O erro de deixar o adversrio sem sada

Carlos Chagas

Dizia o saudoso senador Amaral Peixoto, eterno presidente do PSD, que em poltica o maior erro era deixar o adversrio sem sada. Diante da vitria, era imprescindvel levar o oponente a uma situao insustentvel, porque nessas horas ele virava fera e, mesmo certo da derrota, causava estragos irreparveis no vencedor.

Parece que as oposies, hoje, no Senado, esqueceram tudo ou no se lembram de nada. Porque tamanha a virulncia com que atacam o senador Jos Sarney que s colhero desgastes capazes de faz-las lamentar, em pouco tempo.

Esta semana, nada menos de sete representaes e denncias foram encaminhadas contra o presidente do Senado, no Conselho de tica, pelo PSD e pelo Psol. Qual o objetivo dessa blitz digna dos tanques dos generais Guderian e Rommell?

Querem recuperar a desgastada imagem do Senado, colaborando para a recuperao da instituio?

Esto agindo com vistas sucesso presidencial do ano que vem, erodindo o PMDB e, assim, prejudicando a candidatura Dilma Rousseff e o prprio presidente Lula?

Ou pretendem vingar-se de Sarney por ter sido eleito para dirigir o Senado e ocupado a presidncia da Repblica num perodo em que consolidou a democracia no pas?

Deveriam os oposicionistas tomar cuidado, se o terceiro objetivo for o principal, mesmo sabendo-se que tudo se entrelaa. Porque esto deixando o senador sem sada seno a de virar fera e agredi-los com virulncia igual ou superior que demonstram contra ele. Acuado, carente de uma janela que seja para escapulir, ele poder comear a atirar para todos os lados. E no se duvida de que tanto o PSDB quanto o Psol e at guerrilheiros embuados do PT e do PMDB tero o que perder, se servirem de alvo. Ou a lambana verificada no Senado nas ltimas dcadas deve-se apenas a um personagem? Quantas nomeaes, atos secretos, contratos irregulares e ocupao da coisa pblica como se fosse propriedade privada envolvero oposicionistas? No escapa ningum, como alertou o prprio Sarney. Aceso o estopim, explode o paiol, levando a destruio a atacantes e defensores.

No que se dava empurrar tudo para debaixo do tapete, como acontece h dcadas. As denncias e acusaes precisam ser apuradas. As responsabilidades, esclarecidas, mesmo atropelando Sarney e os governistas. Mas se algum pensa ficar de fora, engana-se. Ou se oferece uma sada para o senador ou logo prevalecer a proposta de extino do Senado, melhor dizendo, do Congresso. Um aventureiro qualquer, conhecido ou no, acabar aproveitando-se da situao, togado, fardado, de macaco, batina ou envolto na cortina-de-fumaa da popularidade. Nessa hora, lamentar no adiantar mais.

Por que no fez?

L vem o presidente Lula, outra vez, misturando as bolas. Acaba de culpar o Congresso por no haver votado a reforma poltica, acrescentando que seu governo apresentou sete sugestes essenciais que dormem nas gavetas parlamentares.

No bem assim. S h seis meses o palcio do Planalto tomou coragem e props mudanas parciais no regime eleitoral e partidrio. Como o Lula est desde 2003 no poder, a primeira indagao de que por que demorou tanto? E ainda apresentou um elenco incompleto e capenga.

Mas tem mais. O primeiro-companheiro referiu-se necessidade de dar mais fora aos partidos polticos. Mas s agora? E que teoria essa, sustentada por quem, dois anos atrs, imps ao PT a candidatura Dilma Rousseff, sem uma consulta que fosse s suas bases? Quem, na mesma semana, obriga os petistas de So Paulo a engolir Ciro Gomes para o palcio dos Bandeirantes? Ou cerceia a liberdade de diversas sees estaduais de seu partido apresentarem candidatos prprios a governador, em nome de um duvidoso apoio do PMDB candidata? Liberdade para os partidos, desde que no seja o dele.

Saiu-se o presidente com outra distoro: agora, quer evitar que a prtica poltica fique merc do Judicirio. Exige do Congresso regras definidas das quais no cuidou nem sugeriu. Algum ouviu, nos microfones oficiais, uma s palavra de protesto do Executivo quando o Tribunal Superior Eleitoral cassou mandatos de governadores e senadores eleitos pelo povo, ou estabeleceu mudanas fundamentais no processo eleitoral? A culpa, agora, do Legislativo, que mesmo j tendo se omitido tanto, ainda detm o poder da fazer leis?

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