O estilo político de Carlos Lacerda

Humberto Braga

Lacerda, na idade madura, já se afastara doutrinariamente da ideologia comunista que tanto o atraíra na juventude. Mas não abandonou a implacável tática stalinista que consistia em tentar, por quaisquer meios ao seu alcance, destruir os adversários políticos.

A questão da veracidade ou não das suas acusações lhe era indiferente. Não vacilava em chamar de corrupto um antagonista cuja honradez ele mesmo reconhecera antes, publicamente, isso aconteceu várias vezes.

Democracia é, sobretudo, acatamento às regras do jogo estabelecidas na Constituição e nas leis. Lacerda, quando derrotado, pregava e pedia – clamorosa e insistentemente – a violação daquelas regras que anteriormente aceitara. Isso é confirmado pela evidência dos fatos e pelo testemunho de seus correligionários (veja-se, por exemplo, o livro “Mirante”, de Afonso Arinos Filho.

Regras do jogo nada valiam para ele. Sempre que perdia, queria virar a mesa. Era, pois, de fato, um inimigo irreconciliável da democracia. Nas suas campanhas moralistas, jamais pretendeu derrotar nas urnas os governos que combatia, e sim derrubá-los. E as suas denúncias quase sempre apontavam para erros econômicos, distorções sociais, falhas administrativas etc. e sim – predominante e obstinadamente – para o alvo da corrupção, fosse esta ou não uma realidade. Sabia que aquele ele era um ponto letal, particularmente sensível para os círculos militares com os quais mantinha estreito contato. E ele queria mais comover do que convencer.

Impressionante na personalidade do grande líder, que inegavelmente foi Carlos Lacerda, era o absoluto desprezo que sentia pelos seus adoradores. Durante muitos anos acoimou Juscelino e Jango de corruptos e bramiu contra a posse deles na Presidência da República, tal como fizera antes contra a de Vargas e faria depois contra a de Negrão de Lima no governo da Guanabara.

Todavia, quando lhe pareceu conveniente, foi a Lisboa e a Montevidéu confraternizar com aqueles dantes malsinados contendores. Dessa iniciativa não se dignou dar qualquer explicação ou justificativa a seus apaixonados admiradores. Tinha a certeza de que eles o seguiriam docilmente, fosse qual fosse seu rumo. Quem divergisse incorreria em pecado mortal.

Por isso, com freqüência e sem dificuldade, agredia os próprios partidários eminentes (poucos escaparam dos seus atacantes invariavelmente injuriosos) e não se preocupava sequer em demonstrar coerência. Foi o maior inspirador do golpe de 64 e acabou proscrito por aqueles que eram seus adeptos entusiastas.

A rumorosa trajetória lacerdista trouxe duas contribuições nefastas para a vida pública nacional. A primeira foi o maniqueísmo político. Os antagonismos partidários eram apresentados como a luta do Bem contra o Mal. Os correligionários (enquanto submissos à sua liderança) eram puros, dignos, imaculados. Os adversários, uma quadrilha de bandidos saqueadores do país.

A segunda contribuição foi a tremenda carga de ódio e de fúria transmitida a seus idólatras. Numa carta pública, Dom Helder Câmara comentou, estarrecido, como mansas e carinhosas avós se punham a falar em matar, fuzilar, massacrar, abrasadas pela pregação lacerdista. Hoje, de quando em quando, surgem erupções de neolacerdismo. Mas elas não têm o poder de fogo de seu antigo comandante.

Enfim, pela genialidade verbal e sua combatividade feroz, Carlos Lacerda foi o mais temível gladiador da arena política brasileira.

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