O dólar furado


Luiz Tito

As análises encaminhadas sobre a recente alta do dólar em relação ao real, nas últimas semanas, mais uma vez demonstraram a fragilidade da economia brasileira, diante da evidente falta de unidade das ações do governo Dilma na linha do crescimento do PIB, do controle da inflação, da competitividade da indústria brasileira e da geração de reservas cambiais.

Nos últimos anos, o Brasil amargou a realidade de efetuar exportações apenas de suas commodities mais clássicas, com destaque para o minério de ferro, o açúcar, o frango e a soja. Não conseguimos implementar, exceto com pequenas exceções, a exportação de produtos manufaturados de valor agregado significativo. E a equação favorável de nossa balança apenas foi possível graças ao desempenho da agricultura e da pecuária, setor responsável pelo superávit contabilizado pela nossa balança comercial.

Poderia ser melhor, não fossem as consistentes amarras atuantes em todo país que submetem qualquer atividade econômica aos seguidos equívocos das relações com os setores ditos defensores do meio ambiente, que fortalecem um acervo de dificuldades e obstáculos, gerados, em paralelo, pela postura fiscalista do Estado, pelo atraso da burocracia e pela instabilidade jurídica.

Em qualquer estágio da administração pública brasileira – federal, estadual e municipal –, meras portarias e instruções normativas têm valor de lei, e basta a vontade de um burocrata para colocá-la na praça. O Estado brasileiro não tem compromisso com a realidade da produção, não tem contas nem aluguel a pagar. Não paga impostos, não investe na engenharia e no aperfeiçoamento de seus produtos, no treinamento e na remuneração de mão-de-obra. O Estado cobra, indiscriminadamente, para gerar e sustentar reservas que acumula mal, mas desperdiça bem. Nisso o Brasil é craque, quase imbatível.

ERRO ARGENTINO

Na Argentina da paridade entre o dólar e o peso, nos idos da década de 90, houve um momento em que os produtos importados, exceto o trigo, eram mais atrativos do que a sua produção interna. Abriu-se a importação para tudo, com ênfase do supérfluo, automóveis inclusive, e a indústria metalúrgica, a indústria têxtil e de equipamentos elétricos faliu. As lojas vendiam badulaques coreanos, roupas chinesas e italianas, cópias mil, carros franceses, alemães e japoneses. O peso não remunerava os salários e os produtos produzidos internamente, mas o câmbio do dólar facilitava o acesso aos importados de outras economias, de países mais inteligentes e mais responsáveis com seus gastos públicos.

Em economia, ao que dizem os que entendem, é fundamental a construção articulada das ações de governo. A alta do dólar aos patamares atuais pode ser positiva, para uma economia que não tem mais espaço para o ativismo fiscal, para as manobras dos índices oficiais, para a importação sem metas e para o festival da burocracia. Em todo mundo, as dificuldades sempre geraram mais responsabilidade e criatividade. Aproveitemos esse momento, com os pés no chão. (transcrito de O Tempo)

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4 thoughts on “O dólar furado

  1. Ninguém gosta do FMI, mas, que ele andou dizendo umas verdades… ah… isso andou.

    FMI recomenda que Brasil mantenha aperto nos juros e não abandone disciplina fiscal

    Brasília – O Banco Central (BC) deverá continuar a aumentar os juros para conter a inflação, independentemente do impacto que o aperto na política monetária tenha no crescimento da economia, recomendou o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em relatório divulgado hoje (28), o FMI pede ainda que os bancos públicos reduzam o ritmo de concessão de crédito e que a equipe econômica não abandone a disciplina fiscal.

    Diferentemente dos relatórios de outros anos, este não contém estimativas sobre o crescimento da economia brasileira em 2013 e nos anos seguintes. O documento apenas informa que o país está se recuperando gradualmente da desaceleração iniciada em 2011 e pede a continuidade de reformas que melhorem a produtividade, a competitividade e estimulem os investimentos.

    Para o FMI, a equipe econômica deve adotar uma meta de superávit primário – economia de recursos para pagar os juros da dívida pública – que ponha em queda a trajetória do déficit público. O documento recomenda que o rigor orçamentário seja reforçado, inclusive nas esferas estaduais e municipais.
    Segundo o relatório, o estímulo ao crédito nos bancos públicos, posto em prática pelo governo nos últimos anos, pode ter impacto nas contas públicas porque expõe as instituições oficiais a riscos. O Fundo Monetário recomenda moderação na concessão de crédito pelo setor público.

