O encontro Temer-Dodge, no Jaburu, à noite e fora da agenda, é algo suspeito

kaniododge

Charge do Kacio (kacioart.br)

Jorge Béja

Este outro encontro, do tipo “escondidinho”, da próxima procuradora-geral da República Raquel Dodge com Michel Temer, fora da agenda presidencial, tarde da noite e na residência oficial do presidente da República, não é motivo de surpresa. O encontro Temer-Joesley, no mesmo lugar e igual condição, é que trouxe a público as relações promíscuas do presidente, ao menos com este tal Joesley. Mas, se por um lado, não é surpreendente, por outro é bastante preocupante para a legalidade e a moralidade administrativa.

Temer continua denunciado no Supremo Tribunal Federal pela prática de crime comum. A denúncia só não restou examinada pelo STF porque a lei exige prévia autorização da Câmara dos Deputados, e a Câmara não autorizou. Mas a falta de autorização legislativa não extinguiu a denúncia, que persiste e apenas fica suspensa durante o mandato presidencial. Quando Temer deixar a presidência, aquela denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot terá prosseguimento perante a Justiça Criminal de primeira instância. E caberá ao juiz decidir pelo seu recebimento ou não.

PREOCUPANTE – Mas esse encontro Temer-Dodge, bem no final da noite desta terça-feira (dia 8), é preocupante porque Temer recebeu a visita da promotora de Justiça da instituição que o acusa, no caso a Procuradoria-Geral da República, que é una, autônoma, indivisível e independente e que, no mês setembro próximo, vai substituir Rodrigo Janot na chefia máxima da instituição. Aí a coisa pega. E não é nada republicano. E é muito mal visto.

Os poderes, únicos e absolutos, que Janot ainda detém, quem passará a detê-los será a doutora Raquel Dodge, que substituirá Rodrigo Janot na chefia da Procuradoria-Geral da República. E essa aproximação Temer-Dodge, ou vice-versa (Dodge-Temer) tal como se deu tarde da noite e fora da agenda, é suspeitissima.

Quem garante que a doutora Raquel não vai desistir da denúncia que Janot apresentou ao STF e a Câmara dos Deputados desautorizou? Quem pode mais, pode menos. Denúncia é petição inicial da ação penal. Se pode ser aditada, pode também ser retirada, ou seja, dela desistir o Ministério Público. E se houver desistência, o STF nem enviará a denúncia para a Justiça comum quando Temer deixar a presidência.

PROMISCUIDADE – Esperava-se tudo, menos esse encontro no final da noite desta terça-feira, no mesmo Jaburu, de Michel Temer com Raquel Dodge. Num paralelo e à guisa de exemplo, que reação teriam a população e a opinião pública,  diante desta hipotética situação: “Tício é denunciado ao juiz criminal pela promotoria pública da comarca onde reside. Mas o promotor que ofereceu a denúncia contra Tício tem data marcada para deixar a comarca e ser transferido para outra, onde passará a atuar. E enquanto a transferência não acontece, Técio, já designado para substituir o promotor que denunciou Tício, vai à casa deste para uma visita, uma conversa, um café, um jantar“.

Seja para o que for, isso é natural? É ortodoxo? É bem-visto? Isso é moral ou imoral? É ético ou não? E não foi mais ou menos — ou exatamente isso — o que aconteceu neste encontro,nesta visita da doutora Raquel Dodge à casa do doutor Michel Temer? Sim, sabemos todos, que um é presidente da República e a outra é a próxima procuradora-geral da República. Acontece que é ela a única autoridade competente para assinar e apresentar denúncia contra o presidente da República. E este já se encontra denunciado e a suspensão do curso da denúncia dela não retira o peso, nem o fardo, nem a condição de denunciado. Que coisa feia, hein! Muito feia!

20 thoughts on “O encontro Temer-Dodge, no Jaburu, à noite e fora da agenda, é algo suspeito

    • Senhor Darcy Leite, mesma de forma que demonstra irritação, o senhor está coberto de razão. O texto correto, para o senhor e todos os demais leitores entenderem, fica sendo este outro, que refaço, com prazer, sem irritação, muito menos ódio e com mil pedido de desculpas.

