O estelionato eleitoral e a armadilha da renda média

Fernando Dantas
Folha

A elevação da Selic pelo Copom e indicações, ainda incipientes, de que o governo pode fazer um ajuste mais duro da política fiscal em 2015 deram margem à discussão sobre “estelionato eleitoral”. Entram também neste debate as especulações sobre quem será o novo ministro da Fazenda da presidente Dilma Rousseff no segundo mandato.

Circulam na imprensa informações insistentes de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria indicado Luiz Carlos Trabuco e Henrique Meirelles, de cujos currículos consta o fato de terem alcançado a cúpula de comando do sistema financeiro privado. Trabuco é presidente do Bradesco e Meirelles foi presidente internacional do BankBoston, além, é claro, de ex-presidente do Banco Central no governo Lula. Uma solução intermediária para a Fazenda, que não feriria a militância com a opção pelo alto escalão das finanças, mas que ainda assim seria confiável para o mercado, recairia no economista Nelson Barbosa, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda.

Os críticos do “estelionato” – ainda a se confirmar, diga-se de passagem – alegam que uma virada ortodoxa representaria uma contradição frontal com o discurso de campanha de Dilma Rousseff. Afinal, no primeiro turno, para desconstruir Marina, a propaganda da presidente reeleita disse que sua adversária queria entregar o Banco Central ao sistema financeiro, o que poderia inclusive afetar a segurança alimentar da população. A razão para a crítica foi o fato de Marina ter defendido a independência do BC em seu programa.

No segundo turno, quando as baterias do PT voltaram-se contra Aécio Neves, o discurso básico de Dilma e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi o de que um eventual governo tucano, liderado na parte econômica por Armínio Fraga, ex-presidente do BC, faria um ajuste recessivo na economia brasileira, provocando desemprego. A correção viria com forte elevação de juros e drástico aperto fiscal, o que significaria eliminar isenções tributárias e subsídios – que, segundo Mantega, são a marca registrada da visão de política industrial petista rechaçada pelo liberalismo tucano.

GRAU DA MEDICAÇÃO

Mesmo que os sinais iniciais de virada ortodoxa no início do segundo mandato de Dilma se confirmem, é muito provável que o debate sobre estelionato eleitoral fique inconcluso. A razão é que a presidente e seus defensores sempre podem alegar que a diferença está no grau da medicação.

Assim, poucos analistas contestam o fato de que qualquer correção dos atuais desequilíbrios da economia brasileira envolve elevação ainda maior dos juros, que só será eficaz se esfriar o mercado de trabalho. Além disso, um ajuste fiscal minimamente sério hoje deve incluir revisão de subsídios e isenções. O governo, entretanto, pode alegar que seus adversários fariam tudo isso de forma mais intensa caso tivessem chegado ao poder. Pouco importa, aliás, o fato de que Aécio e Fraga disseram que, dado o ganho de confiança se vencessem, poderiam obter mais com menos, comparados à Dilma. Como quase sempre ocorre nos discursos contrafactuais, cada um diz o que quer e acredita no que desejar.

TRANSIÇÃO INCOMPLETA

Existe, porém, um outro lado na questão do estelionato eleitoral, sobre o qual há menos debate e preocupação, mas que provavelmente é mais importante. O Brasil, como boa parte da América Latina, está preso à chamada “armadilha da renda média”, que é a transição incompleta da pobreza ao desenvolvimento – os países param de convergir para o nível do mundo rico quando atingem uma situação intermediária de renda e de padrões socioeconômicos em geral.

Superar a armadilha da renda média, como mostra a experiência dos países asiáticos (especialmente no caso exemplar da Coreia), exige uma mobilização nacional em torno de objetivos ambiciosos que não serão atingidos sem que a sociedade entenda que determinados esforços e sacrifícios têm que ser feitos.

FÔLEGO CURTO

A busca de equilíbrio macroeconômico, competitividade exportadora, aceleração da produtividade, excelência educacional, eficiência e solidez financeira do Estado, investimentos pesados em infraestrutura e aprimoramento do ambiente de negócios – enfim, uma agenda de desenvolvimento – não se faz sem perdas permanentes para grupos específicos e eventuais sacrifícios temporários para a sociedade como um todo.

Assim, uma guinada ortodoxa na política econômica na esteira de uma campanha populista vitoriosa pode colher alguns benefícios de curto prazo na economia, mas tem fôlego curto. Qualquer ganho imediato provavelmente será combustível para novos surtos de complacência, embalados pela economia política – a sociedade não está preparada para a longa e por vezes dura marcha da convergência econômica. Que quase todas as fases de boom econômico da nossa história recente tenham redundado em crescimento muito mais expressivo do consumo do que dos investimentos é sintomático da armadilha da renda média. Para superá-la, não basta episodicamente fazer a coisa certa. É preciso sistematicamente fazer, falar e pensar a coisa certa.

7 thoughts on “O estelionato eleitoral e a armadilha da renda média

  1. É muito cara de pau essa turma da folha falar em estelionato do PT,após assistir in loco o maior de todos, que foi o do PSDB com a água em São Paulo,ao visitar alguns parentes alias todos bairristas,tive que comprar água mineral para tomar banho e beber.Em qualquer país sério o governador deveria no mínimo se suicidar,porém esse mesmo povo deu ao menino do rio a maior votação de todos os estados.