    Em relação ao Banco Central, o FMI recomendou que a autoridade monetária mantenha o ciclo de aumento da taxa Selic (juros básicos da economia) para conter a inflação, que ainda está próxima de 6,5%, teto da meta, no acumulado de 12 meses. Na avaliação do fundo, a falta de infraestrutura e a queda nos investimentos dos empresários não apenas pressionam a inflação pelo lado da oferta – carência de oferta para atender à demanda – como comprometem o crescimento da economia.

    “Uma política monetária mais apertada ajudaria a conter pressões mais persistentes de alta de preços”, destaca o documento. Para o FMI, o BC tem que continuar comprometido em conter as pressões sobre os preços e a ajudar a fornecer referências para as expectativas dos agentes do mercado financeiro.
    O relatório não faz uma análise sobre os efeitos da disparada do dólar sobre a economia brasileira. O documento, no entanto, informa que as turbulências internacionais e a incerteza política interna também contribuem para deteriorar a expectativa de crescimento no curto prazo. Em relação ao câmbio, o FMI ressalta ainda que o país tem os instrumentos necessários para lidar com a mudança nos fluxos internacionais de capital.

    O documento destacou também que o sistema bancário brasileiro está sólido e preparado para se enquadrar ao acordo de Basileia 3, que estabelece mais capital de alta qualidade para a concessão de crédito. Segundo o FMI, o país pode se adequar às novas regras antes dos países desenvolvidos, cujos bancos enfrentam dificuldades em aumentar os limites de capital.

    Em relação aos financiamentos imobiliários, o relatório informa que o crédito habitacional continua crescendo em ritmo elevado, mas não representa risco para os bancos brasileiros. Segundo o FMI, essas operações representam uma pequena parte do total de crédito disponível no país.

    (transcrito da Agência Brasil)

  2. Caro Jornalista,

    O dólar, experto, ficou barato por aqui até quebrar as nossas empresas com a importação até de borracha para lápis.

    Agora, caro e com a missão cumprida, essa moeda retorna para o país de origem, deixando os PAÍSES GOVERNADOS POR IRRESPONSÁVEIS – QUE PREGAVAM O CAMBIO LIVRE, sem a produção das indústrias estagnada e as empresas quebradas e tendo que importar produtos, agora mais caros.

    Abraços.

  3. Parabéns ao brilhante Sr. Wagner Pires, que sempre nos mantém informados sobre a Economia, base de nosso Padrão de Vida. Economia crescente, autônoma, e bem regulada, prosperidade para todos, principalmente aos mais Pobres, que já de início necessitam Empregos de Salário bom e crescente.
    O FMI recomenda o correto: Austeridade Fiscal (Superavit Fiscal de 3,1% do PIB ou algo menos, desde que a relação Dívida Pública/PIB não suba; Metas de Inflação de 4,5%aa com banda de 2%aa,(com liberdade total para o Banco Central manobrar); e Câmbio Flutuante(com o Banco Central fazendo a transição, LENTA, GRADUAL E SEGURA). Mas isso são ESTABILIZADORES. Assim como uma Economia, uma aeronave precisa de estabilizadores nos 3 eixos: horizontal, vertical e lateral. Nossa Presidenta D. Dilma, que é Economista formada na excelente Escola de Economia da UFRGS, está careca de saber isso, até eu sei isso. O problema é que para a aeronave decolar, além de bem balanceados ESTABILIZADORES, tem que ter MOTOR. E de MOTOR que é o INVESTIMENTO, função da LUCRATIVIDADE das Empresas, o FMI não falou nada.
    Ontem, lendo bom artigo do Sr. Benjamin Steinbruck, ele nos informa que as Empresas Industriais Brasileiras tiveram queda de Lucratividade em 2012 de +- 37%, e em 2013 de +- 7%. Aí está a explicação do baixo INVESTIMENTO Brasileiro de +- 18,5% do PIB, quando o Sr. Wagner Pires nos informa que Países Emergentes que querem “ir para frente” teriam que ter +- 30% do PIB, já que quase 10% é para Depreciação. É por isso que eu digo que nossa Presidenta tem que “tomar muitas pingas” com o Pessoal da FIESP para reverter esse problema da LUCRATIVIDADE. Pena que o FMI não fale como fazer isso. No momento, rolando pela pista, precisamos mesmo é de MOTOR, não Estabilizadores. Abrs.

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