      “Tício é denunciado ao juiz criminal pela promotoria pública da comarca onde reside. Mas o promotor que ofereceu a denúncia contra Tício tem data marcada para deixar a comarca e ser transferido para outra, onde passará a atuar. E enquanto a transferência não acontece, Técio, já designado para substituir o promotor que denunciou Tício, vai à casa deste para uma visita, uma conversa, um café, um jantar”.

      Este é o exemplo, agora redigido como alertado pelo prezado leitor, ainda que deixando transparecer rispidez, como de hábito.

      E para evitar enfrentamento entre articulista e leitor, encareço ao nosso editor, jornalista Carlos Newton, que faça a substituição no texto do artigo, pois neste está truncado mesmo, como observou (ou resmungou) o leitor senhor Darcy Leite.

      • Não estou nem um pouco irritado.
        Muito pelo contrário.
        Se o articulista tivesse comparecido ao almoço conforme prometeu teria visto que sou uma pessoa muitíssimo bem humorada.
        Dificilmente me irrito ou resmungo!

        • A partir de hoje acho que vou ter que colocar “emojis” nos meus comentários para não ser mal interpretado.
          Só não coloco aqueles horrorosos “kkkkkk” daquele retardado porque acho de muito mau gosto.

        • Sr. Darcy,

          por causa da sua observação, oportuna e procedente, corrigi o texto truncado e a meu pedido nosso editor Carlos Newton fez a correção no próprio artigo.

          Aquele “não estou entendendo direito essa história de Tício. Afinal de contas ele denunciou ou foi denunciado?”

          certamente foi dirigido ao autor do artigo, que criou a história na expectativa de uma melhor compreensão. Nada mais do que ficção. E esses nomes Tício e Técio são os que eram usados nas faculdades de direito do meu tempo — e até nos livros — pelos professores para dar nome a figuras imaginárias.

          Vindo a observação (ou a “bronca”) de quem veio, me causou alívio e desgosto. Alívio porque foi valiosa e mostrou um erro, um texto truncado, que depois foi corrigido. E desgosto porque nele senti um tom nada delicado nos meus ouvidos, um “puxão” na minha orelha.

          Registro que não prometi comparecer ao almoço. Disse que faria todo o possível. Mas naquele dia fui levar minha esposa ao médico por causa de dores insuportáveis nos joelhos. Somos casados há 46 anos. Sem filho e sem irmãos, vivemos um para o outro. Ela também queria ir ao almoço. Eu também. Mas não a deixaria sozinha ir ao médico e eu ao almoço, momento raro, de alegria e satisfação, enquanto ela penava numa sala à espera de um “encaixe” para o doutor examiná-la.

          Naquele dia do almoço, na parte da manhã, mandei mensagem ao Carlos Newton informando que não poderia comparecer. Ir sozinho, sem ela, não faria isso, ainda mais sabendo que a esposa gostaria de ir também e sabendo que desde o início daquela tarde ela estaria a mercê de um “encaixe”, gemendo de dor. E na mesma mensagem fiz um pedido ao Caros Newton, qual seja, que deixasse todo o almoço por minha conta, que qualquer que fosse a despesa, toda ela seria minha. Depois o CN me informou que não foi necessário e que cada um arcou com a sua despesa.

          Mas no próximo almoço estaremos lá. E quero ficar sentado ao seu lado. E tomara que seja na Casa da Suiça, que não conheço. Mas o Carlos Newton conhece bem e ele disse que la tem um piano. E neste piano vou tocar um número dedicado a Darcy Leite.

          Obrigado. Desculpe-me por ter interpretado de outra maneira aquela sua necessária e oportuna intervenção ( “Não estou entendendo direito essa história de Tício. Afinal de contas, ele denunciou ou foi denunciado?”).

