugnância…
    Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
    Que se escapa da boca de um cardíaco.

    Já o verme – este operário das ruínas –
    Que o sangue podre das carnificinas
    Come, e à vida em geral declara guerra,

    Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
    E há de deixar-me apenas os cabelos,
    Na frialdade inorgânica da terra!

    ( Augusto dos Anjos )

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