O dia em que Arraes disse não

Sebastião Nery

No dia 1º de abril de 1964, o tenente Carlos Roberto Peixoto de Lima, Carlito Lima, servia na 2ª Cia de Guardas, tropa de choque e combate urbano do IV Exército, em Recife. Primeira missão: comandar seu pelotão de 40 homens para dispersar uma manifestação no sindicato dos bancários e acabar com aglomerações no centro, prendendo os que resistissem.

Cercaram o sindicato, uns saíram correndo e outros devagar. Um homem alto e magro, fisionomia triste, barba por fazer, disse corajosamente que só saía preso ou morto. Saiu preso, só ele. A tropa marchando pelas ruas de volta ao quartel, e ele no meio. Numa esquina, o tenente o puxou pela camisa e gritou no ouvido dele:

– Se manda, porra! Senão você vai morrer!

O cara deu um pique e desapareceu na primeira rua.

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O ALMIRANTE

A praça do Campo das Princesas, onde fica o palácio do governo, já estava ocupada, com soldados deitados em posição de tiro e metralhadoras apontadas. Lá dentro, Miguel Arraes mais uma vez mostrava quem era.

O almirante Dias Fernandes tinha ido lá bem cedo comunicar ao governador que, no sul do País, os militares haviam “desfechado uma revolução contra o governo federal” e que ele viajasse imediatamente para encontrar-se com o presidente João Goulart. E, se Arraes quisesse resistir em Pernambuco, ele oferecia os quartéis da Marinha. Arraes disse apenas:

– Senhor Almirante, talvez neste momento já seja prisioneiro do IV Exército. Talvez eu já atravesse a porta deste gabinete preso. Mas nunca os senhores conseguirão que o atual governador de Pernambuco saia desta sala desmoralizado. Eu tenho um mandato que me foi conferido não pelos senhores, mas pelo povo e que termina numa data certa. Os senhores não me podem tomar essa representação que o povo me conferiu. Poderão, no entanto, impedir-me de exercê-la pela força. Enquanto for governador de Pernambuco, não aceitarei a menor limitação às minhas prerrogativas constitucionais.

O almirante saiu, o IV Exército entrou, exigiu a renúncia, Arraes disse não, saiu preso e foi levado para o degredo em Fernando de Noronha.

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A DIFERENÇA

Meses depois, o tenente Carlito Maia recebeu um envelope fechado, que só poderia ser aberto no aeroporto militar de Recife. Lá, abriu. Era para pegar Arraes, chegando de Fernando de Noronha, e levá-lo para a 2ª Cia de Guardas. Ao passarem pela Avenida Suil, Arraes ficou com os olhos mareados:

– Tenente, quando eu era prefeito do Recife, construí essa avenida. Foi uma de minhas grandes obras. Resolveu o congestionamento desta cidade.

A Cia de Guardas foi tansformada no QG do golpe em Pernambuco, comandado pelos coronéis Ibiapina e Bandeira, do comando do IV Exército.

Enfiados em xadrezes construídos nos anos 40 para soldados indisciplinados, lá estavam, há meses, o venerando prefeito de Recife Pelopidas Silveira, Francisco Julião das Ligas Camponesas, o comunista Gregório Bezerra, o educador Paulo Freire, o historiador Paulo Cavalcanti, deputados Cícero Targino de Pernambuco, Assis Lemos da Paraíba, o líder camponês Zezé da Galileia, o advogado Gibraldo Moura Coelho, muita gente.

Arraes conseguiu um habeas-corpus no Supremo, de lá foi para a embaixada da Argélia no Rio e daí para o exílio em Argel. Toda essa história, minuciosa, está contada em um excelente livro-documento de Carlito Lima, Confissões de um capitão, prefaciado por Vladimir Palmeira.

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