          Jorge Béja

  1. Pingback: O encontro Temer-Dodge, no Jaburu, à noite e fora da agenda, é algo suspeito | ElimarSC

  2. PF diz ao STF não ter conseguido provas de crimes de Aécio em Furnas.

    O delegado afirma que “nenhum dado colaborativo adicional foi apresentado pelos delatores” –no caso, Delcídio, o doleiro Alberto Yousseff e o lobista Fernando Moura. Ainda de acordo com Rezende (delegado), as informações prestadas pelos colaboradores são sobre “fatos muito antigos, superiores a 14 anos”, o que não permitiu “que outros meios de prova fossem alcançados, apesar do empenho da Polícia Federal”.

    https://goo.gl/2BCz7b

    Aécio Neves já tinha cantado essa bola nos áudios com Joesley….

    Aécio – Você tem lá cem, sei lá, 2.000 delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né?, do Moreira, que interessa a ele vai pro João.

    Joesley – Pro João.

    Aécio – É. O Aécio vai pro Zé (…)

  3. antes de assumir a função, a funcionária pública já pisou no tomate. espero que após assumir ela não enfie o pé na jaca, chute o balde ou mesmo o pau da barraca.

  4. Ticio é denunciado ao juiz criminal pela…..
    Várias charges aqui mesmo na TI, mostrava que estava tudo dominado. No final, restará que “lutamos a boa luta” e é isso; não concordamos com a forma abjeta de se comportar dos nossos representantes.
    Vejo muitos comentários, sob o argumento de que “foi muito menos do que outros/desviou mas fez e etc.”
    Eles sabem que não vai dar em nada; ou por outra vai continuar tudo como “dantes no quartel de Abrantes”
    A mídia/ONG’s vendendo e ganhando com a miséria nas portas dos hospitais; no enterro dos marginais e civis (pois nos dos valorosos Policiais Militares nem aparecem); Os paladinos e justiceiros aparecendo cada vez mais, os “sassás mutemas” para “salvar” o que resta do país e por aí vai.
    Estas “almas sebosas” sabem fazer a coisa e já detectaram quem pode suceder o “tenebroso” para protege-los e já começaram a “limpar” o caminho para o mesmo; e quem perceber e começar a falar será taxado de comunista ou petralha e por aí vamos ladeira abaixo em direção ao brejo.

  5. O encontro na noite desta terça-feira (8) no Palácio do Jaburu entre a futura PGR, Raquel Dodge e Temer tratou de fato da posse dela em setembro, mas não somente.

    O presidente quer que a nova PGR tome posse no Palácio do Planalto, como gesto simbólico da reaproximação institucional do Executivo com o Ministério Público.

    o encontro fora da agenda e às 22h também teve o efeito de passar uma “mensagem” ao Congresso de que as pontes da classe política com o Ministério Público serão restabelecidas.

    O registro do encontro acabou tendo … um lado positivo: o de transmitir a imagem de que o presidente tem aliados no Supremo Tribunal Federal.

    https://goo.gl/VRPdxd

  6. Ora, também não é para tanto. Mais imoral é ter o presidente o poder de escolher o procurador. Um encontro é somente um encontro, é fichinha. Se existiu alguma negociação entre Temer e a Procuradora, isso aconteceu no processo de escolha. Não adianta agora colocar véu e grinalda em moça que roda bolsinha. Não é por que tornou-se a Procuradora que duma hora pra outra tudo tá proibido. Ora, o mais feio foi a escolha. Depois da escolha, acabou. Pegando seu exemplo do Tício, mas imoral que o Técio se encontrar com seu futuro acusado é o Técio ser escolhido por este acusado para acusar o acusado.
    São pesos totalmente diferentes.
    E pode muito bem o Presidente se encontrar com quem quiser a qualquer hora do dia e da noite sem ter que tá dando satisfação.
    Até por algumas vezes segredo de Estado.
    Acho a acusação do articulista minúscula, muito imaginativa, do tipo que pega um mosquito mas deixa passar um touro.

  7. Hoje em um evento oficial o presidenteco levou uma baita vaia…
    Quanto vamos pagar para ele se livrar das denúncias de obstrução a justiça e formação de quadrilha ?

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