O Egito entre a ditadura militar e a ditadura islâmica. Ninguém sabe qual das duas será a pior. Democracia plena, nem pensar?

Carlos Newton

A situação do Egito é cada vez mais grave e caótica. E não adianta acenar com a possibilidade de uma abertura democrática, porque a tal da primavera árabe não tem nada a ver com desenvolvimento político propriamente dito.   Basta dizer que as manifestações agora são convocadas pelos islamitas radicais, evidenciando o forte componente religioso desse movimento.

O correspondente da Folha no Cairo, Marcelo Ninio, afirma que a promessa de antecipar a eleição presidencial para o primeiro semestre de 2012 e de realizar um referendo sobre a transferência imediata do poder provisório para os civis não foi suficiente para acalmar as centenas de milhares de manifestantes que ocupam a Praça Tharir, no centro da capital, há cinco dias.

Milhares de pessoas permanecem no local para exigir a saída dos militares do governo, apesar da promessa do marechal Hussein Tantaui de entregar o poder a um presidente eleito em 2012.

Como se sabe, a junta militar assumiu o poder no Egito em 11 de fevereiro, substituindo o presidente Hosni Mubarak, deposto após uma rebelião popular que teve como epicentro a mesma Praça Tahrir, no Cairo.

Sob intensa pressão de protestos nas ruas, o chefe da junta militar egípcia pela primeira fez um pronunciamento à nação, na noite de terça-feira. Deu o ar de sua graça para prometer transferir até julho o poder a um presidente civil e até fazer uma oferta condicional para um fim imediato do regime militar.

Não adiantou nada. Nas últimas semanas, manifestantes, em sua maioria radicais islamitas e jovens ativistas, vêm protestando contra um projeto de Constituição que, segundo eles, permitiria que os militares mantivessem muito poder. Segundo o projeto, os militares e seu orçamento não ficariam sujeitos a uma supervisão civil.

Na sexta-feira, mais de 50 mil egípcios compareceram à praça Tahrir para pressionar a junta militar a apressar a transferência do poder para um governo civil, depois de o gabinete interino apresentar uma proposta constitucional que reafirma o poder das Forças Armadas. A partir daí, a praça ficou permanentemente ocupada, em meio a insistentes boatos de que o Exército iria expulsar pela força os manifestantes.

O Egito era o país árabe mais ocidentalizado. Suas forças armadas são profissionais e muito bem equipadas. A economia está destroçada. O índice de referência da bolsa local vem caindo progressivamente, a libra egípcia registrou sua menor cotação frente ao dólar desde janeiro de 2005 e o turismo sofre uma crise sem precedentes nas últimas décadas.

Nesse quadro, o país corre o risco de um retrocesso político. Pode sofrer um golpe militar pela força das armas ou um golpe político pela força das urnas, que leve os radicais islâmicos ao poder. Quanto à abertura democrática, é apenas um sonho da imprensa ocidental, que romanceou a primavera árabe sem perceber o tenebroso inverno que se aproxima.

 

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