    • Caro Luiz Fernando.

      Nesse ponto o senhor está coberto de razão: Os apagões elétrico e hídrico não estão acontecendo por acaso. Estão sendo planejados para IMPEDIR O DESENVOLVIMENTO E QUEBRAR O PAÍS e os responsáveis deveriam está presos.
      -Como pode um país DEMORAR MAIS DE TRINTA ANOS para construir uma hidrelétrica?
      -Como pode um país DEMORAR MAIS DE CINQUENTA ANOS para construir uma usina nuclear?

      Sobre água, veja este post aqui da Tribuna:
      http://www.tribunadainternet.com.br/?s=aquifero

      Abraços.

      • Lembro-me bem do seu comentário, senhor Francisco Vieira, feito ainda no ano passado. Valeu pelo link, para que outros leitores possam ter uma ideia de até onde vai a displicência das ditas autoridades responsáveis (?). que após ter nas mãos o poder e a caneta para reverter tantas e lastimáveis omissões, se fazem de surpresos e, no mínimo, condenando o coitado do São Pedro, com o grande responsável de tragédias anunciadas.

        Permita-me, juntar dois tópicos do seu comentário, que podem gerar a curiosidade de outros leitores, para conhecerem mais do fato, através do link.

        1. ” Mas, graças ao imobilismo dos nossos governantes e à ideia que a população atual deve passar sede hoje para que a geração que virá daqui a 2.600 anos possa beber água, os aspectos relativos ao desenvolvimento e ao uso das funções do aquífero são ainda insignificantes, mantendo populações na MISÉRIA. Dentre estes recursos, destacam-se o seu uso na pecuária, na agricultura, com a irrigação das áreas em desertificação, e das águas aquecidas em balneários e fazendas turísticas.”

        2, “Ou não precisamos de água ou os governantes querem manter o país na miséria e os brasileiros no cabresto das cestas básicas, carros-pipas e dos empréstimos bancários. De que adianta termos as maiores jazidas de minerais caros do mundo se não podemos explorá-las? Para a maioria absoluta dos moradores do sul do país tanto faz que o Sistema Aquífero Guarani seja formado por água, por lama ou por pedra, já que permanece intocado e esperando que apareça algum governante de boa vontade.”

        Saudações,
        Grande abraço.

  2. Ótimo artigo.

    É preciso sair do discurso demagógico e eleitoreiro e apresentar políticas de médio e longo prazos para o país. E que qualquer um que assuma o exercício do poder seja capaz de dar continuidade a tais políticas, ainda que muitas vezes sejam impopulares.

    Mas, o que estamos vendo é justamente o contrário, é o estímulo para ações imediatistas e a usurpação dos caminhos para o desenvolvimento econômico e social de longo sustentáveis e de longo alcance.

    É que o PT inaugurou um novo modelo de fazer política, substituindo as ações de projeto de governo por ações de projeto de poder. Isso exige que ações imediatistas sejam reforçadas para anestesiar a população e garantir a permanência do grupo no exercício do poder.

    É muito fácil distinguir o que é real e o que é falseado entre as propostas apresentadas em campanha pelo PSDB e pelo PT. Em nenhum momento o PT apresentou programa de ações que garantissem o desenvolvimento continuado e sustentável para a economia nacional.

    E a grande arma que o partido da situação usou nesta eleição foi, de fato, a ignorância do povo.

    E vai continuar usando.

  3. Bom artigo e excelente comentário do Wagner Pires, tocando no
    fundamental: o governo do PT substituiu ações de projeto do governo
    por ações de projeto de poder.

  4. É evidente que a Presidente Dilma não cometerá estelionato eleitoral se mantiver sua linha política e o que prometeu em campanha, mas certamente
    levará o país ao caos, terá que mudar e já vem demonstrando isso, a meu ver,
    tudo que ela disse que o Aécio faria, ela deverá fazer.

  5. Que quase todas as fases de boom econômico da nossa história recente tenham redundado em crescimento muito mais expressivo do consumo do que dos investimentos é sintomático da armadilha da renda média. Para superá-la, não basta episodicamente fazer a coisa certa. É preciso sistematicamente fazer, falar e pensar a coisa certa.

    COM A CONTINUIDADE DA PRESIDANTA NO PODER TUDO O QUE NÃO VAI ACONTECER É EXATAMENTE ISSO:
    PENSAR, FALAR E FAZER SISTEMATICAMENTE A COISA CERTA!
    TUDO INDICA QUE PERDEMOS MAIS UMA VEZ O PASSO DO DESENVOLVIMENTO, ESTAMOS CONDENADOS A PELO MENOS MAIS UNS 20 ANOS À MEDIOCRIDADE ECONOMICA, POLITICA E SOCIAL! O QUE SERVE DE CONSOLO É QUE PELO MENOS TEREMOS A QUEM CULPAR!! A ANTA DA PRESIDANTA , O MULA QUE A INVENTOU E OS MILHÕES DE IMBECIS QUE OS ELEGERAM!

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